Mais um Caso Gump.
Eu pai ganhou uma grana num trabalho que ele fez e nós ( Eu, meu pai, minha mãe, meu irmão e minha tia, e alguns dias depois, minha esposa) havíamos viajado para os Estados Unidos.
Fomos fazer um “Tour do Dudu” pela costa oeste dos EUA. Típico passeio burguês.
Viajamos por uma semana, passando por várias cidades dos Estados Unidos até que fomos para a Califórnia. Ficamos em Los Angeles, onde passeamos bastante. Num daqueles dias, comendo sanduíche na beira da estrada meu pai vira pra meu irmão e pergunta:
- André, você gostaria de morar aqui?
-Claro.
- Então por que não fica?
Eu pensei que era uma brincadeira, mas rapidamente me toquei que era verdade. Meus pais são meio incomuns.
Pouco tempo depois estávamos passeando de carro com um objetivo. Encontrar uma escola de inglês para largarmos o meu irmão lá. Assim, sem mais nem menos. No improviso. Como convém ao “Tour do Dudu.”
Contrariando a lógica racional, achamos uma puta escola de inglês com excelentes acomodações na – não menos sensacional cidade de San Raphael, do outro lado da Baía de São Francisco.
O lugar havia sido escolhido com critérios militares. Tática pura, afinal ali é o “core” do mundo da computação gráfica. Ali estão as empresas que consomem caras como eu e o meu irmão André. Empresas como a ILM.
O tal do curso de inglês era um lugar idílico, como as grandes universidades americanas, com árvores centenárias e paredes cobertas de hera. No saguão todo de madeira, um piano de cauda.
Pensei com meus botões: Essa merda vai sair meio cara.
Meu irmão e meu pai subiram para falar com o reitor. Me parecia óbvio que não iriam aceitar assim um sujeito que chega de uma hora para outra pedindo pra estudar lá. Afinal, é um país de primeiro mundo, onde as coisas devem ser combinadas e organizadas com antecedê…
-Meus pensamentos foram por água abaixo quando meu irmão e meu pai descem as escadas saltitantes. Ele ia estudar lá. O diretor aceitou na hora, fez meia dúzia de perguntas, deu um formulário pra ele assinar e levou o garoto para ver seu alojamento com vista para o bosque.
Como se isso não bastasse, o André foi até um banco, que ficava algumas ruas abaixo e abriu uma conta.
Isso mesmo, abriu uma conta num banco dos Estados Unidos sem nenhum puto! Sem nenhum documento. Sem nada assinado, carimbado em duas vias. Sem absolutamente nada. Só com um papel emitido pelo coroa do curso de inglês que ele conheceu a menos de 15 minutos. Meia hora depois de chegarmos a San Raphael, meu irmão já era um morador dos Estados Unidos com talão de cheques e tudo mais.
Daí em diante, dedicamos o tempo a buscar roupas pra ele poder ficar lá por um ano e algum conforto.
Entenda conforto como “NOTEBOOK ultra-mega-possante”. E também um forno de microondas. Não sei de quem foi a idéia do microondas. Mas parecia fazer sentido uma vez que ele iria ficar num quarto sem cozinha. Pelo menos miojo ele poderia fazer.
Compramos numa daquelas grandes redes de supermercados que vendem de armas de guerra a absorventes íntimos com luzinhas made in Ucraine.
Íamos comprar um pequeno e portátil, mas logo na hora de pagar, vimos que havia uma montanha de caixas e elas eram de um microondas enorme, estilo North America, onde a fartura é sinônimo de felicidade.
E além de ser gigante, estava na promoção!
Compramos aquilo tudo e enfiamos como pudemos no carro. Era uma quantidade de tralha que vocês não podem imaginar.
Compramos comidas, varias latas de sopinhas. Etc. O André parecia que ia para o Pólo Sul… Minto. Parecia que ia pra Marte, de tantos equipamentos e mantimentos.
Levamos aquilo lá pra escola de inglês e qual não foi nossa surpresa quando descobrimos que nem as sopinhas, nem os miojos, e o pior, nem o microondas podia entrar lá.
Deixamos o André super feliz no curso de inglês. Eu sabia que aquela poderia ser a última vez em alguns anos que eu iria ver o meu irmão. Pelo menos daquele jeito que ele era. Morar fora foi muito bom para o amadurecimento dele. De uma certa forma eu estava certo e quando tornei a vê-lo, dois anos e alguns meses depois, ele já era outra pessoa, com muito mais experiência de vida.
Mas naquele dia foi barra pesada. A ficha da minha mãe caiu quando viramos a esquina. Não havia nenhuma palavra no carro. Estávamos em silêncio. Durante um tempo tudo que ouvíamos eram os suspiros da minha mãe.
Andamos uns três km em silêncio. Apenas havia o barulho da rua e do motor. Todos nós pensávamos naquilo tudo. Naquela doideira de largar um membro da expedição em outro país. Minha mãe deve ter fantasiado de alguma forma a perda de um filho, porque ela chorou horas e horas seguidas.
Eu tentei colocar uma musica feliz no radio do carro, mas nessas horas tudo que toca parece trilha sonora de filme feita especialmente pro espectador chorar. Até rap.
Voltamos para Los Angeles e lentamente fomos nos distraindo da falta do André. Sempre que minha mãe dava uma recaída e abria o bocão a chorar, nós consolávamos que seria bom pra ele, que ele ia voltar falando inglês daqui a uns meses, que um ano passa rápido e etc. E ela diminuía o choro. Mas no fundo no fundo, todo mundo queria dar uma choradinha.
De volta a Los Angeles, não achávamos hotel. Parecia que nossa sorte miraculosa havia descido do carro junto com o André. Todos os lugares estavam lotados. Não achávamos hotel.
Acabamos encontrando um num lugar super privilegiado. No centro de Hollywood.
Era Hollywood Boulevard. Uma rua famosa por ser a “calçada da fama” de dia, e a “calçada das putas” de noite.
Este hotel que era a poucos metros do grande teatro chinês, não me pareceu um lugar digamos, muito familiar a princípio. O quarto tinha um cheiro de cigarro com bebida no carpete vermelho. Aliás, como os americanos gostam de carpete, né?
O problema nem era o cheiro. Era o Humphrey Bogart.
Ele ficou a noite toda olhando pra mim.
Havia na parede bem em cima da minha cama uma pintura de gosto super duvidoso, onde estava o Humphrey Bogart, o Charles Chaplin e um travesti, que só no dia seguinte entendi que era a Marilyn Monroe.
O Bogart estava com um olhar de cahaceiro assassino e aquele olho maldito não saía da minha direção. Custei a dormir. A noite, só ouvíamos barulhos de carros em alta velocidade, gritos e carros de polícia. Foi dureza.
Quando amanheceu, meu pai estava com aquele peculiar bom humor que incomoda todo mundo. Era nosso último dia. O vôo seria à tarde. Às cinco horas.
Tomamos café na espelunca, digo, no hotel e meu pai teve a brilhante idéia de comprar um palmtop, uma novidade, “o último arroto da moda geek” naquele tempo.
Ele achou um superbarato numa propaganda de loja de eletrônicos em Hollywood que estava num jornal do saguão. Resolvemos comprá-lo.
A idéia de ir até uma loja da Fry´s é sempre bem vinda para nerds como eu. Me sinto bem a vontade em grandes magazines de eletrônicos, como a CompUSA.
O problema é que este lugar era LONGE PRA CARALHO!
Andamos, andamos, atravessamos centenas de avenidas. E nada da porra da loja chegar.
Quando finalmente chegou, já era meio dia.
Entramos e começa a feira consumista desmedida. Lá pelas tantas, meu pai finalmente acha a área dos palmtops. Ele pega o palmtop, olha bem pra ele e diz:
- Ah, isso é coisa de boiola! Não vou comprar isso não.
Essa hora foi cômica. Como alguém atravessa metade de uma cidade tão inutilmente, meu Deus? Pra se ter uma idéia, é algo como ir de Petrópolis até a Barra da Tijuca pra chegar a conclusão que o troço é coisa de boiola.
Pois foi isso que aconteceu. Ele olhou bem no naipe do palm e achou aquilo coisa de baitola. Fomos almoçar e então resolvemos voltar. Eu olhei no relógio e as contas não estavam batendo. Aparentemente, levamos mais tempo para chegar no palm boiola do que teríamos para voltar e pegar o avião. O vôo era às cinco da tarde, o que implicava em fazer check in precisamente as três e meia. Mas eram duas e meia da tarde e nós estávamos milhas e milhas distantes do aeroporto. Pra variar, perdidos.
Nós tínhamos um mapa que era feito um caderno em espiral. Quando eu olhei no mapa, estávamos a seis páginas do aeroporto. Consegui depois de muito custo encontrar uma avenida reta que ia até a beira do aeroporto.
Todo mundo começou a ficar nervoso. O tempo estava contra nós.
A hora foi passando e a gente não saía da segunda página do mapa. Toda hora alguém me perguntava se ainda faltava muito.
Pra não desanimar o pessoal nem causar pânico, eu dizia que “estava chegando”.
Repeti isso tantas vezes, que virou um bordão. Todos nós começamos a ficar nervosos quando meu pai começou a ficar nervoso.
Se meu pai que é o cara mais descansado do mundo com horário começa a se desesperar, é porque já passou da fase “ferrou” há muito tempo.
Eu mostrei pra ele o que ainda faltava e meu pai virou o “senhor volante”.
Já viu Velozes e Furiosos? Meu pai saiu dirigindo daquele jeito com um carro cheio de gente e tralhas. E com um belo microondas novinho.
Lá pelas tantas, em meio ao sufoco, a minha tia começou a rezar no banco de trás.
A hora passava. Cada segundo era precioso. A Nivea ficou muda. Dali a uns minutos minha mãe também começa a rezar.
Meu pai começou a costurar no trânsito até que chegamos numa das coisas mais comuns em Los Angeles. O pitoresco engarrafamento.
Se você acha que em São Paulo tem engarrafamento, é porque não conhece Los Angeles, a maior cidade de um estado que tem mais carros do que todo o Brasil.
Era um puto dum engarrafamentão. Bem na hora do perrengue. Nunca detestei tanto um palmtop de boiola quanto naquele dia.
Meu pai nem se apertou. Entrou com tudo pelo acostamento.
Quando digo que ele “entrou com tudo” quero dizer que ele não freiou. Andamos a mais de 100 km/h pelo acostamento, tirando fininhos de milhares de carros caríssimos. Metade deles buzinava de susto. A roda do nosso carro devia estar passando a menos de três centímetros do guardrail. Nós todos sem respirar dentro do carro, víamos meu pai dirigindo como a encarnação do Ayrton Senna misturada com o Nigel Mansell e o Fanjo.
O perrengue era grande. E acredite se puder, chegamos faltando poucos minutos para encerrar o check in. Mas havia um problema, como entregar o carro da empresa de aluguel de carros Hertz?
Descarregamos tudo como deu. ( isso quer dizer, jogamos as malas pra fora da minivan de qualquer maneira) Eram malas que não acabavam mais. Metade delas de muamba. Até uma espada eu comprei.
Mas a recordista em compras era minha tia, com um monte de malas. Uma das malas era só de presentes para o cachorro dela.
E as comidas? Pensando em deixar umas coisas pro André que não puderam entrar, acabamos com sacos de cereja, uvas, um saco gigante de uns 5 kg de maçãs, que meu pai jurou que íamos comer, e não comeu nem uma sequer, enfim.
Noso carro tinha tanto badulaque, que havia dois dias que eu não conseguia fazer a barba, uma vez que nem sabia onde tinha ido parar as lâminas. ( eu comprei espuma e uma caixa enorme de lâminas de barbear)
Era peso morto que não acabava mais.
Jogamos tudo pra fora do carro e corremos com o carro para a Hertz.
Orientamos a Nivea, a minha mãe e a minha tia, pra irem fazendo o check in. Como só minha tia falava um inglês meio macarrônico, nós sabíamos que isso distrairia o processo de check in a ponto de conseguirmos chegar de volta da Hertz.
Corremos como uma bala para a Hertz e parecia que a sorte estava do nosso lado. Entregamos o carro ainda cheio de comida.
Do lado de fora, dois caras conversavam. Eu perguntei a eles sobre o ônibus e um deles era o motorista. Ele disse que o ônibus só sairia em vinte minutos para o aeroporto.
Eu quase tive um infarto. Em vinte minutos era para estarmos no avião voando.
Falei com ele e mostrei o bilhete. Aí quem quase teve um infarto foi ele.
O cara falou algumas coisas pelo rádio e nos jogou pra dentro do ônibus.
Ele também dirigiu feito um maluco e conseguimos chegar como planejamos no balcão de check in.
Quando chegamos no check in, descobrimos mais um perrengue.
Havia mala demais. Era excesso de bagagem. Meu pai tentou resolver a situação numa das cenas mais engraçadas da viagem.
Ele virou pro cara do balcão e apontou para o microondas e depois pra ele e disse:
TO YOU! – Gift!
O cara arregalou os olhos e só dizia:
No, no, no, no….
E meu pai: Gift, to you, to you.
O cara não aceitou, o microondas de presente, obviamente. O problema é que pagar excesso de bagagem era mais caro que o preço daquela merda.
Tivemos que resolver a situação porque já tinha apitado a última chamada. Meu pai combinou de dividir o prejú do excesso de bagagem do microondas com a irmã dele e entramos. Aí chegamos naquela unidade de segurança. Passa as bagagens de mão no raio X, abre a calça, tira o sapato. Um calorão do caramba. Eu suando em bicas.
Os atentados de 11 de setembro haviam acontecido havia pouco tempo e eles estavam paranóicos com atentados terroristas.
Isso explica por que o cara arregalou os olhos ao ver um gringo com cara de turco dando um microondas novinho pra ele no aeroporto. Muito surreal.
Passamos as bagagens e corremos para o portão.
Havia uma mulher com cara de sargenta alemã nazista da segunda guerra, que era a responsável pelo vôo. Ela gritava e acenava para entrarmos logo no avião. Nisso, o vôo já estava com alguns minutos de atraso por nossa causa.
A moça aflita da companhia já estava fechando o portão.
Então eu olho e cadê a minha mãe? Nada. Não estava em nenhum lugar. Foi quando eu voltei e ao longe, vi minha mãe chorando no balcão de raio X.
Saí do avião e a sargenta gordona tentou me impedir. Eu dei um empurrão nela e ela quase caiu sentada. Começou a gritar comigo. Eu comecei a gritar com ela em português.
- Vai se foder sua vaca! – Com o dedo na cara dela. Ela meio que se cagou. E eu saí correndo pra encontrar minha mãe.
Ela queria fechar a porta do avião, mas minha mãe ia ficar pra fora. Minha mãe não fala nada de inglês.
Corri até lá deixando a gorda aos berros para trás.
Cheguei até o raio X e minha mãe estava desesperada procurando a bolsa.
Eu disse:
-Mãe, meu pai deve ter levado. Vamos embora. Agarrei ela pelo braço e saímos correndo.
Estavamos correndo feito loucos. Aí dispara um alarme. Naturalmente alguém da segurança viu uma movimentação estranha em um vôo, alguém empurrando a chefe de operações, pessoas correndo e gritaria e disparou o alarme de perigo.
Nisso, vieram os marines americanos de roupa camuflada e capacete armados com fuzis. Eram uns cinco com as armas apontadas na minha cabeça. Eu pensei sériamente que tinha chegado a hora de morrer num belo incidente internacional.
Eu parei na hora e digamos que no “brioco não passava nem uma leve brisa”.
Aí a sargenta apareceu. Ela pegou a minha mãe pelo braço e falou alguma coisa com os militares. Eles abaixaram as armas e ela nos jogou com toda delicadeza que só uma sargenta da SS em Auschwitz é capaz de fazer, pra dentro do avião e bateu a porta.
Aí vem uma das situações mais engraçadas da minha vida. Olhar para os passageiros. Todos eles sentados. Alguns com a cabeça entre as pernas.
Todo mundo SE CAGANDO DE MEDO de ser um atentado terrorista.
Aí me toquei da minha aparência. Barba por fazer. Olheiras, expressão de cansaço e medo. Cabelo desengonçado, suado… Eu era o protótipo do terrorista implantado pela mídia no inconsciente coletivo.
Imagina, você pega um avião tranqüilamente e ele começa a atrasar. Então acontece uma gritaria. Ninguém te dá informação. Dispara um alarme. Você pensa: “Fudeu. È o Osama!!!”
Fomos até nossos lugares e finalmente relaxamos. Minha mãe abriu a boca a chorar.
Ela chorava tão copiosamente, pelo meu irmão, pelo perrengue da volta ao aeroporto, pelo jeito que meu pai dirigiu, pelos soldados com fuzis apontados para nós, que meu pai teve que pegar o cobertorzinho que entregam no vôo e colocou na cabeça dela pra evitar de incomodar os passageiros.
Eu tenho certeza que um coroa que estava na primeira poltrona da fila do lado estava certo de que éramos terroristas, porque ele não desgrudou os olhos esbugalhados de pavor nem um segundo de nós. Eu acho que ele estava pensando que minha mãe era uma terrorista que estava se recusando a morrer na explosão do avião.
Este foi o Tour do Dudu voltando da Califórnia.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Estranhas coincidências
Uma vez me aconteceu uma coincidência que eu guardei para contar quando tivesse uma biografia. Como o Rio anda meio violento, eu acho melhor publicar aqui antes que eu possa me estrepar.
Eu tinha uns 20 anos e estava no mIRC ( um sistema de chat).
Entrei de madrugada pra bater papo com o pessoal da lista de 3d. Como na hora que eu entrei não tinha ninguém, resolvi conversar com alguém. Entrei no canal BRASIL.
No canal Brasil tinha umas mil e tantas pessoas. Escolhi aleatóriamente um nick de mulher.
Mandei aquele clássico “oi” e esperei uma resposta.
Ela me respondeu.
Então começamos a bater papo. Aquele texto “padrão” de MIRC. Onde você está, seu nome, seu signo, sua idade…
Comecei pela idade. Ela disse que tinha 20.
- Que legal, eu também.
-Você mora onde? – Ela perguntou.
- No Rio. – Disse eu. E já emendei a pergunta: E você?
- Eu também.
- Que coincidência.
-Pois é.
- Em que cidade?
- Em Niterói.
-Caramba.
- Que foi?
- Eu tb estou em Nikity.
- Nossa. Que bairro? Só falta ser Icaraí.
- Isso mesmo. Icaraí.
-Pô, no canal do Brasil inteiro eu acho alguém no mesmo bairro que eu. Inacreditável.
-MAs em que rua vocÊ está? Eu estou na Praia de Icaraí – disse ela. Aí eu bolei. Eu estava também. Na mesma rua.
-Eu estou na mesma rua. Também moro na Praia.
- Uau! Só falta ser no mesmo prédio.
-Aí seria mais que impossível. Eu estou no Varandas.
-No varandas de Icaraí? No 75???? – Disse ela seguido de uma coisa assim: <8O
Eu bolei na hora. Uma pessoa no meu prédio! Escolhida ao acaso no canal do país inteiro da rede BraSIRC.
- Eu estou aqui sim. No 10 andar. – disse ela.
Era meu andar! Como dizer isso pra ela?
- Olha, eu também estou, acredite se quiser, no mesmo andar que você.
-Ah, você está de sacanagem!
-Não, juro. Estou no apartamento 1004!
-Calmaí! No 1004 eu que estou! Como é que pode? – comecei a pensar que era algum tipo de hacker tirando onda com a minha cara. RAstreamento pelo Ip, coisas de 007. E ela continuou:
-VocE está de brincadeira. Como sabe onde eu moro?
- Ei, eu não sei nada. Só sei que este endereõ que você deu é o meu.
-Não não é.
-É.
-…
-…
-…
-… – Aí caiu a ficha:
-Ei.
-…
-Ei!!!! Que bloco?
-Bloco b.
- Ah! Eu estou no bloco A.
- Caramba!!!!!!! Sai aí na varanda pra eu ter certeza.
-Já vou.
Aí eu corri na varanda e logo depois uma menina de uns quatorze anos apareceu na varanda em frente. Deu um tchau meio sem graça e entrou. Eu nunca mais a vi.
É incrível ou não é?
A menina era a irmã da Manoela. Minha vizinha na época.
Eu tinha uns 20 anos e estava no mIRC ( um sistema de chat).
Entrei de madrugada pra bater papo com o pessoal da lista de 3d. Como na hora que eu entrei não tinha ninguém, resolvi conversar com alguém. Entrei no canal BRASIL.
No canal Brasil tinha umas mil e tantas pessoas. Escolhi aleatóriamente um nick de mulher.
Mandei aquele clássico “oi” e esperei uma resposta.
Ela me respondeu.
Então começamos a bater papo. Aquele texto “padrão” de MIRC. Onde você está, seu nome, seu signo, sua idade…
Comecei pela idade. Ela disse que tinha 20.
- Que legal, eu também.
-Você mora onde? – Ela perguntou.
- No Rio. – Disse eu. E já emendei a pergunta: E você?
- Eu também.
- Que coincidência.
-Pois é.
- Em que cidade?
- Em Niterói.
-Caramba.
- Que foi?
- Eu tb estou em Nikity.
- Nossa. Que bairro? Só falta ser Icaraí.
- Isso mesmo. Icaraí.
-Pô, no canal do Brasil inteiro eu acho alguém no mesmo bairro que eu. Inacreditável.
-MAs em que rua vocÊ está? Eu estou na Praia de Icaraí – disse ela. Aí eu bolei. Eu estava também. Na mesma rua.
-Eu estou na mesma rua. Também moro na Praia.
- Uau! Só falta ser no mesmo prédio.
-Aí seria mais que impossível. Eu estou no Varandas.
-No varandas de Icaraí? No 75???? – Disse ela seguido de uma coisa assim: <8O
Eu bolei na hora. Uma pessoa no meu prédio! Escolhida ao acaso no canal do país inteiro da rede BraSIRC.
- Eu estou aqui sim. No 10 andar. – disse ela.
Era meu andar! Como dizer isso pra ela?
- Olha, eu também estou, acredite se quiser, no mesmo andar que você.
-Ah, você está de sacanagem!
-Não, juro. Estou no apartamento 1004!
-Calmaí! No 1004 eu que estou! Como é que pode? – comecei a pensar que era algum tipo de hacker tirando onda com a minha cara. RAstreamento pelo Ip, coisas de 007. E ela continuou:
-VocE está de brincadeira. Como sabe onde eu moro?
- Ei, eu não sei nada. Só sei que este endereõ que você deu é o meu.
-Não não é.
-É.
-…
-…
-…
-… – Aí caiu a ficha:
-Ei.
-…
-Ei!!!! Que bloco?
-Bloco b.
- Ah! Eu estou no bloco A.
- Caramba!!!!!!! Sai aí na varanda pra eu ter certeza.
-Já vou.
Aí eu corri na varanda e logo depois uma menina de uns quatorze anos apareceu na varanda em frente. Deu um tchau meio sem graça e entrou. Eu nunca mais a vi.
É incrível ou não é?
A menina era a irmã da Manoela. Minha vizinha na época.
A mulher pelada sob a cama da minha avó
Eu tinha uma namorada lá em Três Rios. Acho que já comentei isso aqui naquele post em que as malucas falavam no ônibus, não?
Então, eu namorava esta menina que chamaremos de J* para preservar sua identidade, afinal ela está casada e não é muito legal contar coisas íntimas assim das pessoas, sobretudo se o marido delas nem imagina isso.
O fato é que eu ia periódicamente para Três Rios, uma cidade do interior do estado do Rio, que é divisa com Minas Gerais encontrar a minha namorada.
Sabe como é, cidade pequena é uma merda. Namorar em cidade pequena é um problema porque sempre tem um maldito que está de olho em você. Esteja você fazendo o que estiver, sempre haverá alguém com aqueles olhos incriminadores apontados em sua direção.
Nós já namorávamos a um certo tempo, e um dia bateu aquele tesão típico. Mas neste dia eu não tinha grana para ir a um motel. Sem grandes opções, tivemos que segurar o fogo até onde deu.
Fomos num churrasco na casa do meu tio e entre asinhas de frango e coxinhas, eu só pensava em enterrar a linguiça. ( nossa senhora, Só mais um trocadilho infame como este e eu vou parar no Zorra Total!)
O lance é que nós tivemos a idéia sensacional ( ao menos naquele momento, parecia sensacional) de irmos para a casa da minha avó resolver a situação.
Demos o perdido no churrasco e fomos.
Foi aquela coisa, um fogo danado, sabe como é. Estávamos no maior rala e rola quando ouvi o barulho do portão.
- Ferrou! – Eu pensei. Imediatamente imaginei que a minha avó sacou qual era a idéia e resolveu dar o flagrante.
Levantei rápido e nisso a chave já girava na fechadura. J* olhou pra mim assustada.
- Rápido se esconde. Corre!
Estávamos no segundo andar, de onde não havia nenhuma saída que não passasse pela escada da sala. Minha avó entrou em silêncio. Eu pude ouví-la subindo as escadas de madeira que estalavam. Empurrei a J* para debaixo da cama da minha avó.
- Porra! Pelada? – Disse ela assutada.
- Cala a boca e entra aí! – Eu falei sussurrando enquanto socava as roupas dela lá pra baixo.
Os passos seguiam-se dos estalidos da madeira antiga e eu sabia que faltavam poucos segundos para o caos se instalar.
O problema todo estava no fato de que seguindo o preceito “familiar” das cidades pequenas, não era de bom tom desvirginar uma moça sem casar com ela. Na verdade isso seria digno de morte a pedradas, e a família dela mal imaginava que a menina era o que minha avó classifica como “mulher furada” até hoje. A J* já tinha mais de 20 anos e ainda contava pras tias e mãe que era virgem. Isso propiciava um enorme empecilho para nossos encontros amorosos, uma vez que cada uma escapada era precedida de um meticuloso plano para determinar as melhores condições físico-químico-geopolítico-eróticas.
Por causa desta mentira, a tia dela, uma beata, cobrava da minha avó uma vigilância enorme sobre nós dois. E minha avó não iria querer sair dessa história como uma “libertina”.
Voltando ao caso:
Minha avó subia as escadas e eu corri para o banheiro carregando precáriamente a minha roupa. Abri o chuveiro e em dez segundos depois minha avó gritou:
- Philipe?
- Quê vó?
- Está sozinho?
- Claro ué.
- Então abre aí.
- Calma aí, vó tô tomando banho.
- Não quero saber. Abre logo essa porta. Tá pensando que berimbau e gaita? – Eu nunca mais esqueci esta frase.
Eu imagino o nível de cagaço sobre-humano que J* sentia deitada, nua sob a cama da minha avó naquele momento.
Eu fechei o chuveiro e me enrolei na toalha. Abri a porta e vi minha vó dar aquela geral a la delegado de polícia pelo banheiro. Só faltou olhar nas gavetas pra ver se achava minha namorada. Não achou nada e falou meio sem graça:
- Achei que você tinha vindo com a J*.
- Não vó. Ela tava com dor de cabeça e eu vim tomar banho para ir tomar sorvete com ela ( essa do sorvete sempre colou)
- Ah, tá. Então tá.
- Ei vó. Onde que a senhora vai?
- Vou dormir ué.
-…
-Por que?
- Nada não vó.
Depois a J* me contou que a minha vó tinha ido no quarto antes de bater na porta do banheiro. Ela viu os pés da minha vó rodearem a cama e mexerem na cortina.
Minha vó então entrou no quarto e fechou a porta. Ficou tudo escuro. Logo depois a cama estalou e formou-se uma barriga que imprensou a pobre coitada da J* no chão cheio de poeira.
A J* era alérgica a poeira e teve que segurar o espirro para não passar o maior vexame de toda sua vida. (e da minha, claro).
Minha avó, movida a umas cervejas dormiu umas três horas. Tempo em que eu fiquei com o * na mão esperando que J* não soltasse um daqueles mil espirros. Ela contou que minha vó roncou feito uma moto-serra.
Aí depois de um tempo que parecia que nunca iria acabar, minha vó acordou. Ela foi comprar pão para o café. Neste momento eu corri lá e vi a infeliz da J* ainda nua, meio trêmula. Parecia um defunto.
Puxei a J* da cama e ela vestiu a roupa. Corremos para o andar de baixo onde ela se escondeu no outro quarto. Fui até a rua para ver se havia algum sinal da minha avó. Nada.
Corremos para a rua e demos a volta no quarteirão.
Então chegamos como se nada tivesse acontecido.
Então, eu namorava esta menina que chamaremos de J* para preservar sua identidade, afinal ela está casada e não é muito legal contar coisas íntimas assim das pessoas, sobretudo se o marido delas nem imagina isso.
O fato é que eu ia periódicamente para Três Rios, uma cidade do interior do estado do Rio, que é divisa com Minas Gerais encontrar a minha namorada.
Sabe como é, cidade pequena é uma merda. Namorar em cidade pequena é um problema porque sempre tem um maldito que está de olho em você. Esteja você fazendo o que estiver, sempre haverá alguém com aqueles olhos incriminadores apontados em sua direção.
Nós já namorávamos a um certo tempo, e um dia bateu aquele tesão típico. Mas neste dia eu não tinha grana para ir a um motel. Sem grandes opções, tivemos que segurar o fogo até onde deu.
Fomos num churrasco na casa do meu tio e entre asinhas de frango e coxinhas, eu só pensava em enterrar a linguiça. ( nossa senhora, Só mais um trocadilho infame como este e eu vou parar no Zorra Total!)
O lance é que nós tivemos a idéia sensacional ( ao menos naquele momento, parecia sensacional) de irmos para a casa da minha avó resolver a situação.
Demos o perdido no churrasco e fomos.
Foi aquela coisa, um fogo danado, sabe como é. Estávamos no maior rala e rola quando ouvi o barulho do portão.
- Ferrou! – Eu pensei. Imediatamente imaginei que a minha avó sacou qual era a idéia e resolveu dar o flagrante.
Levantei rápido e nisso a chave já girava na fechadura. J* olhou pra mim assustada.
- Rápido se esconde. Corre!
Estávamos no segundo andar, de onde não havia nenhuma saída que não passasse pela escada da sala. Minha avó entrou em silêncio. Eu pude ouví-la subindo as escadas de madeira que estalavam. Empurrei a J* para debaixo da cama da minha avó.
- Porra! Pelada? – Disse ela assutada.
- Cala a boca e entra aí! – Eu falei sussurrando enquanto socava as roupas dela lá pra baixo.
Os passos seguiam-se dos estalidos da madeira antiga e eu sabia que faltavam poucos segundos para o caos se instalar.
O problema todo estava no fato de que seguindo o preceito “familiar” das cidades pequenas, não era de bom tom desvirginar uma moça sem casar com ela. Na verdade isso seria digno de morte a pedradas, e a família dela mal imaginava que a menina era o que minha avó classifica como “mulher furada” até hoje. A J* já tinha mais de 20 anos e ainda contava pras tias e mãe que era virgem. Isso propiciava um enorme empecilho para nossos encontros amorosos, uma vez que cada uma escapada era precedida de um meticuloso plano para determinar as melhores condições físico-químico-geopolítico-eróticas.
Por causa desta mentira, a tia dela, uma beata, cobrava da minha avó uma vigilância enorme sobre nós dois. E minha avó não iria querer sair dessa história como uma “libertina”.
Voltando ao caso:
Minha avó subia as escadas e eu corri para o banheiro carregando precáriamente a minha roupa. Abri o chuveiro e em dez segundos depois minha avó gritou:
- Philipe?
- Quê vó?
- Está sozinho?
- Claro ué.
- Então abre aí.
- Calma aí, vó tô tomando banho.
- Não quero saber. Abre logo essa porta. Tá pensando que berimbau e gaita? – Eu nunca mais esqueci esta frase.
Eu imagino o nível de cagaço sobre-humano que J* sentia deitada, nua sob a cama da minha avó naquele momento.
Eu fechei o chuveiro e me enrolei na toalha. Abri a porta e vi minha vó dar aquela geral a la delegado de polícia pelo banheiro. Só faltou olhar nas gavetas pra ver se achava minha namorada. Não achou nada e falou meio sem graça:
- Achei que você tinha vindo com a J*.
- Não vó. Ela tava com dor de cabeça e eu vim tomar banho para ir tomar sorvete com ela ( essa do sorvete sempre colou)
- Ah, tá. Então tá.
- Ei vó. Onde que a senhora vai?
- Vou dormir ué.
-…
-Por que?
- Nada não vó.
Depois a J* me contou que a minha vó tinha ido no quarto antes de bater na porta do banheiro. Ela viu os pés da minha vó rodearem a cama e mexerem na cortina.
Minha vó então entrou no quarto e fechou a porta. Ficou tudo escuro. Logo depois a cama estalou e formou-se uma barriga que imprensou a pobre coitada da J* no chão cheio de poeira.
A J* era alérgica a poeira e teve que segurar o espirro para não passar o maior vexame de toda sua vida. (e da minha, claro).
Minha avó, movida a umas cervejas dormiu umas três horas. Tempo em que eu fiquei com o * na mão esperando que J* não soltasse um daqueles mil espirros. Ela contou que minha vó roncou feito uma moto-serra.
Aí depois de um tempo que parecia que nunca iria acabar, minha vó acordou. Ela foi comprar pão para o café. Neste momento eu corri lá e vi a infeliz da J* ainda nua, meio trêmula. Parecia um defunto.
Puxei a J* da cama e ela vestiu a roupa. Corremos para o andar de baixo onde ela se escondeu no outro quarto. Fui até a rua para ver se havia algum sinal da minha avó. Nada.
Corremos para a rua e demos a volta no quarteirão.
Então chegamos como se nada tivesse acontecido.
Com ou sem – Minha noite no pior hotel do mundo
Com ou sem – Minha noite no pior hotel do mundo
Naquele tempo eu trabalhava para a IDD miniaturas. Era um trabalho interessante, apesar do fato de que era uma furada só que ninguém normal além de mim e meu irmão Raphael encararmos. Nós criávamos bonecos de RPG. Fazíamos as matrizes, esculpindo os bonecos em durepoxi durante dias, e então entregávamos para a fábrica, que os copiava aos milhares.
Havíamos viajado para participar de um festival de RPG em Belo Horizonte. O dia foi muito divertido, com mil e uma atividades. Ao fim do dia voltaríamos de carona no carro do Átila, que era o dono da IDD.
Eu já estava ficando meio incomodado, pois era muito homem num carro pequeno. Chegou uma hora que comecei a sentir uma dor nas costas filha da puta. A dor só aumentou com a dificuldade de arrumar posição naquela lata velha do Átila.
Comecei a pensar num jeito qualquer de sair daquele carro. Vendo uma placa na estrada, perecebi que iríamos passar por Três Rios, a cidade da minha avó. Quando o carro finalmente passou em Três Rios, já era umas duas horas da manhã. Decidi avisar a eles que iria descer lá.
Meu irmão não quis descer e resolveu voltar com eles pra Niterói.
Eu desci do carro me achando super-esperto. Estiquei a coluna, peguei minha mala de bonecos, recheada de alicates, ferramentas e instrumentais e entrei pelo baixo portãozinho do jardim na casa da minha avó.
Comecei a bater no portão. Eu bati, chamei, assobiei e só faltou virar cambalhota. Nada. Nenhuma resposta, apenas o silêncio da noite, com aqueles grilinhos estrilando ao longe.
Comecei a bicar o portão. Meus avós tem um sono pesado da porra, e não era a primeira vez que um parente tinha que esgoelar até ficar azul para minha vó chegar na janela.
Eu gritei tanto que num ruído assustador uma janela ao meu lado se abriu. Era Yone, a vizinha. Cheia de bobs na cabeça. ( imagina a cruza da Dona Florinda com Satanás? É ela.)
-Sua avó viajou pra Niterói. Não tem ninguém aí não.
- …. – Não consegui dizer nada. Só pensei: PUTAQUIPARIIIIIIIU!
-Er… Obrigado. Desculpa acordar a senhora.
A Yone não falou nada. Só fechou a janela com uma estridente batida no melhor estilo louca-antipática possível.
Eu caí na real que estava simplesmente ferrado. Um frio do caralho.
Três Rios é a típica cidade do interior do estado do Rio. No verão é um calor de matar. No inverno é um frio de doer. Parece até a farda do exército. E naquela noite estava particularmente frio.
Abri minha malinha de ferramentas e comecei a tirar uns alicates. Pensei em arrombar a fechadura no melhor “Mc Guiver way of life”. Depois de uns 40 minutos de insucessos, prendi meu dedão na dobradiça do alicate de corte e fiquei puto. Nos filmes tudo é mais fácil.
Caí na real que já passava da hora de dormir e que eu teria que arrumar um lugar para pernoitar.
Me lembrei do banco. Não aquele banco onde os ricos ganham dinheiro, mas um banco de praça do século XIX que minha vó tem no jardim.
Corri para o banco e tentei me ajeitar como pude. Fechei os olhos e tentei dormir.
Não deu.
O banco era duro pra caramba. Nos primeiros dez minutos eu pensei que dormiria, mas no décimo primeiro eu já notei, da pior maneira, que as réguas de madeira me arrebentavam mais ainda a coluna. Não havia lugar para colocar a cabeça nem os pés. E começou a cair um sereno frio.
Não havia jeito. Eu teria que arrumar um lugar para dormir.
Saí com minha malinha de ferramentas pelas ruas desertas, dignas de um bom filme de terror.
Andei por vários minutos pelo centro à procura de um hotel qualquer. Eu não podia ficar num bom hotel por dois motivos. O primeiro é que eu só tinha vinte reais no bolso. O segundo motivo era que simplesmente não existem bons hotéis em Três Rios. Só duas merdas e um melhorzinho, que na verdade mesmo, era uma semi-merda.
Então melhor Hotel de lá, seria equivalente ao pior hotel imaginável do Rio de Janeiro.
Pois lá estava eu. Procurando algum lugar, por pior que fosse, para passar a noite.
Andei pelas proximidades da rodoviária.
Na minha imaginação inocente, perto de uma rodoviária seria um bom lugar para encontrar um hotel, afinal, é na rodoviária que os turistas chegam, né?
Não. Não tinha uma porra dum hotel.
Então comecei a andar a esmo pela cidade. A hora avançava. E nada de encontrar uma viva alma que pudesse me mostrar um caminho, dar uma dica.
Foi quando ouvi que vinha passando um carro pela rua que eu estava. Por sorte, era um táxi. Fiz sinal. O cara diminuiu. Não parou, apenas andou mais devagar.
Eu perguntei pra ele se havia algum hotel por ali.
O cara deu um sorriso e disse que naquela hora eu só ia conseguir encontrar o Hotel Três Rios. ( ou Hotel Entre-Rios, não lembro bem)
Ele apontou o caminho e partiu.
Eu caminhei pra caramba. A porra do Hotel era longe pra dedéu.
Quando cheguei em frente ao hotel, olhei o letreiro, algumas letras faltando, a fachada pichada com um visual tão medonho que pensei seriamente se não era o momento de voltar e dormir no banco do jardim da minha avó.
Mas não sei de onde nem como, obtive uma certa dose de coragem e empurrei a porta de madeira. Ela deu um rangido chorado, como só as tampas de caixões do conde drácula são capazes. No interior era apenas o breu. O breu mais escuro e inacreditavelmente preto. Posso até dizer, sem medo de resvalar no exagero que o preto no interior do saguão do Entre-Rios Hotel era maior do que quando fecho meus olhos.
Fui andando devagarinho, com a mão para a frente, tentando inutilmente detectar qualquer objeto em meu caminho. Topei com alguma coisa pelo chão. Era mole. Tive medo de ser um cachorro. Ou pior, um gato.
Resolvi me manter fixo, parado. Esperando que minhas pupilas se dilatassem escancaradamente para que ao menos um maldito bastonete pudesse captar uma vaga informação visual.
Isso aconteceu lá pelo décimo sexto minuto em que eu estava ali dentro.
Durante este tenebroso tempo, só pude recorrer aos meus outros sentidos. E o que mais sofreu foi o olfato. O hotel tinha um cheiro estranho de coisa velha. Parece aqueles baús de fotos antigas, misturado com cheiro de brechó e cemitério. Havia uma coisa de fumaça de cigarro entranhado em todos os lugares. E poeira. Cheiro de poeira.
Quando meus olhos começaram a se adaptar, eu pude ver que havia ali na minha frente, um balcão de madeira. Caminhei até ele e tateando notei aquelas campainhas típicas de hotel de filme.
Toquei.
Nada.
Toquei novamente.
Nada.
Fiquei esperando, afinal, sou um cara moderadamente educado, mas quando vi que nada realmente acontecia naquela merda, perdi a linha e toquei “a nona sinfonia de Beethoven” na porra da campainha.
Só contive a fúria quando um rangido horrível aconteceu, dando um eco estranho. Lá em baixo, num corredor (eu descobri que era um corredor depois) uma luz se acendeu.
Lentamente, uma coisa cambaleante começou a vir pelo tal corredor. Eu não conseguia obter uma boa visão daquilo, pois o corredor era paralelo a lateral do balcão. Assim só vi uma sobra, que avançava lentamente. Tive tamanho medo daquela merda que pensei em correr. Era um troço tenebroso, na forma de um corcunda que parecia não ter uma cabeça. E ainda puxava da perna. Tive medo de dar de cara com o “homem elefante”.
Quando a tal coisa apareceu, dei até dois passos para trás. Ali, bem na minha frente, estava um OGRO.
Um ogro de RPG.
Sem sacanagem. Eu descobri naquele momento, que os ogros existem mesmo. Pelo menos em Três Rios. O “recepcionista” Era uma porra dum velho horrível, com uma corcunda, braços magrelos e um barrigão desproporcionalmente grande, que caberia umas três crianças dentro. Pelo lado de fora estava um cuecão mal enjambrado. Não deu pra ver graças a aquela penumbra que vinha da luz do tal corredor tenebroso se o velho tinha todos os dentes. Mas deu pra notar na hora que ao menos os que haviam ali naquela boca, não estavam na ordem que deveriam.
O velho se dirigiu a mim com aquela tradicional educação e cortesia que se espera de um recepcionista de hotel daquele porte:
- QUEQUECÊQUÉ? – Dito assim mesmo. Meio gritado e num tom autoritário.
- Eu… Eu… Queria, bem, eu queria…
-FALALOGO!
-Eu queria um quarto, por favor.
-TÁ. Disse ele, abaixando-se com certa dificuldade. Olhou pra mim meio de lado. A cabeça dele saía quase do meio do peito. Pensei que talvez fosse algum tipo de anomalia genética. Naquele ângulo ele era o próprio Quasímodo. E sua frase atrapalhou meus pensamentos: – É COM OU SEM?
-Hã?
-COM OU SEM, COM OU SEM, PORRA??
- Com o quê? – Perguntei eu.
-COM OU SEM? – Repetia ele. Foi quando notei o movimento de cabeça. Engraçado como estas pessoas costumam apontar as coisas com a cabeça e com o beiço lá no interior.
Quando eu finalmente entendi, olhei atrás de mim. Pude ver, graças a luz que provinha do corredor infecto, que haviam umas três ou quatro putas velhas dormindo umas sobre as outras num sofá tão horrível que parecia um pedaço de coral, com tanta espuma saindo pra fora.
- É sem! É sem!!!! – Me apressei.
-É QUINZE REAU ADIANTADO. VAIQUERÊ?
-Vou. Toma Ó… Adiantado.
- VEM POR AQUI – Disse ele, passando por baixo do balcãozinho e me puxando com uma delicadeza típica de um policial de Diadema.
Sabe, é estranho seguir um velho corcunda, careca, de cuecão, que ainda puxa da perna, sobretudo num hotel como aquele, e ainda ter que pagar por isso.
O velho se arrastou como deu até uma parede e ligou um desjuntor. O desjuntou deu um estalo e umas luzes fracas que pareciam ter 10 watts iluminaram uma escada de madeira.
O velho começou a subir. Eu atrás.
Ele então virou-se para mim e disse:
-Cuidado com esse aqui, garoto.
Eu olhei e era um buraco no meio da escada.
Puts, eu tinha que ter filmado aquela merda. Era tudo de madeira. Cada passo era um rangido mais horrível que o outro.
Saindo da escada, no segundo andar, eu vi um corredor que era o mais assustador que você pode imaginar. Norman Beates Hotel, mane.
Psicose a parada.
A cada duas portas, todas pretas, havia umas fracas luzinhas na parede. Passamos lentamente pelo corredor. Na parede ao meu lado, eu vi uma imagem de São Jorge, com aquela clássica lampadinha vermelha. E atrás dele uns bonecos que me lembraram bonecos de vodu. Mas hoje, mais velho, sei que eram bonecos de Cosme e Damião.
O velho ia puxando aquela perna e só parou em frente à última porta.
Enquanto ele tentava abrir a porta, praticamente lutando contra a fechadura, eu comecei a pensar se todos aqueles outros quartos estariam ocupados para o velho me levar até o último do corredor. Imaginei cada um dos possíveis hóspedes que habitavam o interior daquelas portas assombrosas. Traficantes fugidos? Matadores de aluguel? Foragidos de todos os tipos e procedências…Comecei a pensar se o fato do velho me levar mais e mais para as profundezas daquele antro, não tinham o objetivo mórbido de abafar meus gritos na hora em que finalmente os zumbis aparecessem.
Quando dei por mim, o velho finalmente conseguia abrir a porta.
Novamente, foi aquele rangido clássico e a escuridão. O cheiro de mofo invadiu meu nariz e o velho deu dois passos naquele lugar escuro.
Num estalo ele ligou a luz. A parada era tão espantosamente tosca, que o cara ligava a luz do meu quarto com uma chave geral! Tipo coisa do Frankenstein! Deu um estalo e um raiozinho quando ela ligou e uma lâmpada de 60 watts pendurada com fita isolante nuns fios verde e laranja que pendiam do teto, se acendeu.
E então eu pude dar uma boa olhada no quarto:
O quarto era um cubículo de dois metros por dois metros. Não havia janela. Apenas um basculante perto da cama. A parede era tão clara quanto é a parede de uma borracharia de beira de estrada. Isso não é um exagero literário. Era exatamente assim. Era preta. Ensebada.
Aposto que a última vez em que aquela parede cheia de rachaduras viu uma tinta, o presidente do Brasil era o Washington Luís.
No quarto, não havia banheiro. Só uma pequena pia, bem do lado da cama.
No outro lado, um armário preto, ao lado da porta.
O velho me entregou a chave e eu tentei durante uns seis minutos girá-la no tambor e me trancar naquele lugar de pesadelo.
Dei uma mijada na pia, tirei os tênis.
Enrolei a mão numa toalhinha que eu levava na mala de bonecos. Eu tenho um cagaço enorme de tomar choque, e já que ia desligar aquela chave geral na parede do quarto, não quis arriscar.
Desliguei a luz e deitei na cama.
Porra, a cama era quase tão dura quanto o banco da casa da vó Cida.
Claro que eu deitei de roupa naquela merda de cama. Não ia fazer a maluquice de tirar sequer a camisa naquele lugar. Tentei não pensar em nada e apenas dormir, mas isso se mostrou uma tarefa impossível. Eu só pensava naquele corredor escuro, naquelas portas. Na imagem do São Jorge com a satânica luzinha vermelha iluminando parte do corredor. Na verdade, essa luzinha vermelha demoníaca entrava sorrateiramente pela fresta abaixo da porta. Comecei a pensar naquele lugar. Nas putas velhas dormindo no sofá pulguento. No visual do velho.
Pensei em quantas pessoas já estiveram naquele quarto que parecia mais uma cela do Dops.
Quantas pessoas tuberculosas já cuspiram naquela pia… Aquela pia que estava tão perto da minha cabeça.
Resolvi inverter e dormir com a cabeça para o outro lado.
Eu não conseguia mesmo pegar no sono e com os olhos abertos, o quarto ganhava ares ainda mais assustadores. Eu ouvia gemidos, ruídos e estalos.
Foi quando pensei que não havia olhado dentro do armário.
Vai que tem um sujeito com uma faca ali dentro, né? Melhor me certificar.
Enrolei a mão na toalhinha e acendi a luz novamente.
Abri com um certo medo o armário, e lá dentro só havia um cobertor peleja. Desses de mendigos.
Tornei a desligar a luz e me deitei.
Dormi.
Quando abri os olhos, acordei com um ruído estranho. Um tipo de grito horrível. Pulei da cama e corri no basculante. Pela greta eu vi que nos fundos do hotel havia um lixão e que um bando de urubus disputavam um pedaço de carniça. Olhei a hora. Seis e vinte da manhã.
Aproveitei que já havia amanhecido, peguei minha malinha, abri o quarto e saí fora.
Algum tempo depois, demoliram aquele velho hotel e fizeram um supermercado no lugar.
Mas eu nunca mais me esqueci daquela noite mórbida que passei naquele lugar esquisito… Seja com ou sem.
Naquele tempo eu trabalhava para a IDD miniaturas. Era um trabalho interessante, apesar do fato de que era uma furada só que ninguém normal além de mim e meu irmão Raphael encararmos. Nós criávamos bonecos de RPG. Fazíamos as matrizes, esculpindo os bonecos em durepoxi durante dias, e então entregávamos para a fábrica, que os copiava aos milhares.
Havíamos viajado para participar de um festival de RPG em Belo Horizonte. O dia foi muito divertido, com mil e uma atividades. Ao fim do dia voltaríamos de carona no carro do Átila, que era o dono da IDD.
Eu já estava ficando meio incomodado, pois era muito homem num carro pequeno. Chegou uma hora que comecei a sentir uma dor nas costas filha da puta. A dor só aumentou com a dificuldade de arrumar posição naquela lata velha do Átila.
Comecei a pensar num jeito qualquer de sair daquele carro. Vendo uma placa na estrada, perecebi que iríamos passar por Três Rios, a cidade da minha avó. Quando o carro finalmente passou em Três Rios, já era umas duas horas da manhã. Decidi avisar a eles que iria descer lá.
Meu irmão não quis descer e resolveu voltar com eles pra Niterói.
Eu desci do carro me achando super-esperto. Estiquei a coluna, peguei minha mala de bonecos, recheada de alicates, ferramentas e instrumentais e entrei pelo baixo portãozinho do jardim na casa da minha avó.
Comecei a bater no portão. Eu bati, chamei, assobiei e só faltou virar cambalhota. Nada. Nenhuma resposta, apenas o silêncio da noite, com aqueles grilinhos estrilando ao longe.
Comecei a bicar o portão. Meus avós tem um sono pesado da porra, e não era a primeira vez que um parente tinha que esgoelar até ficar azul para minha vó chegar na janela.
Eu gritei tanto que num ruído assustador uma janela ao meu lado se abriu. Era Yone, a vizinha. Cheia de bobs na cabeça. ( imagina a cruza da Dona Florinda com Satanás? É ela.)
-Sua avó viajou pra Niterói. Não tem ninguém aí não.
- …. – Não consegui dizer nada. Só pensei: PUTAQUIPARIIIIIIIU!
-Er… Obrigado. Desculpa acordar a senhora.
A Yone não falou nada. Só fechou a janela com uma estridente batida no melhor estilo louca-antipática possível.
Eu caí na real que estava simplesmente ferrado. Um frio do caralho.
Três Rios é a típica cidade do interior do estado do Rio. No verão é um calor de matar. No inverno é um frio de doer. Parece até a farda do exército. E naquela noite estava particularmente frio.
Abri minha malinha de ferramentas e comecei a tirar uns alicates. Pensei em arrombar a fechadura no melhor “Mc Guiver way of life”. Depois de uns 40 minutos de insucessos, prendi meu dedão na dobradiça do alicate de corte e fiquei puto. Nos filmes tudo é mais fácil.
Caí na real que já passava da hora de dormir e que eu teria que arrumar um lugar para pernoitar.
Me lembrei do banco. Não aquele banco onde os ricos ganham dinheiro, mas um banco de praça do século XIX que minha vó tem no jardim.
Corri para o banco e tentei me ajeitar como pude. Fechei os olhos e tentei dormir.
Não deu.
O banco era duro pra caramba. Nos primeiros dez minutos eu pensei que dormiria, mas no décimo primeiro eu já notei, da pior maneira, que as réguas de madeira me arrebentavam mais ainda a coluna. Não havia lugar para colocar a cabeça nem os pés. E começou a cair um sereno frio.
Não havia jeito. Eu teria que arrumar um lugar para dormir.
Saí com minha malinha de ferramentas pelas ruas desertas, dignas de um bom filme de terror.
Andei por vários minutos pelo centro à procura de um hotel qualquer. Eu não podia ficar num bom hotel por dois motivos. O primeiro é que eu só tinha vinte reais no bolso. O segundo motivo era que simplesmente não existem bons hotéis em Três Rios. Só duas merdas e um melhorzinho, que na verdade mesmo, era uma semi-merda.
Então melhor Hotel de lá, seria equivalente ao pior hotel imaginável do Rio de Janeiro.
Pois lá estava eu. Procurando algum lugar, por pior que fosse, para passar a noite.
Andei pelas proximidades da rodoviária.
Na minha imaginação inocente, perto de uma rodoviária seria um bom lugar para encontrar um hotel, afinal, é na rodoviária que os turistas chegam, né?
Não. Não tinha uma porra dum hotel.
Então comecei a andar a esmo pela cidade. A hora avançava. E nada de encontrar uma viva alma que pudesse me mostrar um caminho, dar uma dica.
Foi quando ouvi que vinha passando um carro pela rua que eu estava. Por sorte, era um táxi. Fiz sinal. O cara diminuiu. Não parou, apenas andou mais devagar.
Eu perguntei pra ele se havia algum hotel por ali.
O cara deu um sorriso e disse que naquela hora eu só ia conseguir encontrar o Hotel Três Rios. ( ou Hotel Entre-Rios, não lembro bem)
Ele apontou o caminho e partiu.
Eu caminhei pra caramba. A porra do Hotel era longe pra dedéu.
Quando cheguei em frente ao hotel, olhei o letreiro, algumas letras faltando, a fachada pichada com um visual tão medonho que pensei seriamente se não era o momento de voltar e dormir no banco do jardim da minha avó.
Mas não sei de onde nem como, obtive uma certa dose de coragem e empurrei a porta de madeira. Ela deu um rangido chorado, como só as tampas de caixões do conde drácula são capazes. No interior era apenas o breu. O breu mais escuro e inacreditavelmente preto. Posso até dizer, sem medo de resvalar no exagero que o preto no interior do saguão do Entre-Rios Hotel era maior do que quando fecho meus olhos.
Fui andando devagarinho, com a mão para a frente, tentando inutilmente detectar qualquer objeto em meu caminho. Topei com alguma coisa pelo chão. Era mole. Tive medo de ser um cachorro. Ou pior, um gato.
Resolvi me manter fixo, parado. Esperando que minhas pupilas se dilatassem escancaradamente para que ao menos um maldito bastonete pudesse captar uma vaga informação visual.
Isso aconteceu lá pelo décimo sexto minuto em que eu estava ali dentro.
Durante este tenebroso tempo, só pude recorrer aos meus outros sentidos. E o que mais sofreu foi o olfato. O hotel tinha um cheiro estranho de coisa velha. Parece aqueles baús de fotos antigas, misturado com cheiro de brechó e cemitério. Havia uma coisa de fumaça de cigarro entranhado em todos os lugares. E poeira. Cheiro de poeira.
Quando meus olhos começaram a se adaptar, eu pude ver que havia ali na minha frente, um balcão de madeira. Caminhei até ele e tateando notei aquelas campainhas típicas de hotel de filme.
Toquei.
Nada.
Toquei novamente.
Nada.
Fiquei esperando, afinal, sou um cara moderadamente educado, mas quando vi que nada realmente acontecia naquela merda, perdi a linha e toquei “a nona sinfonia de Beethoven” na porra da campainha.
Só contive a fúria quando um rangido horrível aconteceu, dando um eco estranho. Lá em baixo, num corredor (eu descobri que era um corredor depois) uma luz se acendeu.
Lentamente, uma coisa cambaleante começou a vir pelo tal corredor. Eu não conseguia obter uma boa visão daquilo, pois o corredor era paralelo a lateral do balcão. Assim só vi uma sobra, que avançava lentamente. Tive tamanho medo daquela merda que pensei em correr. Era um troço tenebroso, na forma de um corcunda que parecia não ter uma cabeça. E ainda puxava da perna. Tive medo de dar de cara com o “homem elefante”.
Quando a tal coisa apareceu, dei até dois passos para trás. Ali, bem na minha frente, estava um OGRO.
Um ogro de RPG.
Sem sacanagem. Eu descobri naquele momento, que os ogros existem mesmo. Pelo menos em Três Rios. O “recepcionista” Era uma porra dum velho horrível, com uma corcunda, braços magrelos e um barrigão desproporcionalmente grande, que caberia umas três crianças dentro. Pelo lado de fora estava um cuecão mal enjambrado. Não deu pra ver graças a aquela penumbra que vinha da luz do tal corredor tenebroso se o velho tinha todos os dentes. Mas deu pra notar na hora que ao menos os que haviam ali naquela boca, não estavam na ordem que deveriam.
O velho se dirigiu a mim com aquela tradicional educação e cortesia que se espera de um recepcionista de hotel daquele porte:
- QUEQUECÊQUÉ? – Dito assim mesmo. Meio gritado e num tom autoritário.
- Eu… Eu… Queria, bem, eu queria…
-FALALOGO!
-Eu queria um quarto, por favor.
-TÁ. Disse ele, abaixando-se com certa dificuldade. Olhou pra mim meio de lado. A cabeça dele saía quase do meio do peito. Pensei que talvez fosse algum tipo de anomalia genética. Naquele ângulo ele era o próprio Quasímodo. E sua frase atrapalhou meus pensamentos: – É COM OU SEM?
-Hã?
-COM OU SEM, COM OU SEM, PORRA??
- Com o quê? – Perguntei eu.
-COM OU SEM? – Repetia ele. Foi quando notei o movimento de cabeça. Engraçado como estas pessoas costumam apontar as coisas com a cabeça e com o beiço lá no interior.
Quando eu finalmente entendi, olhei atrás de mim. Pude ver, graças a luz que provinha do corredor infecto, que haviam umas três ou quatro putas velhas dormindo umas sobre as outras num sofá tão horrível que parecia um pedaço de coral, com tanta espuma saindo pra fora.
- É sem! É sem!!!! – Me apressei.
-É QUINZE REAU ADIANTADO. VAIQUERÊ?
-Vou. Toma Ó… Adiantado.
- VEM POR AQUI – Disse ele, passando por baixo do balcãozinho e me puxando com uma delicadeza típica de um policial de Diadema.
Sabe, é estranho seguir um velho corcunda, careca, de cuecão, que ainda puxa da perna, sobretudo num hotel como aquele, e ainda ter que pagar por isso.
O velho se arrastou como deu até uma parede e ligou um desjuntor. O desjuntou deu um estalo e umas luzes fracas que pareciam ter 10 watts iluminaram uma escada de madeira.
O velho começou a subir. Eu atrás.
Ele então virou-se para mim e disse:
-Cuidado com esse aqui, garoto.
Eu olhei e era um buraco no meio da escada.
Puts, eu tinha que ter filmado aquela merda. Era tudo de madeira. Cada passo era um rangido mais horrível que o outro.
Saindo da escada, no segundo andar, eu vi um corredor que era o mais assustador que você pode imaginar. Norman Beates Hotel, mane.
Psicose a parada.
A cada duas portas, todas pretas, havia umas fracas luzinhas na parede. Passamos lentamente pelo corredor. Na parede ao meu lado, eu vi uma imagem de São Jorge, com aquela clássica lampadinha vermelha. E atrás dele uns bonecos que me lembraram bonecos de vodu. Mas hoje, mais velho, sei que eram bonecos de Cosme e Damião.
O velho ia puxando aquela perna e só parou em frente à última porta.
Enquanto ele tentava abrir a porta, praticamente lutando contra a fechadura, eu comecei a pensar se todos aqueles outros quartos estariam ocupados para o velho me levar até o último do corredor. Imaginei cada um dos possíveis hóspedes que habitavam o interior daquelas portas assombrosas. Traficantes fugidos? Matadores de aluguel? Foragidos de todos os tipos e procedências…Comecei a pensar se o fato do velho me levar mais e mais para as profundezas daquele antro, não tinham o objetivo mórbido de abafar meus gritos na hora em que finalmente os zumbis aparecessem.
Quando dei por mim, o velho finalmente conseguia abrir a porta.
Novamente, foi aquele rangido clássico e a escuridão. O cheiro de mofo invadiu meu nariz e o velho deu dois passos naquele lugar escuro.
Num estalo ele ligou a luz. A parada era tão espantosamente tosca, que o cara ligava a luz do meu quarto com uma chave geral! Tipo coisa do Frankenstein! Deu um estalo e um raiozinho quando ela ligou e uma lâmpada de 60 watts pendurada com fita isolante nuns fios verde e laranja que pendiam do teto, se acendeu.
E então eu pude dar uma boa olhada no quarto:
O quarto era um cubículo de dois metros por dois metros. Não havia janela. Apenas um basculante perto da cama. A parede era tão clara quanto é a parede de uma borracharia de beira de estrada. Isso não é um exagero literário. Era exatamente assim. Era preta. Ensebada.
Aposto que a última vez em que aquela parede cheia de rachaduras viu uma tinta, o presidente do Brasil era o Washington Luís.
No quarto, não havia banheiro. Só uma pequena pia, bem do lado da cama.
No outro lado, um armário preto, ao lado da porta.
O velho me entregou a chave e eu tentei durante uns seis minutos girá-la no tambor e me trancar naquele lugar de pesadelo.
Dei uma mijada na pia, tirei os tênis.
Enrolei a mão numa toalhinha que eu levava na mala de bonecos. Eu tenho um cagaço enorme de tomar choque, e já que ia desligar aquela chave geral na parede do quarto, não quis arriscar.
Desliguei a luz e deitei na cama.
Porra, a cama era quase tão dura quanto o banco da casa da vó Cida.
Claro que eu deitei de roupa naquela merda de cama. Não ia fazer a maluquice de tirar sequer a camisa naquele lugar. Tentei não pensar em nada e apenas dormir, mas isso se mostrou uma tarefa impossível. Eu só pensava naquele corredor escuro, naquelas portas. Na imagem do São Jorge com a satânica luzinha vermelha iluminando parte do corredor. Na verdade, essa luzinha vermelha demoníaca entrava sorrateiramente pela fresta abaixo da porta. Comecei a pensar naquele lugar. Nas putas velhas dormindo no sofá pulguento. No visual do velho.
Pensei em quantas pessoas já estiveram naquele quarto que parecia mais uma cela do Dops.
Quantas pessoas tuberculosas já cuspiram naquela pia… Aquela pia que estava tão perto da minha cabeça.
Resolvi inverter e dormir com a cabeça para o outro lado.
Eu não conseguia mesmo pegar no sono e com os olhos abertos, o quarto ganhava ares ainda mais assustadores. Eu ouvia gemidos, ruídos e estalos.
Foi quando pensei que não havia olhado dentro do armário.
Vai que tem um sujeito com uma faca ali dentro, né? Melhor me certificar.
Enrolei a mão na toalhinha e acendi a luz novamente.
Abri com um certo medo o armário, e lá dentro só havia um cobertor peleja. Desses de mendigos.
Tornei a desligar a luz e me deitei.
Dormi.
Quando abri os olhos, acordei com um ruído estranho. Um tipo de grito horrível. Pulei da cama e corri no basculante. Pela greta eu vi que nos fundos do hotel havia um lixão e que um bando de urubus disputavam um pedaço de carniça. Olhei a hora. Seis e vinte da manhã.
Aproveitei que já havia amanhecido, peguei minha malinha, abri o quarto e saí fora.
Algum tempo depois, demoliram aquele velho hotel e fizeram um supermercado no lugar.
Mas eu nunca mais me esqueci daquela noite mórbida que passei naquele lugar esquisito… Seja com ou sem.
A proprietária
Naquele tempo… (parece até início de liturgia da missa, hehehe)
…Eu namorava a Nivea – minha mulher – havia pouco tempo. O aniversário dela já se aproximava e eu estava naquele clássico dilema de não imaginar uma porra dum presente minimamente decente pra dar a ela. Sabe como é, namoro recente, tudo melindra a mulher, né?
Por exemplo, se você dá uma de ousado e dá logo uma calcinha preta com cinta-liga, ela pode pensar que você é um maníaco-sexual-pervertido-ninfomaníaco. Ok, você é, mas ela terá a hora certa de saber. Também não dá pra ir tão direto ao assunto assim.
Mas se por outro lado você opta por dar uma de bom moço e dá um Cd… “É bicha” – ela vai pensar. E ainda trepudiará na sua desgraça: “É bicha e bicha sem criatividade”. Pior é quando você erra feio, dando uma música daquele conjunto que ela detesta.
Mas se for esperto como eu e sondou antes que música ela gosta, corre o sério e dramático risco de dar um cd que ela já tem e ta cansada de ouvir. Então Cd é furada.
Jóia, você pensa, correndo pelo shopping desvairado em direção a H.Stern, mas os preços de cara te colocam em seu devido lugar de oprimido pela burguesia perdulária.
Você é um duro. E sabe como é. Se dá uma jóiazinha de merda, ela vai fazer aquela clássica cara de cú piedoso e comentará assim discretamente: “Minha mãe vende Romannel…”
Não, você não precisa passar por tamanha humilhação profunda que deixará marcas por toda sua vida. Sua alma já terá a esta altura cicatrizes suficientes para agüentar um “minha mãe vende Romannel” quando você gastou cara centavo do seu dinheirinho sofrido.
Há de se ter uma outra maneira de surpreender. Surpreender… Talvez um daqueles carros do “Mensagem pra você” que param na porta da sua casa com fogos e um enorme “Aparece aí na janela fulana…” Enquanto você reluta, mais e mais pessoas e vizinhos são animados com aquela execração pública de seu nome, e se sentindo o pior cocô da face da terra você surge puto na janela pra ouvir ao som de Kenny G uma poesia quase tão mal lida quanto escrita.
Podre. Você não quer arruinar suas chances e precisa dar um presente que impressione a ponto da mulher casar com você!
ok, ok, isso pode não acontecer, mas impressionar é necessário.
Sem opções nem grandes idéias, Depois de pensar em:
Flores - Não porque é comum, e também porque elas morrem. Nada mais monstruoso e grotesco que rosas pretas, murchas que ela teme jogar fora pra não ferir seus sentimentos e aquela água pálida verde com uma nata branca de bactérias fedorentas irá perfumar a cozinha dela por uns seis anos.
Vestido – Não porque ela não usa e você nem sabe se vai dar o numero certo. Se dá o grande pra se garantir ela pensa que você tá dizendo que ela tá gorda. Se dá o pequeno, ela vai achar que é mensagem cifrada pra ela emagrecer.
Bombons - Engordam. Pra dar direito tem que ser de alguma chocolaterie e isso significa; Caro como os olhos da sua cara banhados a ouro e cravejados com brilhantes africanos. Pra dar bombom merda, tipo garoto, lacta – ou pior, Diziolli – é a mesma coisa que dizer: Olha, eu sou fudido.
Maquiagem tipo batom, hidratantes, etc – Furada. Ela vai reclamar do cheiro. Vai dar alergia nela e ela vai passar a vida toda reclamando que aquela coisa verde peluda que deu no braço dela e nunca mais sumiu é culpa sua. Se ela for alérgica, esqueça.
Bichinho – Bichinho é foda. A chance é de 50% de se fuder muito. Mas tem uma minúscula chance de dar certo e o bichinho virar mais um inquilino na caminha de solteira dela, acumulando ácaros e poeiras, que causarão noites alérgicas eternas. Isso se for bichinho de pelúcia. Se você é demente o suficiente pra dar um ANIMAL, puts. Animal é você. Primeiro: Ela vai odiar, mas fingirá que gostou. Você vai perceber e fingirá que não percebeu nada. Vai rir amarelo… Tão amarelo quando o mijo que o bichinho do capeta vai fazer na sua perna ou pior, no sofá da mãe dela. Como você a essa altura é o ameaçador galalau que quer comer a filha dela, arrumará um qüiproquó sem precedentes com a sua sobra. Vai ferrar tudo, meu. Morte certa. E a porra do bichinho vai uivar de noite feito um chupacabras, vai comer feito um catiço e se você foi ainda mais retardado para gastar os tubos numa porra de labrador com pedigree… Ah. Aí ferrou ao cubo, porque a cada rabada do animal bisonho, uma coisa vai quebrar, e a cada merda que ele fizer – e tenha certeza, ele fará pelos próximos dez anos – sua sogra e ela irão se lembrar de você aquele “viado”, “puto”, “cafajeste”, “cretino” e outras coisinhas mais…
Esquece essa de dar bichinho. Pense em:
Sapato - Outra furada enorme. Não tem como dar certo, meu. Se for de salto, ela vai dizer que é alto demais, que é de puta, vai dizer qualquer merda. Mas vai dizer alguma. Se for baixo ela vai fazer cara de cú piedoso e dizer que tem vinte iguais a aquele. E ainda te acusará de NUNCA TER REPARADO NELA. Ferrou. Pense, pense…
Saia - ela vai dizer que parece uma cortina de banheiro. Vai questionar seu gosto, coisa que no fundo me parece uma auto-zoação, mas tudo bem. Lei de Murphy. A mais bonita da loja é a mais cara e a mais cara é a que ela menos vai gostar. Ela vai trocar com você e vai escolher a porra mais escrotamente barata e feia que você já viu na sua vida. Esquece.
Perfume - Perfume é a opção dos fracos. Você fica desesperado pensando em algo que caiba no seu bolso, então passa na Tv o comercial redentor do Boticário e você pensa imediatamente: “É isso!” Perfume pode até funcionar em 10% das vezes. Mas nos 90% restantes, você toma na cabeça. Ela pode pensar que o perfume que você deu é igual o da sua ex. isso te coloca na situação crítica numero um. Fuja disso. Ou pior, ela pode ter aquele tipo de crendice babaca que você nunca entenderá sobre ganhar perfume e se separar. (por mais estranho que pareça, muita mulher acha que ganhar perfume de namorado acaba com o namoro) Sim, eu também fiz essa cara de “que porra é “essa?”
Seja real ou não (se não for ela fará ser o que te leva à situação crítica numero um novamente) dar perfume é algo que tem muita chance de dar errado, porque ela pode gostar de perfume masculino, ela pode não gostar daquele perfume e não trocar pra não te magoar, o que fará com que ela use apenas uma única vez na vida aquela merda cara pra caralho ou ainda pior, usar sempre e muito – para acabar logo – virando um sachê de gaveta gigante do teu lado. Pode ser ainda pior – sempre pode – e você acabar com uma série de trocas e reclamações sucessivas. Também, dar perfume de Boticário é foda. Nada contra, até acho bom, mas tem mulher que entende que você está definindo a” atitude dela “com o presente. E perfume do mais barato estaria qualificando ela como uma mulher mais barata. ·Pior sós aqueles de farmácia. Pra dar legal e impactar teria que ser francês, mas perfume francês custa igual aos seus bagos folheados em ouro mais os dois olhos da cara em cristal alemão numa caixa de ouro”. Esquece.
Poesia - Poesia… Poesia funciona mesmo meu. Mas aí tem um, porém, ela tem que ser canceriana e tem que ser romântica, tem que amar poesia, amar você e estar apaixonada. Ela tem que saber que você tem criatividade para tal. Se um desses raros fatores não ocorrer, tudo vai por água abaixo. Ela pensará que você copiou. Ou então pensará que você pediu pra alguém fazer. Ou pensará que você fez aquilo porque não tinha dinheiro, o que te coloca na situação de duro. Ainda pior será se a garota não tiver sensibilidade ou letramento suficiente pra absorver em profundidade e nas dimensões necessárias toda a verve poética que você arrancou da mais longínqua e distante ilha do teu coração. O que significa que:…No brilho do mais bonito luar, onde o vento surge no infinito com brilho perdido, você estará fodido.
Bolsa – Essa não tem erro. Você sempre vai comprar a que ela não gosta. O mundo feminino se divide basicamente em dois tipos: As que gostam das bolsas pequenas e as que gostam de bolsas grandes. Saber qual a sua garota é fácil. Ela sempre é a que você acha que não é. Além de caro é furada, ou você acha que alguma mulher da terra gosta mesmo de bolsas de courinho ou aquelas imitações baratas de bolsas caras?
As opções começam a acabar e você pensa em apelar e dar a ela um livro. Mas:
Livro - è furada também, porque ela já leu. Se não leu é porque não gosta. Claro que tem sempre aquele livro que ela sempre quis ler e você só o descobre quando algum outro parente qualquer que não seja você dá a ela. Ela sempre vai gostar daquele livro de nome estranho e autor obscuro onde você tem que ler três vezes o parágrafo para entender. E este livro sempre está atrás da penúltima prateleira de um grande magazine, soterrado por trocentos bilhões de livretos de “como gozar muitas vezes”, “o guia prático do sexo dos tatuís”, “quem mexeu no meu dinheiro?”, “O assassinato do falecido” e coisas desse tipo.
Se você dá o tipo de livro cabeça, estilo cem anos de solidão, pode descobrir que ela é uma retardada que não sabe ler direito. Pra evitar surpresas, você poderia optar por dar a ela um Kamasutra ilustrado. Mas você incorre no mesmo problema de dar a ela a cinta-liga e calcinha fio-dental microscópico com rabinho, e você não quer isso.
Dar a ela um livro do Stephen King pode causar uma síndrome de medo. Mas livro ainda que você acerte está errado, porque ela vai ficar gamada na porra do livro e vai esquecer de você. Mais ou menos como você fará com ela dali a uns oito anos quando comprar um joguinho de computador novo, como o GTA.
Presentear a mulher amada é a coisa mais difícil do mundo quando seu relacionamento está naquele frágil momento onde cada passo errado representa o abismo da inexorável solidão. E quanto mais amada ela for, aumentará exponencialmente sua dificuldade em encontrar algo inédito, inovador e difícil ou cara suficiente para fazer dela uma mulher única como ela merece.
Naquele dia eu estive pensando sobre tudo isso e resolvi perguntar a Nivea o que ela realmente queria.
- Amor o que você gostaria de ganhar de aniversário?
- Nada só um beijo.
- Ah, fala sério. (beijo) diz (beijo) aí (beijo)…
- (beijo – longo)
- Ah… – diz ela seguindo-se de um certo silêncio. Você pode imaginar que ela pensa em milhões de coisas, como a matrix ela gera milhares de cenários em apenas um segundo. Em cada um deles você estará mais e mais fodido sem opções. E ela vai escolher com cuidado a pior de todas para te colocar na situação mais dramaticamente embaraçosa de toda sua escrota vida. E não dá outra.
- Eu quero… – Mais um silêncio. Ela olha para o céu. Você já ta impaciente.
-…Pode ser o que eu quiser? – Ela pergunta. Com um calafrio a te comer os ossos você acena que sim, se sentindo assinando a sentença de morte da relação.
- Eu quero o sol. – Ah, não… Putaquipariu caralho! Ela quer a merda do sol. Que tipo de resposta é essa? Papo esquizofrênico, só pode ser. Você tem vontade de dar uma zoada nela, mas mantém a pose. Como convém ao gostosão que você quer que ela pense que você é.
- Quer o sol?
- É. – Ela diz sorrindo. A crueldade feminina impressiona.
Você sai dali e começa a pensar sobre este tipo de resposta lacônico o suficiente pra te deixar numa fria. Sem apontar nenhum caminho ela pede algo que sabe ser impossível. Ela te detona antes de te dar uma chance.
Eu passei um tempo pensando em solucionar aquilo. Foi quando eu tive a idéia. A idéia que salvou a pátria.
Pintei um sol enorme em uma camiseta pra ela. Mas isso seria só a isca. O verdadeiro presente iria ser complicado. E inovador, como convém a um cara bizarro que usa dois relógios cada um com um monstrinho dentro e nenhum deles marca a hora.
Sai pra rua com toda disposição. Cheguei no primeiro cartório que encontrei e perguntei pro moço como que faz um documento de doação.
- Doação de que? – Perguntou ele.
- Eh… – Engasguei, afinal eu não iria parecer um mongol bem ali as nove da manhã. Mas então eu falei: – De um terreno, de qualquer coisa. Só pra saber mesmo.
- Ah, você pega os dados do que vai doar e faz o documento descritivo… Anexa um termo de doação com cláusulas se for o caso e registra aqui. Só isso.
- Só?
- Isso.
- Valeu. – Saí todo feliz dali direto pra a biblioteca da Uff. Pesquisei a tarde toda sobre o sol. E com minha pesquisa em livros de astronomia descobri o peso, o tamanho, a capacidade luminosa, etc. Do sol.
Fiz o documento e voltei lá no cartório:
- Moço, eu trouxe o documento de doação.
- Ah, tá. Deixa-me ver. – Ele pegou e começou a ler. Logo nos primeiros dez segundos ele tava em pé. Aí sentou. Tirou os óculos e foi lendo… De vez em quando parava e olhava pra minha cara. Aí voltava a ler.
Então ele chegou no final e virou lá pra dentro chamando um outro:
- Carlos, vem ver só o que o garoto vai doar! – Virei a sensação do cartório. Algo relativamente fácil, uma vez que os trabalhos nos cartórios parecem ser trabalhos bem chatos e monótonos.
Os caros por incrível que possa parecer fizeram o registro de doação e reconheci firma em cima e tudo.
Voltei com o registro do sol pra casa. No dia do aniversário, eu dei a camisa pintada e ela adorou. Mas aí eu falei que aquilo não era o que ela queria. Ela queria o sol e então eu saquei o envelope e entreguei pra ela. Quando ela leu, não acreditou. Ela era a dona do sol.
Deu certo. Eu até casei com ela. A proprietária.
…Eu namorava a Nivea – minha mulher – havia pouco tempo. O aniversário dela já se aproximava e eu estava naquele clássico dilema de não imaginar uma porra dum presente minimamente decente pra dar a ela. Sabe como é, namoro recente, tudo melindra a mulher, né?
Por exemplo, se você dá uma de ousado e dá logo uma calcinha preta com cinta-liga, ela pode pensar que você é um maníaco-sexual-pervertido-ninfomaníaco. Ok, você é, mas ela terá a hora certa de saber. Também não dá pra ir tão direto ao assunto assim.
Mas se por outro lado você opta por dar uma de bom moço e dá um Cd… “É bicha” – ela vai pensar. E ainda trepudiará na sua desgraça: “É bicha e bicha sem criatividade”. Pior é quando você erra feio, dando uma música daquele conjunto que ela detesta.
Mas se for esperto como eu e sondou antes que música ela gosta, corre o sério e dramático risco de dar um cd que ela já tem e ta cansada de ouvir. Então Cd é furada.
Jóia, você pensa, correndo pelo shopping desvairado em direção a H.Stern, mas os preços de cara te colocam em seu devido lugar de oprimido pela burguesia perdulária.
Você é um duro. E sabe como é. Se dá uma jóiazinha de merda, ela vai fazer aquela clássica cara de cú piedoso e comentará assim discretamente: “Minha mãe vende Romannel…”
Não, você não precisa passar por tamanha humilhação profunda que deixará marcas por toda sua vida. Sua alma já terá a esta altura cicatrizes suficientes para agüentar um “minha mãe vende Romannel” quando você gastou cara centavo do seu dinheirinho sofrido.
Há de se ter uma outra maneira de surpreender. Surpreender… Talvez um daqueles carros do “Mensagem pra você” que param na porta da sua casa com fogos e um enorme “Aparece aí na janela fulana…” Enquanto você reluta, mais e mais pessoas e vizinhos são animados com aquela execração pública de seu nome, e se sentindo o pior cocô da face da terra você surge puto na janela pra ouvir ao som de Kenny G uma poesia quase tão mal lida quanto escrita.
Podre. Você não quer arruinar suas chances e precisa dar um presente que impressione a ponto da mulher casar com você!
ok, ok, isso pode não acontecer, mas impressionar é necessário.
Sem opções nem grandes idéias, Depois de pensar em:
Flores - Não porque é comum, e também porque elas morrem. Nada mais monstruoso e grotesco que rosas pretas, murchas que ela teme jogar fora pra não ferir seus sentimentos e aquela água pálida verde com uma nata branca de bactérias fedorentas irá perfumar a cozinha dela por uns seis anos.
Vestido – Não porque ela não usa e você nem sabe se vai dar o numero certo. Se dá o grande pra se garantir ela pensa que você tá dizendo que ela tá gorda. Se dá o pequeno, ela vai achar que é mensagem cifrada pra ela emagrecer.
Bombons - Engordam. Pra dar direito tem que ser de alguma chocolaterie e isso significa; Caro como os olhos da sua cara banhados a ouro e cravejados com brilhantes africanos. Pra dar bombom merda, tipo garoto, lacta – ou pior, Diziolli – é a mesma coisa que dizer: Olha, eu sou fudido.
Maquiagem tipo batom, hidratantes, etc – Furada. Ela vai reclamar do cheiro. Vai dar alergia nela e ela vai passar a vida toda reclamando que aquela coisa verde peluda que deu no braço dela e nunca mais sumiu é culpa sua. Se ela for alérgica, esqueça.
Bichinho – Bichinho é foda. A chance é de 50% de se fuder muito. Mas tem uma minúscula chance de dar certo e o bichinho virar mais um inquilino na caminha de solteira dela, acumulando ácaros e poeiras, que causarão noites alérgicas eternas. Isso se for bichinho de pelúcia. Se você é demente o suficiente pra dar um ANIMAL, puts. Animal é você. Primeiro: Ela vai odiar, mas fingirá que gostou. Você vai perceber e fingirá que não percebeu nada. Vai rir amarelo… Tão amarelo quando o mijo que o bichinho do capeta vai fazer na sua perna ou pior, no sofá da mãe dela. Como você a essa altura é o ameaçador galalau que quer comer a filha dela, arrumará um qüiproquó sem precedentes com a sua sobra. Vai ferrar tudo, meu. Morte certa. E a porra do bichinho vai uivar de noite feito um chupacabras, vai comer feito um catiço e se você foi ainda mais retardado para gastar os tubos numa porra de labrador com pedigree… Ah. Aí ferrou ao cubo, porque a cada rabada do animal bisonho, uma coisa vai quebrar, e a cada merda que ele fizer – e tenha certeza, ele fará pelos próximos dez anos – sua sogra e ela irão se lembrar de você aquele “viado”, “puto”, “cafajeste”, “cretino” e outras coisinhas mais…
Esquece essa de dar bichinho. Pense em:
Sapato - Outra furada enorme. Não tem como dar certo, meu. Se for de salto, ela vai dizer que é alto demais, que é de puta, vai dizer qualquer merda. Mas vai dizer alguma. Se for baixo ela vai fazer cara de cú piedoso e dizer que tem vinte iguais a aquele. E ainda te acusará de NUNCA TER REPARADO NELA. Ferrou. Pense, pense…
Saia - ela vai dizer que parece uma cortina de banheiro. Vai questionar seu gosto, coisa que no fundo me parece uma auto-zoação, mas tudo bem. Lei de Murphy. A mais bonita da loja é a mais cara e a mais cara é a que ela menos vai gostar. Ela vai trocar com você e vai escolher a porra mais escrotamente barata e feia que você já viu na sua vida. Esquece.
Perfume - Perfume é a opção dos fracos. Você fica desesperado pensando em algo que caiba no seu bolso, então passa na Tv o comercial redentor do Boticário e você pensa imediatamente: “É isso!” Perfume pode até funcionar em 10% das vezes. Mas nos 90% restantes, você toma na cabeça. Ela pode pensar que o perfume que você deu é igual o da sua ex. isso te coloca na situação crítica numero um. Fuja disso. Ou pior, ela pode ter aquele tipo de crendice babaca que você nunca entenderá sobre ganhar perfume e se separar. (por mais estranho que pareça, muita mulher acha que ganhar perfume de namorado acaba com o namoro) Sim, eu também fiz essa cara de “que porra é “essa?”
Seja real ou não (se não for ela fará ser o que te leva à situação crítica numero um novamente) dar perfume é algo que tem muita chance de dar errado, porque ela pode gostar de perfume masculino, ela pode não gostar daquele perfume e não trocar pra não te magoar, o que fará com que ela use apenas uma única vez na vida aquela merda cara pra caralho ou ainda pior, usar sempre e muito – para acabar logo – virando um sachê de gaveta gigante do teu lado. Pode ser ainda pior – sempre pode – e você acabar com uma série de trocas e reclamações sucessivas. Também, dar perfume de Boticário é foda. Nada contra, até acho bom, mas tem mulher que entende que você está definindo a” atitude dela “com o presente. E perfume do mais barato estaria qualificando ela como uma mulher mais barata. ·Pior sós aqueles de farmácia. Pra dar legal e impactar teria que ser francês, mas perfume francês custa igual aos seus bagos folheados em ouro mais os dois olhos da cara em cristal alemão numa caixa de ouro”. Esquece.
Poesia - Poesia… Poesia funciona mesmo meu. Mas aí tem um, porém, ela tem que ser canceriana e tem que ser romântica, tem que amar poesia, amar você e estar apaixonada. Ela tem que saber que você tem criatividade para tal. Se um desses raros fatores não ocorrer, tudo vai por água abaixo. Ela pensará que você copiou. Ou então pensará que você pediu pra alguém fazer. Ou pensará que você fez aquilo porque não tinha dinheiro, o que te coloca na situação de duro. Ainda pior será se a garota não tiver sensibilidade ou letramento suficiente pra absorver em profundidade e nas dimensões necessárias toda a verve poética que você arrancou da mais longínqua e distante ilha do teu coração. O que significa que:…No brilho do mais bonito luar, onde o vento surge no infinito com brilho perdido, você estará fodido.
Bolsa – Essa não tem erro. Você sempre vai comprar a que ela não gosta. O mundo feminino se divide basicamente em dois tipos: As que gostam das bolsas pequenas e as que gostam de bolsas grandes. Saber qual a sua garota é fácil. Ela sempre é a que você acha que não é. Além de caro é furada, ou você acha que alguma mulher da terra gosta mesmo de bolsas de courinho ou aquelas imitações baratas de bolsas caras?
As opções começam a acabar e você pensa em apelar e dar a ela um livro. Mas:
Livro - è furada também, porque ela já leu. Se não leu é porque não gosta. Claro que tem sempre aquele livro que ela sempre quis ler e você só o descobre quando algum outro parente qualquer que não seja você dá a ela. Ela sempre vai gostar daquele livro de nome estranho e autor obscuro onde você tem que ler três vezes o parágrafo para entender. E este livro sempre está atrás da penúltima prateleira de um grande magazine, soterrado por trocentos bilhões de livretos de “como gozar muitas vezes”, “o guia prático do sexo dos tatuís”, “quem mexeu no meu dinheiro?”, “O assassinato do falecido” e coisas desse tipo.
Se você dá o tipo de livro cabeça, estilo cem anos de solidão, pode descobrir que ela é uma retardada que não sabe ler direito. Pra evitar surpresas, você poderia optar por dar a ela um Kamasutra ilustrado. Mas você incorre no mesmo problema de dar a ela a cinta-liga e calcinha fio-dental microscópico com rabinho, e você não quer isso.
Dar a ela um livro do Stephen King pode causar uma síndrome de medo. Mas livro ainda que você acerte está errado, porque ela vai ficar gamada na porra do livro e vai esquecer de você. Mais ou menos como você fará com ela dali a uns oito anos quando comprar um joguinho de computador novo, como o GTA.
Presentear a mulher amada é a coisa mais difícil do mundo quando seu relacionamento está naquele frágil momento onde cada passo errado representa o abismo da inexorável solidão. E quanto mais amada ela for, aumentará exponencialmente sua dificuldade em encontrar algo inédito, inovador e difícil ou cara suficiente para fazer dela uma mulher única como ela merece.
Naquele dia eu estive pensando sobre tudo isso e resolvi perguntar a Nivea o que ela realmente queria.
- Amor o que você gostaria de ganhar de aniversário?
- Nada só um beijo.
- Ah, fala sério. (beijo) diz (beijo) aí (beijo)…
- (beijo – longo)
- Ah… – diz ela seguindo-se de um certo silêncio. Você pode imaginar que ela pensa em milhões de coisas, como a matrix ela gera milhares de cenários em apenas um segundo. Em cada um deles você estará mais e mais fodido sem opções. E ela vai escolher com cuidado a pior de todas para te colocar na situação mais dramaticamente embaraçosa de toda sua escrota vida. E não dá outra.
- Eu quero… – Mais um silêncio. Ela olha para o céu. Você já ta impaciente.
-…Pode ser o que eu quiser? – Ela pergunta. Com um calafrio a te comer os ossos você acena que sim, se sentindo assinando a sentença de morte da relação.
- Eu quero o sol. – Ah, não… Putaquipariu caralho! Ela quer a merda do sol. Que tipo de resposta é essa? Papo esquizofrênico, só pode ser. Você tem vontade de dar uma zoada nela, mas mantém a pose. Como convém ao gostosão que você quer que ela pense que você é.
- Quer o sol?
- É. – Ela diz sorrindo. A crueldade feminina impressiona.
Você sai dali e começa a pensar sobre este tipo de resposta lacônico o suficiente pra te deixar numa fria. Sem apontar nenhum caminho ela pede algo que sabe ser impossível. Ela te detona antes de te dar uma chance.
Eu passei um tempo pensando em solucionar aquilo. Foi quando eu tive a idéia. A idéia que salvou a pátria.
Pintei um sol enorme em uma camiseta pra ela. Mas isso seria só a isca. O verdadeiro presente iria ser complicado. E inovador, como convém a um cara bizarro que usa dois relógios cada um com um monstrinho dentro e nenhum deles marca a hora.
Sai pra rua com toda disposição. Cheguei no primeiro cartório que encontrei e perguntei pro moço como que faz um documento de doação.
- Doação de que? – Perguntou ele.
- Eh… – Engasguei, afinal eu não iria parecer um mongol bem ali as nove da manhã. Mas então eu falei: – De um terreno, de qualquer coisa. Só pra saber mesmo.
- Ah, você pega os dados do que vai doar e faz o documento descritivo… Anexa um termo de doação com cláusulas se for o caso e registra aqui. Só isso.
- Só?
- Isso.
- Valeu. – Saí todo feliz dali direto pra a biblioteca da Uff. Pesquisei a tarde toda sobre o sol. E com minha pesquisa em livros de astronomia descobri o peso, o tamanho, a capacidade luminosa, etc. Do sol.
Fiz o documento e voltei lá no cartório:
- Moço, eu trouxe o documento de doação.
- Ah, tá. Deixa-me ver. – Ele pegou e começou a ler. Logo nos primeiros dez segundos ele tava em pé. Aí sentou. Tirou os óculos e foi lendo… De vez em quando parava e olhava pra minha cara. Aí voltava a ler.
Então ele chegou no final e virou lá pra dentro chamando um outro:
- Carlos, vem ver só o que o garoto vai doar! – Virei a sensação do cartório. Algo relativamente fácil, uma vez que os trabalhos nos cartórios parecem ser trabalhos bem chatos e monótonos.
Os caros por incrível que possa parecer fizeram o registro de doação e reconheci firma em cima e tudo.
Voltei com o registro do sol pra casa. No dia do aniversário, eu dei a camisa pintada e ela adorou. Mas aí eu falei que aquilo não era o que ela queria. Ela queria o sol e então eu saquei o envelope e entreguei pra ela. Quando ela leu, não acreditou. Ela era a dona do sol.
Deu certo. Eu até casei com ela. A proprietária.
Guardas, propinas e um pouco de malandragem
Guardas, propinas e um pouco de malandragem
A pior coisa que tem é policial corrupto em véspera de natal ou carnaval. E lá estava eu, indo para o trabalho no carro do meu pai (que estava com o IPVA vencido). O lance é que eu morava em Niterói e ia para o trabalho em Três Rios, o que significava duas horas de viagem numa serra perigosa. Eu saía de casa 5:00 da manhã e metia o carro na estrada.
Naquele dia eu estava distraídamente dirigindo pela serra de Petrópolis quando um guardinha fez sinal para que eu parasse o carro no acostamento.
Eu pensei: Ferrou. Pro guardinha estar aqui de pé na estrada nesse frio, ele vai querer dindim.
Parei o carro e lá veio ele, com o passinho de “cerca-lourenço”. Parou ao lado do vidro e proferiu a frase clássica:
- Bom dia. Habilitação e documentos do veículo, por favor. – Era uma frase dita mecanicamente.
- Bom dia. (aquele tom amável de quem está cagado, apanhado com as calças na mão) Peguei a carteira, peguei o documento e entreguei a ele.
Ele ficou ali olhando, olhando…
Era um jogo de nervos irritante. Ele sabia que iria me ferrar. Eu também sabia, mas ele preferiu ficar ali, me enervando mais um pouco.
- O documento está atrasado. – Disse ele com um certo sorriso. Aquele sorriso pérfido de um urubu ao dar de cara com um boi morto na beira da estrada.
-Ué. É mesmo? Ih. Eu não sabia, senhor policial. É que este carro é do meu pai e… – tentei emendar um rol de desculpas, que ele, e eu mesmo, sabíamos que não serviria para nada além de introduzir a extorsão.
Então ele me interrompeu:
- Vou ter que apreender o veículo.
- Ah… – Disse eu. Eu já estava meio puto. Casado, com sono, tendo que ir para o trabalho cedo pra dedéu e ainda encontro uma dessa pelo caminho. Continuei:
- …Então tá. Pode apreender.
O guarda levou um susto. Não é todo dia que um sujeito fala que ele pode apreender um veículo por estar com o imposto atrasado. O guarda perdeu o rebolado. Eu me adiantei e saí do carro. Tranquei a porta.
- Por favor, me acompanhe. – Disse ele, apontando para aquela casinha onde o policial fica. Eu sabia que era para pedir o dinheiro. Fiz-me de bobo e fui.
Chegando lá, ele falou:
- O senhor tem certeza que eu posso apreender seu veículo?
- Claro. A propósito, o carro não é meu. – Uma óbvia jogada de negociação pra reduzir o valor da propina.
- Então eu vou apreender, hein? Tem certeza? Não quer ligar pro seu pai? – Perguntou ele. Parecia até um episódio do Chaves, meu.
- Senhor policial, eu ligar pro meu pai vai mudar alguma coisa? O senhor vai me liberar?
Eu posso é te prometer que pago o IPVA assim que chegar em Três Rios.
- Ah, isso eu não posso fazer. Não é certo. – Olha a cara de pau do sujeito, de falar esta segunda oração.
- Então apreende o carro, pô. Vou ficar aqui com o senhor cantando até que alguém venha me buscar. Tudo bem… Comecei a assobiar uma musiquinha bem irritante do Latino.
- … – ele ficou em silêncio olhando pra minha cara por cima dos óculos de leitura, bem como o Al Borgueti fazia. Ficamos ali nos encarando uns quatro segundos quando ele interrompeu “o som do silêncio”:
- Tá bom, tá bom. Vou te dar uma chance. Faz o seguinte. Libera duzentos reais aí e pode ir. – Foi assim. Na bucha.
- Hã? O quê? Duzentos reais? Pô se eu tivesse duzentos reais o carro estava com o Ipva pago, senhor policial. Eu tô duro. Tô indo pro trabalho…
- Quanto você tem aí?
- Eu tenho só dez reais pra pagar o pedágio. O senhor troca?
- Você não tem cheque?
- Cheque eu tenho. Só fundos é que não.
- Porra moleque. – O guardinha canalha ficou com raiva. – Você não tem limite na conta?
- Meu limite é de cem reais.
- Então faz logo um cheque de cem reais e pode ir.
E assim eu fiz. Escrevi um cheque de cem reais e perguntei se ele queria nominal. ( piada idiota, hehehe)
-Claro que não, né garoto? Faz ao portador.
Eu fiz e entreguei. O guarda devolveu o documento e a chave.
- Pode ir. E vai com Deus.
Enquanto eu ligava o carro e saía daquele trecho ermo e frio da serra de Petrópolis, me sentia mal. Me sentia um fraco de ter sido corrupto e cedido a uma extorsão barata de um guarda filho da puta, que chegou a se rebaixar e pedir a propina com cheque.
Passei o dia pensando em sustar o cheque. Mas lembrei que o guarda anotou a placa do carro num papel na mesa dele, e tive medo de fazer isso e ele telefonar para outros postos policiais alegando que eu furei um bloqueio, que eu erra perigoso e etc. E eu passava naquela serra duas vezes na semana, o que significava que eu ainda iria ver aquele canalha algumas vezes.
Paguei o IPVA atrasado e dali em diante passava lentamente na frente daquele puto, só pra ter o prazer de esfregar o documento em dia na cara dele.
O sujeito acabou tomando algum tipo de gancho, porque dali a uns 15 dias, ele sumiu. O posto em que ele ficava foi fechado e nunca mais o vi. Naturalmente pediu propina em cheque para mais alguém e se estrepou.
Eu jurei a mim mesmo que nunca mais na minha vida cederia a pressões cretinas e extorsões baratas de policiais querendo dinheiro. E isso se resumia a andar com tudo pago.
Esta parada de andar com tudo pago durou até o meu carro começar a colecionar uma porrada de multas (venha a Niterói e ganhe várias de recordação) que me impediram de fazer uma daquelas vistorias obrigatórias.
Então um dia, o Barbado, que era meu chefe na Ignis Games me pediu pra pegar ele no Aeroporto. O expediente acabou, eu peguei meu carro e fui pro aeroporto pegar o chefe. Quando eu acabei de descer a ponte da Ilha do Governador, perto daquele posto de gasolina, dei de cara com uma blitz. Eu sabia que não tinha feito a vistoria e por isso estava ferrado. Mas mentalmente, jurei que não iria pagar nada pra nenhum filho da puta.
O guarda armado com um fuzil apontou pra mim e em seguida para o acostamento. Mandou eu encostar. Eu parei o carro e veio o sujeito. Aquele mesmo diálogo.
- Documento e habilitação do veículo.
- Sim senhor. – Entreguei. Novamente, um tempão conferindo.
- O senhor não fez a vistoria. – Olha que novidade! Ele é bem espertoné? E eu me fiz de otário, como convinha. Só que dessa vez eu me concentrei e desempenhei a melhor atuação de bom samaritano, digna do Oscar:
- Eu sei, senhor policial. Não fiz mesmo.
- E por que não fez? Eu vou apreender seu veículo, cidadão.
- Eu sei, senhor policial. O senhor está certo e acho que deve mesmo apreender meu veículo. Afinal, é sua função. Eu não tenho cara de pau de pedir pro senhor me liberar.
-… – O guarda bolado. – E o cidadão sabe quanto é a multa que vai ter que pagar? Duzentos e cinqüenta reais! – Aquele preâmbulo de assustar para em seguida entrar com o pedido da propina. Mas eu continuei firme:
- É verdade. É uma multa enorme. Pode multar seu policial. É seu trabalho, né? Eu só gostaria que o senhor soubesse uma coisa. Posso falar?
- Pode cidadão.
- Eu queria só que o senhor soubesse porque eu estou com a vistoria atrasada. Mas olha, isso não é uma desculpa não. É que eu nunca atraso nada, e então acho que tenho que me explicar. Mas a multa e a apreensão do veículo está certo. É seu direito. É sua obrigação mesmo…
- Então fale, cidadão. – Disse o guarda curioso. E eu entrei no personagem de cabeça:
- Policial, olha aqui, vem ver a placa do carro. Tá vendo? O carro é de Três Rios. Eu sou de Três Rios, ( caprichando no sotaque). Eu trabalhava lá. Mas a firma onde eu trabalhava me demitiu. Ela faliu e não me pagou nada. Nem seguro desemprego, nem FGTS, nem nada. Eu fiquei com a mão na frente e outra atrás. E o pior não é isso. O pior é que eles lá usavam meu carro para fazer entrega no Rio. Eu, que precisava daquele emprego, deixava. Só que não sabia. O carro ficou cheio de multa. A firma disse que ia pagar. O senhor pagou? Então, nem eles.
Pra piorar, seu policial, a minha mulher estava grávida. Quando fui ver, era de três.
Três filhos, seu guarda. Desempregado, como que eu vou sustentar três crianças? Duas meninas e um menino? Quer ver a foto, olha aqui – Disse eu sacando a carteira, passando os plastiquinhos. – Não tinha nenhuma foto de criança, afinal, aquilo era absolutamente tudo inventado. Mas eu continuei firme no caô:
- Ué, cadê as fotos? O Washingtton, o Wellingtton e a Stefannyh… Deixa eu ver. Acho que tá aqui. – Disse eu futicando nos compartimentos da carteira. Quanto aos nomes, inventei na hora. Pobre gosta de nome complicado, cheios de “W”, “Y” e letras duplas, né?
- Continue, cidadão. – Disse o policial, olhando em volta. Eu percebi que ele estava interessado. E não perdoei.
- Então, eram três filhos, né? Eu tinha que arrumar um emprego. Dar sustento pra minha família. Decidi vir pro Rio de Janeiro, porque aqui tem mais oportunidade, né? Eu vim com a minha mulher e as crianças e estou de favor nos fundos da casa de uma tia minha que é doente láno Coelho em São Gonçalo, conhece? ( O tal Coelho é um bairro barra-pesada. descobri o bairro quando numa tentativa de assalto acabei puxando papo com o ladrão…Em breve em algum outro caso Gump) …Minha mulher tá fazendo faxina num bar.
Arrumei um emprego ontem, “Com a Graça de Deus” ( encarnando o pobre evangélico, afinal, nada como a Religião para amolecer o coração de um guardinha) e hoje foi meu primeiro dia no emprego. E o meu chefe perguntou se eu podia pegar ele no aeroporto. Eu vou dizer o quê, seu guarda? Vou dizer “não” ao chefe logo no primeiro dia de serviço? O que o senhor faria?
Eu vim buscar o meu chefe. E agora, já sei que me ferrei.
Então, se for apreender o carro tudo bem. Eu já me ferrei mesmo, né? ( olho no relógio)
O homem chegou de viagem faz vinte minutos já. Eu estou queimado. Furei o compromisso no primeiro dia de trabalho. Ele não vai acreditar no papo de uma blitz no caminho para o aeroporto… Já era. Tomara que eu não seja dispensado, afinal, nesse emprego, que eu custei pra arrumar, não vou ganhar muito mas pelo menos vou poder começar a pagar as pessoas a quem eu devo.
Vou poder arrumar minha vida. E comprar comida pras crianças, tadinhas ( os olhos cheios d´água – meus e do guardinha) porque seu guarda, elas não merecem…
Então, policial, se o senhor quiser me multar, o senhor está certo. É o seu direito. Mas sabe quantos litros de leite dá pra comprar com o valor desta multa? – A facada final, aquela pergunta retórica que bate fundo no peito. O guarda estava já quase chorando.
- E seu guarda…
- Cabo Rogério. – Disse ele . Eu fiquei feliz. Havia quebrado o distanciamento institucional. Agora o papo era entre duas pessoas, dois seres humanos. Dar o nome era uma prova de que eu fragilizara seus instintos. Eu estava em franca vantagem psicológica.
- Então, Cabo Rogério, a minha mulher, ela está doente. Ninguém sabe o que é. Vomitou sangue de madrugada… E eu só penso nas crianças. Como que vai ser, Rogério? – Eu dizia enquanto uma singela lágrima escorreu do canto dos meu olho. Ficou dramática aquela cena… Digna de um capítulo final na novela das oito.
- Pode parar, cidadão. – Disse ele apoiando no meu ombro com a mão. Vou tentar te liberar. Espera aí.
O guarda saiu enxugando os olhos.
Falou com um outro. Ele ficou e veio o outro.
Eu pensei: Putaquipariu! Só falta ter que contar essa merda toda novamente, pior que com certeza, eu não vou me lembrar.
O outro veio com a porra da metranca pendurada no pescoço. Eu não conseguia tirar o olho daquele trabuco. Enquanto isso, o outro policial, visívelmente superior na hierarquia, falou:
- Cidadão, conversei com o cabo Rogério. Ele quer que eu te libere.
- É mesmo? ( a clássica frase-mongol para que o policial introduza a extorsão)
- É. Só que o veículo tá irregular, e o certo era eu segurar o seu veículo. Mas então?
- Então? – Entendi bem, mas me fiz de bobo. Ele queria que partisse de mim a proposta. (Mas fiel a minha promessa na serra de Petrópolis, fiquei firme.)
- Então… Se eu te liberar eu estou errado e você está errado. Agora você que sabe. Eu preciso de uma amostra do seu interesse. Tá me entendendo? Tá me entendendo? – Apontou pra carteira.
- Amostra?
- É, sabe como é. A multa é alta. A gente pode dividir esta multa aí.
- Ué, eu não sabia que a polícia parcelava a multa. Dá pra dividir em quantas vezes? Tem juros?
- … – O policial ficou me olhando com cara de “que moleque retardado”
- Quanto você tem aí?
- Então, senhor policial… Eu tava no trabalho. Só tenho dinheiro pra pagar a ponte pra voltar pra São Gonçalo. Três reais. – Enfiei a mão no bolso e tirai três notas de um real. A única verdade que eu falei naquela blitz. E continuei: – Se eu te der uma, não posso voltar pra casa.
Ah, cidadão. Vai embora. Vai embora. Sai daqui. E vê se não dá mole hein?
- Sim senhor, obrigado senhor.
E eu fui embora, deixando para trás um bando de otários.
Acho que se o Cabo Rogério estivesse voltado, ELE me daria uns dez reais.
Nem todos os policiais são safados, lógico. Mas esses eram. Esse tipo de criatura mancha a imagem do estado. É triste saber que existem seres tão baixos.
Mas eu fiz a minha parte. Saí dali, paguei as multas e fiz a vistoria. Agora, ando com o carro certinho pra evitar ter que “atuar”novamente.
A pior coisa que tem é policial corrupto em véspera de natal ou carnaval. E lá estava eu, indo para o trabalho no carro do meu pai (que estava com o IPVA vencido). O lance é que eu morava em Niterói e ia para o trabalho em Três Rios, o que significava duas horas de viagem numa serra perigosa. Eu saía de casa 5:00 da manhã e metia o carro na estrada.
Naquele dia eu estava distraídamente dirigindo pela serra de Petrópolis quando um guardinha fez sinal para que eu parasse o carro no acostamento.
Eu pensei: Ferrou. Pro guardinha estar aqui de pé na estrada nesse frio, ele vai querer dindim.
Parei o carro e lá veio ele, com o passinho de “cerca-lourenço”. Parou ao lado do vidro e proferiu a frase clássica:
- Bom dia. Habilitação e documentos do veículo, por favor. – Era uma frase dita mecanicamente.
- Bom dia. (aquele tom amável de quem está cagado, apanhado com as calças na mão) Peguei a carteira, peguei o documento e entreguei a ele.
Ele ficou ali olhando, olhando…
Era um jogo de nervos irritante. Ele sabia que iria me ferrar. Eu também sabia, mas ele preferiu ficar ali, me enervando mais um pouco.
- O documento está atrasado. – Disse ele com um certo sorriso. Aquele sorriso pérfido de um urubu ao dar de cara com um boi morto na beira da estrada.
-Ué. É mesmo? Ih. Eu não sabia, senhor policial. É que este carro é do meu pai e… – tentei emendar um rol de desculpas, que ele, e eu mesmo, sabíamos que não serviria para nada além de introduzir a extorsão.
Então ele me interrompeu:
- Vou ter que apreender o veículo.
- Ah… – Disse eu. Eu já estava meio puto. Casado, com sono, tendo que ir para o trabalho cedo pra dedéu e ainda encontro uma dessa pelo caminho. Continuei:
- …Então tá. Pode apreender.
O guarda levou um susto. Não é todo dia que um sujeito fala que ele pode apreender um veículo por estar com o imposto atrasado. O guarda perdeu o rebolado. Eu me adiantei e saí do carro. Tranquei a porta.
- Por favor, me acompanhe. – Disse ele, apontando para aquela casinha onde o policial fica. Eu sabia que era para pedir o dinheiro. Fiz-me de bobo e fui.
Chegando lá, ele falou:
- O senhor tem certeza que eu posso apreender seu veículo?
- Claro. A propósito, o carro não é meu. – Uma óbvia jogada de negociação pra reduzir o valor da propina.
- Então eu vou apreender, hein? Tem certeza? Não quer ligar pro seu pai? – Perguntou ele. Parecia até um episódio do Chaves, meu.
- Senhor policial, eu ligar pro meu pai vai mudar alguma coisa? O senhor vai me liberar?
Eu posso é te prometer que pago o IPVA assim que chegar em Três Rios.
- Ah, isso eu não posso fazer. Não é certo. – Olha a cara de pau do sujeito, de falar esta segunda oração.
- Então apreende o carro, pô. Vou ficar aqui com o senhor cantando até que alguém venha me buscar. Tudo bem… Comecei a assobiar uma musiquinha bem irritante do Latino.
- … – ele ficou em silêncio olhando pra minha cara por cima dos óculos de leitura, bem como o Al Borgueti fazia. Ficamos ali nos encarando uns quatro segundos quando ele interrompeu “o som do silêncio”:
- Tá bom, tá bom. Vou te dar uma chance. Faz o seguinte. Libera duzentos reais aí e pode ir. – Foi assim. Na bucha.
- Hã? O quê? Duzentos reais? Pô se eu tivesse duzentos reais o carro estava com o Ipva pago, senhor policial. Eu tô duro. Tô indo pro trabalho…
- Quanto você tem aí?
- Eu tenho só dez reais pra pagar o pedágio. O senhor troca?
- Você não tem cheque?
- Cheque eu tenho. Só fundos é que não.
- Porra moleque. – O guardinha canalha ficou com raiva. – Você não tem limite na conta?
- Meu limite é de cem reais.
- Então faz logo um cheque de cem reais e pode ir.
E assim eu fiz. Escrevi um cheque de cem reais e perguntei se ele queria nominal. ( piada idiota, hehehe)
-Claro que não, né garoto? Faz ao portador.
Eu fiz e entreguei. O guarda devolveu o documento e a chave.
- Pode ir. E vai com Deus.
Enquanto eu ligava o carro e saía daquele trecho ermo e frio da serra de Petrópolis, me sentia mal. Me sentia um fraco de ter sido corrupto e cedido a uma extorsão barata de um guarda filho da puta, que chegou a se rebaixar e pedir a propina com cheque.
Passei o dia pensando em sustar o cheque. Mas lembrei que o guarda anotou a placa do carro num papel na mesa dele, e tive medo de fazer isso e ele telefonar para outros postos policiais alegando que eu furei um bloqueio, que eu erra perigoso e etc. E eu passava naquela serra duas vezes na semana, o que significava que eu ainda iria ver aquele canalha algumas vezes.
Paguei o IPVA atrasado e dali em diante passava lentamente na frente daquele puto, só pra ter o prazer de esfregar o documento em dia na cara dele.
O sujeito acabou tomando algum tipo de gancho, porque dali a uns 15 dias, ele sumiu. O posto em que ele ficava foi fechado e nunca mais o vi. Naturalmente pediu propina em cheque para mais alguém e se estrepou.
Eu jurei a mim mesmo que nunca mais na minha vida cederia a pressões cretinas e extorsões baratas de policiais querendo dinheiro. E isso se resumia a andar com tudo pago.
Esta parada de andar com tudo pago durou até o meu carro começar a colecionar uma porrada de multas (venha a Niterói e ganhe várias de recordação) que me impediram de fazer uma daquelas vistorias obrigatórias.
Então um dia, o Barbado, que era meu chefe na Ignis Games me pediu pra pegar ele no Aeroporto. O expediente acabou, eu peguei meu carro e fui pro aeroporto pegar o chefe. Quando eu acabei de descer a ponte da Ilha do Governador, perto daquele posto de gasolina, dei de cara com uma blitz. Eu sabia que não tinha feito a vistoria e por isso estava ferrado. Mas mentalmente, jurei que não iria pagar nada pra nenhum filho da puta.
O guarda armado com um fuzil apontou pra mim e em seguida para o acostamento. Mandou eu encostar. Eu parei o carro e veio o sujeito. Aquele mesmo diálogo.
- Documento e habilitação do veículo.
- Sim senhor. – Entreguei. Novamente, um tempão conferindo.
- O senhor não fez a vistoria. – Olha que novidade! Ele é bem espertoné? E eu me fiz de otário, como convinha. Só que dessa vez eu me concentrei e desempenhei a melhor atuação de bom samaritano, digna do Oscar:
- Eu sei, senhor policial. Não fiz mesmo.
- E por que não fez? Eu vou apreender seu veículo, cidadão.
- Eu sei, senhor policial. O senhor está certo e acho que deve mesmo apreender meu veículo. Afinal, é sua função. Eu não tenho cara de pau de pedir pro senhor me liberar.
-… – O guarda bolado. – E o cidadão sabe quanto é a multa que vai ter que pagar? Duzentos e cinqüenta reais! – Aquele preâmbulo de assustar para em seguida entrar com o pedido da propina. Mas eu continuei firme:
- É verdade. É uma multa enorme. Pode multar seu policial. É seu trabalho, né? Eu só gostaria que o senhor soubesse uma coisa. Posso falar?
- Pode cidadão.
- Eu queria só que o senhor soubesse porque eu estou com a vistoria atrasada. Mas olha, isso não é uma desculpa não. É que eu nunca atraso nada, e então acho que tenho que me explicar. Mas a multa e a apreensão do veículo está certo. É seu direito. É sua obrigação mesmo…
- Então fale, cidadão. – Disse o guarda curioso. E eu entrei no personagem de cabeça:
- Policial, olha aqui, vem ver a placa do carro. Tá vendo? O carro é de Três Rios. Eu sou de Três Rios, ( caprichando no sotaque). Eu trabalhava lá. Mas a firma onde eu trabalhava me demitiu. Ela faliu e não me pagou nada. Nem seguro desemprego, nem FGTS, nem nada. Eu fiquei com a mão na frente e outra atrás. E o pior não é isso. O pior é que eles lá usavam meu carro para fazer entrega no Rio. Eu, que precisava daquele emprego, deixava. Só que não sabia. O carro ficou cheio de multa. A firma disse que ia pagar. O senhor pagou? Então, nem eles.
Pra piorar, seu policial, a minha mulher estava grávida. Quando fui ver, era de três.
Três filhos, seu guarda. Desempregado, como que eu vou sustentar três crianças? Duas meninas e um menino? Quer ver a foto, olha aqui – Disse eu sacando a carteira, passando os plastiquinhos. – Não tinha nenhuma foto de criança, afinal, aquilo era absolutamente tudo inventado. Mas eu continuei firme no caô:
- Ué, cadê as fotos? O Washingtton, o Wellingtton e a Stefannyh… Deixa eu ver. Acho que tá aqui. – Disse eu futicando nos compartimentos da carteira. Quanto aos nomes, inventei na hora. Pobre gosta de nome complicado, cheios de “W”, “Y” e letras duplas, né?
- Continue, cidadão. – Disse o policial, olhando em volta. Eu percebi que ele estava interessado. E não perdoei.
- Então, eram três filhos, né? Eu tinha que arrumar um emprego. Dar sustento pra minha família. Decidi vir pro Rio de Janeiro, porque aqui tem mais oportunidade, né? Eu vim com a minha mulher e as crianças e estou de favor nos fundos da casa de uma tia minha que é doente láno Coelho em São Gonçalo, conhece? ( O tal Coelho é um bairro barra-pesada. descobri o bairro quando numa tentativa de assalto acabei puxando papo com o ladrão…Em breve em algum outro caso Gump) …Minha mulher tá fazendo faxina num bar.
Arrumei um emprego ontem, “Com a Graça de Deus” ( encarnando o pobre evangélico, afinal, nada como a Religião para amolecer o coração de um guardinha) e hoje foi meu primeiro dia no emprego. E o meu chefe perguntou se eu podia pegar ele no aeroporto. Eu vou dizer o quê, seu guarda? Vou dizer “não” ao chefe logo no primeiro dia de serviço? O que o senhor faria?
Eu vim buscar o meu chefe. E agora, já sei que me ferrei.
Então, se for apreender o carro tudo bem. Eu já me ferrei mesmo, né? ( olho no relógio)
O homem chegou de viagem faz vinte minutos já. Eu estou queimado. Furei o compromisso no primeiro dia de trabalho. Ele não vai acreditar no papo de uma blitz no caminho para o aeroporto… Já era. Tomara que eu não seja dispensado, afinal, nesse emprego, que eu custei pra arrumar, não vou ganhar muito mas pelo menos vou poder começar a pagar as pessoas a quem eu devo.
Vou poder arrumar minha vida. E comprar comida pras crianças, tadinhas ( os olhos cheios d´água – meus e do guardinha) porque seu guarda, elas não merecem…
Então, policial, se o senhor quiser me multar, o senhor está certo. É o seu direito. Mas sabe quantos litros de leite dá pra comprar com o valor desta multa? – A facada final, aquela pergunta retórica que bate fundo no peito. O guarda estava já quase chorando.
- E seu guarda…
- Cabo Rogério. – Disse ele . Eu fiquei feliz. Havia quebrado o distanciamento institucional. Agora o papo era entre duas pessoas, dois seres humanos. Dar o nome era uma prova de que eu fragilizara seus instintos. Eu estava em franca vantagem psicológica.
- Então, Cabo Rogério, a minha mulher, ela está doente. Ninguém sabe o que é. Vomitou sangue de madrugada… E eu só penso nas crianças. Como que vai ser, Rogério? – Eu dizia enquanto uma singela lágrima escorreu do canto dos meu olho. Ficou dramática aquela cena… Digna de um capítulo final na novela das oito.
- Pode parar, cidadão. – Disse ele apoiando no meu ombro com a mão. Vou tentar te liberar. Espera aí.
O guarda saiu enxugando os olhos.
Falou com um outro. Ele ficou e veio o outro.
Eu pensei: Putaquipariu! Só falta ter que contar essa merda toda novamente, pior que com certeza, eu não vou me lembrar.
O outro veio com a porra da metranca pendurada no pescoço. Eu não conseguia tirar o olho daquele trabuco. Enquanto isso, o outro policial, visívelmente superior na hierarquia, falou:
- Cidadão, conversei com o cabo Rogério. Ele quer que eu te libere.
- É mesmo? ( a clássica frase-mongol para que o policial introduza a extorsão)
- É. Só que o veículo tá irregular, e o certo era eu segurar o seu veículo. Mas então?
- Então? – Entendi bem, mas me fiz de bobo. Ele queria que partisse de mim a proposta. (Mas fiel a minha promessa na serra de Petrópolis, fiquei firme.)
- Então… Se eu te liberar eu estou errado e você está errado. Agora você que sabe. Eu preciso de uma amostra do seu interesse. Tá me entendendo? Tá me entendendo? – Apontou pra carteira.
- Amostra?
- É, sabe como é. A multa é alta. A gente pode dividir esta multa aí.
- Ué, eu não sabia que a polícia parcelava a multa. Dá pra dividir em quantas vezes? Tem juros?
- … – O policial ficou me olhando com cara de “que moleque retardado”
- Quanto você tem aí?
- Então, senhor policial… Eu tava no trabalho. Só tenho dinheiro pra pagar a ponte pra voltar pra São Gonçalo. Três reais. – Enfiei a mão no bolso e tirai três notas de um real. A única verdade que eu falei naquela blitz. E continuei: – Se eu te der uma, não posso voltar pra casa.
Ah, cidadão. Vai embora. Vai embora. Sai daqui. E vê se não dá mole hein?
- Sim senhor, obrigado senhor.
E eu fui embora, deixando para trás um bando de otários.
Acho que se o Cabo Rogério estivesse voltado, ELE me daria uns dez reais.
Nem todos os policiais são safados, lógico. Mas esses eram. Esse tipo de criatura mancha a imagem do estado. É triste saber que existem seres tão baixos.
Mas eu fiz a minha parte. Saí dali, paguei as multas e fiz a vistoria. Agora, ando com o carro certinho pra evitar ter que “atuar”novamente.
Como que eu quase levei um tiro
Eu estou na penúltima aula. Um saco esperar aula do Sérgio Sklar.
Sérgio Sklar é um professor de Filosofia II. Ele entra sempre vestindo um terno visivelmente apertado e meio puído. O sujeito tem uma bela cabeleira cinza. Quando eu ficar coroa, coisa que vai acontecer em menos de 25 anos, quero ter uma cabeleira estilo Richard Gere daquelas.
O meu pai tem uma, o que é um bom sinal…
Eu lembro que reparei na maneira como duas garotas espevitadas observavam com indisfarçável desejo, aquela cabeleira do Sérgio Sklar, que revoava ao vento.
Sim, ao vento. E o vento vem de um pequeno ventilador que o Sérgio Sklar carrega consigo para onde quer que vá, junto com uma mala de couro cheia de papéis de onde ele tira um fio de extensão todo sujo, que parecia ter uns 50 metros. Uma figura doida.
Mas doida mesmo é a aula.
O cara dá a aula mais espetacularmente incompreensível que alguém já imaginou ter. Calma. Acho que não fui suficientemente claro com relação ao “incompreensível”. É mais ou menos como estudar a síntese da antimatéria em aramaico num quarto escuro, usando uma camisa de força com um gato dentro.
Sim. É isso.
Esta é minha sensação na aula interminável de Filosofia II. Já percebeu que disciplinas que são precedidas pelo “II”, sofrem da mesma condição dos filmes? Veja por exemplo, Highlander II.
Highlander II é tão merda, mas tão merda, que o próprio dono da história pede que os fãs simplesmente ignorem aquilo. Chegar a este ponto é o que chamamos científicamente de “A maldição do dois”.
A Sorte de “O Império contra-ataca” é que não se chama “STAR WARS II”. Senão, seria mais um fracassona lista. Já viu Psicose II? ( Se viu, vai saber do que eu estou falando.)
O tal do “II” tem um poder incrível de piorar aquilo que é bom. E DESTRUIR aquilo que já era ruim. E foi assim com Filsofia. ( e Psicometria, claro. Além de Estatística, obviamente. )
Mas finalmente, a aula do Sérgio Sklar acabou e eu tenho a feliz notícia de que a professora que viria a seguir faltou por motivos pessoais.
Na época da faculdade, isso soa pra todo aluno como “Chopp mais cedo”. Porém, no meu caso de bom nerd, significa ir pra casa mais cedo pra jogar joguinho no computador. Êba!
E assim fui eu até o ponto de ônibus onde sozinho, ainda um completo idiota que não sabe ler os sinais sutis da furada, fico a esperar o ônibus para Niterói.
Vamos localizar a história. A Cena se passa às dez horas da noite, no bairro do Rio Comprido. Eu estou bem na porta daquela faculdade ( Estácio de Sá) onde volta e meia tem tiroteio e ocorreu aquela triste situação daquela menina que tomou um teco e ficou paralítica.
Lá estou eu. No ponto. Sozinho com meus pensamentos.
Lá mesmo. No pé do morro. Na barra pesada. De noite. De frente para uma parede que tem mais de 200 buracos de bala. E não ligo uma coisa com a outra. Não tenho medo.
Quando o ônibus finalmente passa, está vazio. Eu penso:
“Que ótimo. Não tenho que ir em pé. Vou poder ir sentado pela primeira vez na semana. Que maravilha voltar pra casa mais cedo. Fora do tumulto. Sozinho e em paz.”
Entro no ônibus e vejo que o trocador me olha com uma cara que a gente faz ao ver esses garotos prestes a pular de bungee jump.
Ignoro a expressão. Mais um sinal.
Entro normalmente. Pego o walkman emprestado do meu irmão e tento sintonizar uma rádio. Nada pega direito. Só a Rádio Catedral, que eu tento escutar pela primeira vez. Enquanto isso, o ônibus descreve seu longo e penoso passeio por ruas estreitas, subidas de morro, viadutos obscuros e lugares esquecidos por Deus.
Entre as imagens que passam dançando na janela eu me perco em pensamentos tão vagos e fugazes quanto a paisagem.
Neste ponto, o ônibus já está com algumas pessoas além de mim. É uma meia dúzia de gatos pingados. Eu vejo um casal de velhinhos, uma mãe com a filha pequena, um sujeito de cabelo reco e umas velhas que voltam de algum bingo.
De vez em quando, o ônibus para e sobem umas pessoas. Eu observo tentando construir enredos imaginários baseados naquelas figuras soturnas e decadentes. É meu vício.
Entra um casal que parece não se falar. Eles chamam minha atenção. Acho que estão brigados. Sérios. Entram juntos. É uma proximidade que mostra claramente que não são estranhos um ao outro, mas sentam-se separados. O cara está duro. Impassível. Quer com certeza parecer estranho à moça. Movimentos rápidos e rígidos. Ele está tenso.
A moça tem o rosto vermelho. Andou chorando. Devem ter brigado. Ela senta no banco oposto, na mesma altura do ônibus. O cara olha pela janela com olhar distante. Ela olha pra outra janela. Dois minutos após, ela já olha pra ele de rabo de olho. Os pés voltados na direção do homem.
Ah, os pés e seu hábil jeito de entregar a verdade que o resto do corpo tenta em vão esconder…
Tento me torcer todo para ver os pés dele. De relance, num movimento de curva, consigo meu intento e vejo que os dele apontam sorrateiramente para ela.
Há todo um balé silencioso, como o acasalamento das abelhas se passando dentro de um nauseabundo lotação semi-vazio na escuridão da cidade. Eu fico satisfeito de ser a testemunha daquela cena.
Volto-me aos meus pensamentos de como o mundo é todo um jogo. Todo uma seqüência de fatos totalmente sem sentido que vão sendo encadeados, mas na verdade, esta aparente falta de sentido esconde uma trama interna. Um fio condutor da realidade que estrutura o que chamamos de real…*
Tomei um tapão.
Eu me viro sorridente esperando encontrar algum amigo da escola. Só amigos da escola cumprimentam-se com tapões dignos de nos fazer expectorar todo catarro da vida.
Mas o que eu vejo é um sujeito mulato com um bigodinho fino no melhor estilo “Canalha malandro do Rio de Janeiro”. Calça jeans e camisão. Uma camiseta verde sem manga por baixo.
Ele senta-se do meu lado e fala uma meia dúzia de coisas que eu não entendo, porque quem fala no meu ouvido, é um bispo lá da rádio Catedral. Tiro o fone e ouço o cara falar:
O dinheiro. Dá o dinheiro.
Vendo que eu estou hesitante, ele tenta ser mais, digamos, “persuasivo”.
De dentro da camisa florida verde, ele saca um trabuco e encosta na minha cintura. É um revólver 38 todo enferrujado. Meu me cago de medo instantâneamente.
Sinto a adrenalina entrar com força rasgante nas minhas veias. Minha pupila dilata e o coração dispara um batuque de centro de macumba. Os cabelinhos da nuca arrepiam e sobe um frio pelas costas.
Na mesma hora, em flashbacks, me vem a mente o revólver que tive sádicamente esfregado no meu globo ocular pelo policial do Niterói Shopping. (vide caso gump dos Aventureiros da Torre Proibida)
O cara continua seu monólogo:
- O dinheiro. Dá o dinheiro, porra! – Engraçado como todo diálogo de bandido que se preze tem que ter um sonoro “porra” no final, né?
Com enorme pesar, pego a carteira. Está ali, juntinho, um bolinho de notas de dez reais. É uma pequena fortuna de 200 merréis que eu havia acabado de receber.
Abro a carteira e deixo o cara meter a mão e arrancar minhas notinhas. Nós (eu e as notas) nunca nos veríamos novamente. O cara arranca também o walkman da minha mão e leva. Vai para a frente do ônibus.
E é neste momento que eu vejo que o ônibus inteiro está sendo saqueado por seis bandidos. Todos armados.
Um está do lado do motorista. A arma apontada pra ele discretamente sob a camisa. Dois outros roubam celulares, jóias.
Vejo o velhinho. Ele está sendo atormentado por um dos bandidos. É um moleque de não mais que 18 anos. Idade para ser neto dele, usando extrema violência. Ele quer a aliança do velhinho.
O senhor tenta tirar a aliança do dedo, mas devido ao tempo, parece que ela se integrou com o corpo dele de um jeito que não sai. O cara tá nervoso. Ele dá uma coronhada no velho. A velha grita. O clima de tensão está crescendo numa velocidade grotesca.
Um a um, cada passageiro do ônibus vai sendo assaltado.
O ônibus chega agora perto do Campo de Santana. Uma espécie de parque urbano, que é um deserto escuro só.
O assalto começa a chegar ao fim.
O bandido do bigodinho vai para a escada do ônibus para descer. Mas então ele pára e volta.
Eu fico ali olhando e vejo que ele tá voltando olhando… Pra mim.
Putaquipariu. Ah, não. É pra mim mesmo que ele tá vindo. Com o revólver na mão.
O cara para na minha frente e diz apontando (didaticamente) com o trabuco:
- Dá o relógio aí plei! – Caralho. O relógio não. Logo o relógio, que é um modelo caríssimo da Timex que usa um sistema ótico especial para gravar dados do computador e que me ajudou a colar durante o segundo grau-Eu penso.
Tenho que ser rápido dessa vez, pois os caras não gostam de gente que lerda. Eu sorrio aquele sorriso amigavelmente falso de vendedor de carros usados e jogo um dos maiores caôs que eu consegui jogar em alguém em toda minha vida:
- Ah, beleza cumpadi. É de camelô mesmo. Qualquer dez reáu eu compro outro. Pegaí. – Digo já desabotoando a pulseira.
Para meu espanto, o golpe funciona inacreditávelmente bem. O bandido vira-se e vai embora me deixando com o relógio:
-Relógio de camelô é tudo merda. Isso eu não quero não. Pode ficar. – Diz ele.
Quando o bandido vai passando, eu vejo que os outros estão se pirulitando pra fora do ônibus com o produto do roubo dentro de uma mochilinha de nylon vermelha. O assalto chega ao fim.
É agora que acontece.
Tudo fica em câmera lenta. Eu vejo que dois bancos vazios à minha frente, está o carinha do cabelo reco. O bandido do bigodinho vai passando do lado dele. Os outros estão na porta saindo. O mais velho está com o motorista, olhando pra cá.
Não sei como exatamente, mas o carinha do cabelo reco levanta-se com uma porra duma pistola preta na mão. Parece ser uma automática 9mm. Ele aponta para as costas do bandido de bigodinho. Vai atirar.
Eu vejo que o bandidão mais velho que estava com o motorista está agora apontando a arma pra minha direção. Só dá tempo de pensar:
- Merda! E fechar o olho.
Escuto quatro estampidos secos e então, um silêncio que demora exatamente dois segundos e logo após, um grito. E outro. E uma confusão.
Eu estou duro. Petrificado. Os olhos fechados. Eu sinto a camisa empapar. Acho que fui baleado. Acho que estou em choque. Que fui atingido. O cara atirou bem na minha direção. Quatro tiros, um pelo menos tem que pegar em mim.
Abro os olhos. Na minha frente, caído, está o cara do cabelo reco.
Nessa hora eu vejo alguém morrer de tiro pela primeira vez.
Eu sempre pensei que as pessoas morressem como no cinema. No cinema é assim. Toma o tiro, faz um furo. Sai um sanguinho e a pessoa desfalece. Dura. Cadavérica. É a morte. Quando muito, rola um discurso, uma troca de olhares dramática. E a morte surge, como num desmaio.
Vejo chocado que no mundo real a morte é muito pior. O cara, vejam vocês, está estribuchando… Ele está estribuchando de um jeito que eu não vou me esquecer jamais. Sei disso. Parece um boneco levando choque.
As mulheres gritam.
Todo mundo corre para fora do ônibus. Não há nenhum bandido morto.
O cara morreu gratuitamente. Ele foi assaltado como todo mundo e achou, sei lá de que jeito, que conseguiria sozinho matar os seis ladrões. Síndrome do Rambo ou coisa que o valha, sei lá.
Eu passo por cima do corpo. Não tenho coragem de ajudar. Um senhor e o trocador querem pegar o cara e correr para o hospital logo do outro lado da rua. Eles pedem minha ajuda. Um homem que estava lá atrás diz que o garoto já morreu e que não pode mexer no corpo.
Eu estou tonto. Sinto uma estranha vontade de vomitar. Desço correndo daquele ônibus.
O casal brigado está agora abraçado. A moça chorando e o cara, com o olhar não mais perdido, a abraça.
Os velhinhos falam com pessoas na rua. As três velhas falam ao mesmo tempo. Uma para a outra. Uma patrulhinha aparece. Os policiais gordões saem lentamente do veículo carcomido.
Eu estou sem saber o que fazer. Sem saber o que falar. Nem pra onde ir.
Eu ainda estou escutando o tiro. É um loop repetitivo em que revivo a sensação de quase morrer. Ainda estou sentindo o cheiro da pólvora no meu nariz. Na mente, revejo a cena e ouço o gemido do cara que estribucha no gelado piso do ônibus. O tempo passa e eu nem sinto.
Resolvo andar. Conheço aquele lugar. Trabalhei ali. Central do Brasil. Sua fauna rica.
Ando apressado, tentando chegar numa multidão e me perder na segurança de meus pares.
Outro ônibus vem. Eu pego este.
Ele sobe a ponte. Eu olho o mar e penso naquele cara e em seu destino fatal. Penso na família dele. Penso em como eu pude sentir minha roupa empapar de sangue se eu não havia sido baleado. Eu penso em muita coisa. Olho um por um naquele ônibus. Vejo o medo nos olhos das pessoas e descubro que me tornei mais um. Com medo, me refugiando na aglomeração dos meus pares. Eu penso nisso tudo e a cidade me abraça.
Sérgio Sklar é um professor de Filosofia II. Ele entra sempre vestindo um terno visivelmente apertado e meio puído. O sujeito tem uma bela cabeleira cinza. Quando eu ficar coroa, coisa que vai acontecer em menos de 25 anos, quero ter uma cabeleira estilo Richard Gere daquelas.
O meu pai tem uma, o que é um bom sinal…
Eu lembro que reparei na maneira como duas garotas espevitadas observavam com indisfarçável desejo, aquela cabeleira do Sérgio Sklar, que revoava ao vento.
Sim, ao vento. E o vento vem de um pequeno ventilador que o Sérgio Sklar carrega consigo para onde quer que vá, junto com uma mala de couro cheia de papéis de onde ele tira um fio de extensão todo sujo, que parecia ter uns 50 metros. Uma figura doida.
Mas doida mesmo é a aula.
O cara dá a aula mais espetacularmente incompreensível que alguém já imaginou ter. Calma. Acho que não fui suficientemente claro com relação ao “incompreensível”. É mais ou menos como estudar a síntese da antimatéria em aramaico num quarto escuro, usando uma camisa de força com um gato dentro.
Sim. É isso.
Esta é minha sensação na aula interminável de Filosofia II. Já percebeu que disciplinas que são precedidas pelo “II”, sofrem da mesma condição dos filmes? Veja por exemplo, Highlander II.
Highlander II é tão merda, mas tão merda, que o próprio dono da história pede que os fãs simplesmente ignorem aquilo. Chegar a este ponto é o que chamamos científicamente de “A maldição do dois”.
A Sorte de “O Império contra-ataca” é que não se chama “STAR WARS II”. Senão, seria mais um fracassona lista. Já viu Psicose II? ( Se viu, vai saber do que eu estou falando.)
O tal do “II” tem um poder incrível de piorar aquilo que é bom. E DESTRUIR aquilo que já era ruim. E foi assim com Filsofia. ( e Psicometria, claro. Além de Estatística, obviamente. )
Mas finalmente, a aula do Sérgio Sklar acabou e eu tenho a feliz notícia de que a professora que viria a seguir faltou por motivos pessoais.
Na época da faculdade, isso soa pra todo aluno como “Chopp mais cedo”. Porém, no meu caso de bom nerd, significa ir pra casa mais cedo pra jogar joguinho no computador. Êba!
E assim fui eu até o ponto de ônibus onde sozinho, ainda um completo idiota que não sabe ler os sinais sutis da furada, fico a esperar o ônibus para Niterói.
Vamos localizar a história. A Cena se passa às dez horas da noite, no bairro do Rio Comprido. Eu estou bem na porta daquela faculdade ( Estácio de Sá) onde volta e meia tem tiroteio e ocorreu aquela triste situação daquela menina que tomou um teco e ficou paralítica.
Lá estou eu. No ponto. Sozinho com meus pensamentos.
Lá mesmo. No pé do morro. Na barra pesada. De noite. De frente para uma parede que tem mais de 200 buracos de bala. E não ligo uma coisa com a outra. Não tenho medo.
Quando o ônibus finalmente passa, está vazio. Eu penso:
“Que ótimo. Não tenho que ir em pé. Vou poder ir sentado pela primeira vez na semana. Que maravilha voltar pra casa mais cedo. Fora do tumulto. Sozinho e em paz.”
Entro no ônibus e vejo que o trocador me olha com uma cara que a gente faz ao ver esses garotos prestes a pular de bungee jump.
Ignoro a expressão. Mais um sinal.
Entro normalmente. Pego o walkman emprestado do meu irmão e tento sintonizar uma rádio. Nada pega direito. Só a Rádio Catedral, que eu tento escutar pela primeira vez. Enquanto isso, o ônibus descreve seu longo e penoso passeio por ruas estreitas, subidas de morro, viadutos obscuros e lugares esquecidos por Deus.
Entre as imagens que passam dançando na janela eu me perco em pensamentos tão vagos e fugazes quanto a paisagem.
Neste ponto, o ônibus já está com algumas pessoas além de mim. É uma meia dúzia de gatos pingados. Eu vejo um casal de velhinhos, uma mãe com a filha pequena, um sujeito de cabelo reco e umas velhas que voltam de algum bingo.
De vez em quando, o ônibus para e sobem umas pessoas. Eu observo tentando construir enredos imaginários baseados naquelas figuras soturnas e decadentes. É meu vício.
Entra um casal que parece não se falar. Eles chamam minha atenção. Acho que estão brigados. Sérios. Entram juntos. É uma proximidade que mostra claramente que não são estranhos um ao outro, mas sentam-se separados. O cara está duro. Impassível. Quer com certeza parecer estranho à moça. Movimentos rápidos e rígidos. Ele está tenso.
A moça tem o rosto vermelho. Andou chorando. Devem ter brigado. Ela senta no banco oposto, na mesma altura do ônibus. O cara olha pela janela com olhar distante. Ela olha pra outra janela. Dois minutos após, ela já olha pra ele de rabo de olho. Os pés voltados na direção do homem.
Ah, os pés e seu hábil jeito de entregar a verdade que o resto do corpo tenta em vão esconder…
Tento me torcer todo para ver os pés dele. De relance, num movimento de curva, consigo meu intento e vejo que os dele apontam sorrateiramente para ela.
Há todo um balé silencioso, como o acasalamento das abelhas se passando dentro de um nauseabundo lotação semi-vazio na escuridão da cidade. Eu fico satisfeito de ser a testemunha daquela cena.
Volto-me aos meus pensamentos de como o mundo é todo um jogo. Todo uma seqüência de fatos totalmente sem sentido que vão sendo encadeados, mas na verdade, esta aparente falta de sentido esconde uma trama interna. Um fio condutor da realidade que estrutura o que chamamos de real…*
Tomei um tapão.
Eu me viro sorridente esperando encontrar algum amigo da escola. Só amigos da escola cumprimentam-se com tapões dignos de nos fazer expectorar todo catarro da vida.
Mas o que eu vejo é um sujeito mulato com um bigodinho fino no melhor estilo “Canalha malandro do Rio de Janeiro”. Calça jeans e camisão. Uma camiseta verde sem manga por baixo.
Ele senta-se do meu lado e fala uma meia dúzia de coisas que eu não entendo, porque quem fala no meu ouvido, é um bispo lá da rádio Catedral. Tiro o fone e ouço o cara falar:
O dinheiro. Dá o dinheiro.
Vendo que eu estou hesitante, ele tenta ser mais, digamos, “persuasivo”.
De dentro da camisa florida verde, ele saca um trabuco e encosta na minha cintura. É um revólver 38 todo enferrujado. Meu me cago de medo instantâneamente.
Sinto a adrenalina entrar com força rasgante nas minhas veias. Minha pupila dilata e o coração dispara um batuque de centro de macumba. Os cabelinhos da nuca arrepiam e sobe um frio pelas costas.
Na mesma hora, em flashbacks, me vem a mente o revólver que tive sádicamente esfregado no meu globo ocular pelo policial do Niterói Shopping. (vide caso gump dos Aventureiros da Torre Proibida)
O cara continua seu monólogo:
- O dinheiro. Dá o dinheiro, porra! – Engraçado como todo diálogo de bandido que se preze tem que ter um sonoro “porra” no final, né?
Com enorme pesar, pego a carteira. Está ali, juntinho, um bolinho de notas de dez reais. É uma pequena fortuna de 200 merréis que eu havia acabado de receber.
Abro a carteira e deixo o cara meter a mão e arrancar minhas notinhas. Nós (eu e as notas) nunca nos veríamos novamente. O cara arranca também o walkman da minha mão e leva. Vai para a frente do ônibus.
E é neste momento que eu vejo que o ônibus inteiro está sendo saqueado por seis bandidos. Todos armados.
Um está do lado do motorista. A arma apontada pra ele discretamente sob a camisa. Dois outros roubam celulares, jóias.
Vejo o velhinho. Ele está sendo atormentado por um dos bandidos. É um moleque de não mais que 18 anos. Idade para ser neto dele, usando extrema violência. Ele quer a aliança do velhinho.
O senhor tenta tirar a aliança do dedo, mas devido ao tempo, parece que ela se integrou com o corpo dele de um jeito que não sai. O cara tá nervoso. Ele dá uma coronhada no velho. A velha grita. O clima de tensão está crescendo numa velocidade grotesca.
Um a um, cada passageiro do ônibus vai sendo assaltado.
O ônibus chega agora perto do Campo de Santana. Uma espécie de parque urbano, que é um deserto escuro só.
O assalto começa a chegar ao fim.
O bandido do bigodinho vai para a escada do ônibus para descer. Mas então ele pára e volta.
Eu fico ali olhando e vejo que ele tá voltando olhando… Pra mim.
Putaquipariu. Ah, não. É pra mim mesmo que ele tá vindo. Com o revólver na mão.
O cara para na minha frente e diz apontando (didaticamente) com o trabuco:
- Dá o relógio aí plei! – Caralho. O relógio não. Logo o relógio, que é um modelo caríssimo da Timex que usa um sistema ótico especial para gravar dados do computador e que me ajudou a colar durante o segundo grau-Eu penso.
Tenho que ser rápido dessa vez, pois os caras não gostam de gente que lerda. Eu sorrio aquele sorriso amigavelmente falso de vendedor de carros usados e jogo um dos maiores caôs que eu consegui jogar em alguém em toda minha vida:
- Ah, beleza cumpadi. É de camelô mesmo. Qualquer dez reáu eu compro outro. Pegaí. – Digo já desabotoando a pulseira.
Para meu espanto, o golpe funciona inacreditávelmente bem. O bandido vira-se e vai embora me deixando com o relógio:
-Relógio de camelô é tudo merda. Isso eu não quero não. Pode ficar. – Diz ele.
Quando o bandido vai passando, eu vejo que os outros estão se pirulitando pra fora do ônibus com o produto do roubo dentro de uma mochilinha de nylon vermelha. O assalto chega ao fim.
É agora que acontece.
Tudo fica em câmera lenta. Eu vejo que dois bancos vazios à minha frente, está o carinha do cabelo reco. O bandido do bigodinho vai passando do lado dele. Os outros estão na porta saindo. O mais velho está com o motorista, olhando pra cá.
Não sei como exatamente, mas o carinha do cabelo reco levanta-se com uma porra duma pistola preta na mão. Parece ser uma automática 9mm. Ele aponta para as costas do bandido de bigodinho. Vai atirar.
Eu vejo que o bandidão mais velho que estava com o motorista está agora apontando a arma pra minha direção. Só dá tempo de pensar:
- Merda! E fechar o olho.
Escuto quatro estampidos secos e então, um silêncio que demora exatamente dois segundos e logo após, um grito. E outro. E uma confusão.
Eu estou duro. Petrificado. Os olhos fechados. Eu sinto a camisa empapar. Acho que fui baleado. Acho que estou em choque. Que fui atingido. O cara atirou bem na minha direção. Quatro tiros, um pelo menos tem que pegar em mim.
Abro os olhos. Na minha frente, caído, está o cara do cabelo reco.
Nessa hora eu vejo alguém morrer de tiro pela primeira vez.
Eu sempre pensei que as pessoas morressem como no cinema. No cinema é assim. Toma o tiro, faz um furo. Sai um sanguinho e a pessoa desfalece. Dura. Cadavérica. É a morte. Quando muito, rola um discurso, uma troca de olhares dramática. E a morte surge, como num desmaio.
Vejo chocado que no mundo real a morte é muito pior. O cara, vejam vocês, está estribuchando… Ele está estribuchando de um jeito que eu não vou me esquecer jamais. Sei disso. Parece um boneco levando choque.
As mulheres gritam.
Todo mundo corre para fora do ônibus. Não há nenhum bandido morto.
O cara morreu gratuitamente. Ele foi assaltado como todo mundo e achou, sei lá de que jeito, que conseguiria sozinho matar os seis ladrões. Síndrome do Rambo ou coisa que o valha, sei lá.
Eu passo por cima do corpo. Não tenho coragem de ajudar. Um senhor e o trocador querem pegar o cara e correr para o hospital logo do outro lado da rua. Eles pedem minha ajuda. Um homem que estava lá atrás diz que o garoto já morreu e que não pode mexer no corpo.
Eu estou tonto. Sinto uma estranha vontade de vomitar. Desço correndo daquele ônibus.
O casal brigado está agora abraçado. A moça chorando e o cara, com o olhar não mais perdido, a abraça.
Os velhinhos falam com pessoas na rua. As três velhas falam ao mesmo tempo. Uma para a outra. Uma patrulhinha aparece. Os policiais gordões saem lentamente do veículo carcomido.
Eu estou sem saber o que fazer. Sem saber o que falar. Nem pra onde ir.
Eu ainda estou escutando o tiro. É um loop repetitivo em que revivo a sensação de quase morrer. Ainda estou sentindo o cheiro da pólvora no meu nariz. Na mente, revejo a cena e ouço o gemido do cara que estribucha no gelado piso do ônibus. O tempo passa e eu nem sinto.
Resolvo andar. Conheço aquele lugar. Trabalhei ali. Central do Brasil. Sua fauna rica.
Ando apressado, tentando chegar numa multidão e me perder na segurança de meus pares.
Outro ônibus vem. Eu pego este.
Ele sobe a ponte. Eu olho o mar e penso naquele cara e em seu destino fatal. Penso na família dele. Penso em como eu pude sentir minha roupa empapar de sangue se eu não havia sido baleado. Eu penso em muita coisa. Olho um por um naquele ônibus. Vejo o medo nos olhos das pessoas e descubro que me tornei mais um. Com medo, me refugiando na aglomeração dos meus pares. Eu penso nisso tudo e a cidade me abraça.
Minha viagem inesquecível a Manaus
Quando eu trabalhava na Ignis, eu recebi um convite para ir a Manaus com tudo pago participar de um evento universitário e dar uma palestra sobre o meu processo de trabalho como diretor de arte do jogo Erinia, o primeiro Massive multiplayer RPG 100% nacional.
Eu fiquei todo satisfeito de por ir pela primeira vez na vida para algum lugar com “tudo pago”. Sempre tive uma ambição secreta por coisas que fossem “tudo pago” como acontecia volta e meia em comerciais de Tv e promoções onde a gente não tem a mínima chance de vencer.
O vôo seria pela TAM. Eu deveria ir pra Manaus numa sexta-feira, passar uma noite lá num hotel e voltar no dia seguinte.
E lá fui eu. Arrumei a mala, despedi da primeira dama e mandei ver na direção do aeroporto internacional.
O vôo transcorreu perfeitamente. Cheguei em Manaus às duas da tarde e fui recebido com plaquinha no aeroporto e carro com motorista.
Dali a moça da universidade que tava bancando tudo me levou para conhecer o campus e o local da palestra. Ambos muito bonitos. Mas surpresa mesmo aconteceu no hotel. Eu cheguei lá e logo de cara o gerente veio falar comigo. Ele tinha más notícias. Estava havendo um evento político e um festival de cinema na cidade, o que fez com que alguém importante ocupasse o meu quarto. Eu levei um susto, afinal, era “tudo pago”, como eu iria fazer?
Mas o gerente, super solícito falou que não era pra eu me preocupar, que eles me “realocariam” sem nenhum custo e pediu desculpas pelo transtorno. Sempre que alguém vai te realocar, e que ainda pede desculpas antecipadamente, pode crer que você vai se foder. Isso era um fato inexorável para mim até aquele dia.
Fiz uma cara de bunda, mas sem outra opção, aceitei e segui o rapaz até o outro quarto.
Eu estava esperando um hotel mediano, talvez até ruim, mas quando dei de cara com o palácio nababesco que era o quarto quase tive uma síncope. Na falta de uma suíte tradicional, eles me colocaram no único quarto não ocupado do hotel, que (por motivos óbvios) deveria ser absurdamente caro.
Era um quarto presidencial do tamanho do meu apartamento. Uma Tv de plasma que era a maior que eu vi na minha vida na parede da sala de estar e outra igualzinha no quarto.
Uma banheira com hidromassagem gigante. Ê vidão!
Passei a tarde na banheira, a la Vinícus de Moraes, tomando uma coca-cola e vendo a Tv da sala, que erra tão grande que eu via perfeitamente de dentro da banheira.
Quando chegou a noite, a moça da universidade ligou pro quarto e falou que o motorista ia passar pra me levar pro evento em duas horas. Me arrumei e fui. O evento transcorreu sem problemas. Foi muito engraçado, com varias histórias doidas na palestra. O pessoal riu bastante e depois voltei para o hotel.
O pessoal do evento combinou comigo que eu seria levado para um passeio, onde veria o encontro das águas no dia seguinte. No dia seguinte, meu último dia em Manaus, acordei cedo e tomei aquele sensacional café da manhã de hotel 5 estrelas.
Depois fiquei esperando o pessoal que ia me levar para ver o tal encontro das águas.
Você foi?
Nem eles. Eu tomei um chá de cadeira das oito às onze, quando finalmente consegui telefonar para o pessoal do evento que disseram ter esquecido do passeio. Aí já era tarde. Eu tinha que fazer o check out no hotel e pegar um taxi usando um vaucher que eles me deram para o aeroporto. Meu vôo era 13:00.
Então eu olhei no relógio e vi que ainda estava muito cedo. Coloquei a televisão gigante no Discovery e comecei a ver Mith Busters. Mas como o sofá do hotel era absurdamente confortável, cochilei.
Quando eu acordei assutado, olhei a hora e era vinte pra meio dia. Saí igual doido. Peguei a mala e fiz check out.
-Tudo pago, senhor. Obrigado. – Ah, como é bom ouvir esta frase!
Chamei o taxi e tampamos em direção ao aeroporto. O problema é que o aeroporto de Manaus era tão longe do hotel que eu estava que parecia até que eu ia voltar pra Niterói de táxi. Pro cara correr eu falei pra ele que meu vôo era 12:00. Rapaz, nunca vi um taxista fazer tanta maluquice e dirigir tão rápido. Ele parecia o cara daquele filme “O entregador”.
Cheguei no aeroporto. Eram 12:20. O aeroporto estava uma zona do caramba. Lotado. Pessoas gritando nos guichês. A Vasp havia parado de voar e largou na mão centenas de passageiros ilhados em Manaus.
Aí me toquei que ainda tinha que comprar um presente para a primeira dama. Entrei numa daquelas milhares de lojas que vendem tudo do boi bumbá e arcos e chocalhos indígenas.
Fiquei um tempão até achar uma camiseta legal. Olhei a hora. Era 12:30.
Eu tinha que fazer o check in até 12:35.
Paguei a camisa e corri pro guichê. A moça do guichê falou que o check in não era no balcão mas sim no interior da sala de embarque, coisa que eu nunca vi na vida.
Corri para sala de embarque e quando eu estava quase chegando nela, um sujeito de bigodinho que parecia mais o Mazzaropi fechou a porta de vidro na minha cara.
Eu olhei pra ele e achei que era algum tipo de piada. Ele ficou me olhando com um sorrisinho filho da puta atrás daquele vidro. Eu comecei a argumentar do outro lado do vidro.
- Ei, deixa eu entrar!
- Já encerrou.
- Hã?
- Encerrou, senhor.
- Encerrou o quê?
- O período para o check in. – Disse ele me mostrando um relógio barato de camelô estilo G-Shock dos anos 80.
- Mas olha aqui. São 12:30! O Check In está escrito aqui, ó! É até 12:30.
- Então, senhor. ATÉ 12:30. São 12:30, olha só. – Novamente com o sorriso cretino me mostrando o relógio. Atrás dele, eu vejo a fila enorme de pessoas do meu vôo.
- Moço. Por favor, olha aqui a passagem. Que que te custa abrir esta merda dessa porta de vidro. A um metro atrás do senhor está uma fila enorme de pessoas do meu vôo.
- Lamento senhor. Não posso fazer isso. Vá até o guichê e peça uma autorização por escrito da coordenadora da Infraero que eu abro.
Eu xinguei todos os palavrões possíveis e imagináveis.
Corri no balcão. Ali estava uma mocinha daquelas mal comidas,. que trabalham num ritmo que parecem ser sonâmbulas dormindo. Eu quis pedir logo pra ela resolver meu problema, mas ela nem me deu ouvidos. Estava resolvendo o problema de troca de passagem de um casal que viajaria dali a quinze dias em lua de mel. Eu tentei argumentar que pro meu caso, cada segundo contava, mas ela se limitou a dizer:
- O sistema é de fila única, senhor.
Quando finalmente chegou a minha vez, eu estava grudado no relógio. A cada segundo, minha chance de voltar para casa se esvaía.
A moça ligou para o dept. responsável, mas primeiro a ligação não atendia.
Eu olhei no relógio. Faltavam agora dois minutos.
Quando o telefone finalmente atendeu, eu contei minha história para a moça do outro lado. Devia ser uma matrona gorda, tipo governanta suíça, que simplesmente falou pra mim com a educação mais perfeita que eu já vi:
-Problema seu. Chegasse antes. – E bateu o telefone na minha cara.
Eu estava owned. Mais uma porra de ownada na minha vida.
Corri para a porta de blindex que me separava do meu vôo. Através dela, atrás do filho da puta de bigodinho e sorriso cretino, eu vi as últimas pessoas embarcando. Dali a um tempo vi o avião decolar.
Eu estava sozinho, com medo e com frio em Manaus. E o que é pior, sem UM PUTO. Afinal era “tudo pago”.
Arrastei minha carcaça de looser até o guichê e perguntei quando sairia o próximo vôo.
para meu absoluto desespero, estavam todos os vôos lotados e o único vôo que tinha lugar seria numa quarta-feira. ( detalhe: era sábado ainda)
Eu tinha uma remota chance de alguém não ir ou chegar a tempo ao próximo vôo, que seria as três da tarde.
Liguei pra primeira dama para dar as más notícias. Ela se desesperou.
Eu resolvi ficar esperando o próximo vôo da TAM.
Nesse interim, corri até os outros guichês e constatei que devido ao crash financeiro da Vasp, todos os vôos das demais companhias lotaram. Uma vez que de Manaus pro sul não tem muito jeito (estrada é loucura, barco também) o aeroporto era o único meio viável de transporte. E com vários eventos na cidade, como o de cinema, o político e os universitários, não tinha lugar mesmo. E graças a incompetência das companhias, não havia absolutamente nenhum vôo extra.
Quando deu três horas eu fiquei apreensivo. As pessoas começaram a entrar no vôo. Um a um foram entrando. E fechou. O rapaz do guichê falou que o vôo lotou. O próximo seria as dez da noite.
Eu olhei para os lados. O aeroporto, minhas malas e nada mais. Me senti o Tom Hanks em “O Terminal”.
Comecei a passear pelo aeroporto. Quando passou umas duas horas de espera ali, eu já conhecia tudo. Já havia visto tudo das lojas e havia folheado tantas revistas na banca de jornal que o velhinho tava querendo me dar uma porrada.
Eu dei uma olhada em quanto eu tinha no sacrossanto compartimento da carteira onde fica o dindim para emergência. Dez reais.
Com dez reais o taxi não sairia nem pelo portão do aeroporto. Quanto mais viajar até o centro.
Liguei pra Nivea, a primeira dama.
Ela estava falando com a minha comadre, a Elaine. E o marido dela, o meu compadre Americo foi muito solícito em tentar me tirar daquela roubada. Ele tem amigos na polícia em todos os estados e conseguiu contactar uma pessoa em Manaus que mandou a filha e esposa dele irem de carro me buscar.
Elas chegaram e foram super legais. Me pegaram lá no aeroporto e me levaram naquele calor de 40 graus para um banco HSBC, onde eu consegui pegar mais um dinheirinho.
Começamos a procurar um hotel que desse pra eu tomar um banho e esperar até de noite. Não havia nada. Todos os hotéis estavam cheios. Até que chegamos em um com decoração bem estranha… Digamos, regional.
O quarto era cem pratas. Despedi-me com tristeza das duas notinhas amarelinhas e combinei com a moça que eu iria sair de noite pra tentar embarcar. Se eu não conseguisse, iria voltar pro hotel ainda naquela diária. A moça topou. Fiquei no quarto do hotelzinho no centro e resolvi dar um passeio. Zanzei pelo centro de Manaus e vi como tem camelô vendendo controle remoto naquele lugar. É o paraíso dos controles remotos.
Passeando, eu constatei uma coisa curiosa lá em Manaus que é o fato de ser uma cidade oito ou oitenta. Ou tem mulher linda, quase modelo, ou “chuta que é macumba”, como explicou mais tarde o motorista do taxi.
Fui até uma pracinha onde comi um podrão. ( cachorro quente com “tudo que você tem direito”)
Era meu jantar.
Este foi um dos piores erros da viagem.
Enquanto eu passeava comecei a sentir uns calafrios. Eu estava suando… Uma certa pressão surgiu em meu abdômen. Corri para o hotel antes de acontecer o pior dentro da minha cueca.
Aquele podrão me deu uma diarréia tão filha da puta que pensei que evacuaria meus próprios intestinos.
O banheirinho do quarto era uma merda minúscula, praticamente em cima da cama, com um vaso sanitário que estava em falso, “balangando” de um lado para o outro. E eu ali, cagando aquela água. Nem uma dose cavalar de purgante faria efeito tão rápido como o “podrão com tudo que tem direito” em Manaus.
Meu cú fazia ânsia de vômito, querendo cagar mais e nem tinha mais nada pra sair. O cheiro nauseabundo invadiu o quarto e por mais descarga que eu dava, ( o reservatório embutido não dava pressão na água suficiente) a merda só rodopiava e não descia.
Eu recomecei a suar frio. Blasfemei contra tudo e contra todos de pagar cem merréis para passar a noite sentado num sanitário desnivelado com assento bege de plástico da marca Tigre.
Quando deu a hora, eu sai e peguei um outro taxi. Tratei a corrida. O cara queria 120 pratas pra me levar no aeroporto. Mas eu negociei pesado com ele e ele acabou se solidarizando quando eu contei minha aventura até ali (omitindo o pequeno detalhe da diarréia) e ele fez a corrida por 70 pratas.
No meio do caminho, veio a gastura e a pressão na barriga. Comecei a suar frio novamente. Pedi ao motorista pra parar num bar. Era um pé sujo de quinta categoria. Mas fui lá, dei uma bela olhada na privada. Era um sanitário sem assento, todo mijado.
Sabe como é. Fechei os olhos, me equilibrei parcialmente como deu em cima do vaso e mandei o jato.
Me limpei com um jornal estratégicamente carregado para estes momentos de sofrimento.
Corri para o taxi. Abri bem os vidros para disfarçar meu “odor peculiar”, afinal, jornal borroca tudo.
Mas acho que o taxista percebeu, porque ele passou a correr muito mais.
Cheguei no aeroporto antes das dez da noite. O vôo saiu lotado novamente.
Eu estava ficando cada vez mais puto. Mas até que o fato do vôo ter lotado me permitiu ir até o banheiro e discretamente, com a ajuda de um copinho plástico roubado da lanchonete, dar uma lavada estratégica nas partes baixas… Troquei de roupa no banheiro e me senti bem melhor limpo.
O próximo vôo seria duas e porrada da madrugada. Resolvi não pagar uma nota pra voltar ao hotelzinho. Não iria valer a pena. Além do que eu percebi que se fizesse pressão psicológica suficiente, eu teria mais chances.
Comprei uma revistinha de palavras cruzadas e esperei. Eu percebi como o tempo tem uma capacidade única de passar mais rápido quando estamos nos divertindo.
E eu não estava, por isso, o tempo se arrastou indefinidamente. O saguão vazio e eu lá, escrevendo palavras cruzadas.
Quando deu a hora do vôo, o movimento recomeçou.
O rapaz da madrugada já estava solidário a mim. Eu contei toda minha aventura pra ele. Ele começou a torcer por mim.
Um a um, os passageiros se apresentaram. E então só havia um lugar vazio. Foi dando a hora, nada…
O passageiro não chegava. Eu comecei a recuperar as esperanças. Fiquei super feliz quando o carinha do guichê falou:
- È meu amigo. Agora você vai! Vou vender.
- Ele pegou o computador e começou a digitar. Aí eu só ouvi alguém gritar:
-Esperaaaaaa. Olhei para trás, o que eu vi aconteceu em câmera lenta. Era um gordão enorme com uma camisa amarela de doer o olho. Walkman no ouvido, mochila minúscula nas costas correndo feito um sapão com o bilhete na mão. Parecia o Hurley.
O cara do guichê olhou pra mim e disse:
-O último passageiro entrou. Sinto muito senhor. O vôo lotou.
Ah, aquilo me deu ódio. Muito ódio. Eu queria matar um filho da puta qualquer.
Voltei para a poltrona. O próximo vôo da TAM (lotado) seria só no domingo.
Eu fiquei parado na poltroninha do saguão pensando com como sair daquela situação escrota. O tempo estava contra mim. O podrão havia me dado uma trégua de algumas horas e até meu organismo produzir mais um quilo de cocô, eu tinha que arrumar um jeito de sair daquele lugar no meio da selva.
Fiquei olhando para o guichê da Gol.
Muitas pessoas se acotovelavam em busca de um lugar no vôo das quatro e paulada da manhã.
Eu comecei a observar atentamente e percebi pela maneira de andar e se mexer, que uma mocinha novinha era funcionária recente na Gol. Meio inexperiente. Toda enrolada pra vender as passagens.
Foi aí que comecei a bolar o plano que me tiraria daquele lugar quente.
Corri no banheiro e joguei uma água no rosto, mas não enxuguei. Era para dar o toque de suor. PAssei o dedo besuntado daquela merda de passar na mão que tem nas pias de aeroporto sob os olhos. Eles ficaram vermelhos no ato. Parecia que eu ia chorar. Saí do banheiro já cambaleando.
Eu troquei de lugar. Peguei uma cadeira bem de frente para o guichê da Gol.
Abri a camisa um pouco, baguncei o cabelo e comecei a fazer a cara de quem vai morrer. Esta cara até que era fácil de fazer, considerando que eu havia passado a tarde inteira evacuando tudo que havia dentro de mim. Eu estava digamos, meio cadavérico mesmo.
Os olhos fundos. A face sem cor.
Vi que a mocinha me olhou por alguns segundos. Comecei a tossir uma tosse tubercoleprosa. Mais uma vez, apelei para minha interpretação cinematográfica de doente.
E lá estava eu, esquecido num aeroporto distante, fingindo de doente para ludibriar uma moça do guichê da Gol. Era literalmente “O terminal”.
Ela começou a me olhar com uma expessão de preocupação. Quando deu um momento mais vazio, percebi que ela estava sozinha no balcão. Então me levantei com a dificuldade da velha da “Praça é nossa” e movimentei minha carcaça na direção dela. Eu fiz aquele andar de zumbi de filme do George Romero misturado com o andar após o coma da moça de Kill Bill.
Cheguei semi-desfalecido no guichê. A mocinha mal podia conter seu receio.
Eu falei pra ela ( o contável a uma moça) o primeiro trecho da minha história.
- Está se sentindo bem, senhor? – Perguntou a coitada, toda preocupada.
- Moça eu sofro de síndrome de wisterchausen. Já ouviu falar?
- Não… É grave?
- Muito. Se eu não tomar 752 Triodoxina nas próximas seis horas, eu posso morrer.
- Meu Deus!
- E o pior é que o medicanente não tem em Manaus. Fui no hospital e eles me mandaram ir pra Brasília. Só lá que tem. Só que os vôos estão todos lotados, não estão?
-Estão todos lotados senhor. – Ela confirmou.
- E você não tem jeito de me encaixar?
- Ih, senhor. É que com a falta dos vôos da Vasp… – Começou a arrumar desculpa. Aí eu tive que apelar.
- Pois é. Então eu vou morrer. Porque se eu não tomar, essa doença auto-imune que eu tenho vai gerar uma crise pós-hiperbólica nos dendritos cerebrais. A pleura parietal vai vazar e eu vou ter uma ataque aqui. Bem na sua frente. Eu posso morrer e vai ser culpa SUA. – Eu falei apontando o dedo na cara dela.
Ela tomou o maior susto, coitada. Ficou desesperada. Eu cheguei a ficar até com pena quando vi o pânico tomar conta da menina. Afinal, uma história com tantos termos médicos e de nome supostamente alemão, só podia ser séria mesmo.
Ela falou:
- Acalme-se senhor. Eu vou tentar ajudar o senhor. Vou trocar a passagem de um passageiro e te encaixo no próximo vôo daqui a dez minutos.
- Ah, graças a Deus, moça. Você salvou a minha vida! – Eu falei. Os olhos cinematográficamente revirando para trás. A cabeça pendendo para o lado. Paguei mil e tantos reais de passagem no cartão de crédito.
Ela tirou o boletinho em forma de cupom fiscal de padaria, que é o bilhete de embarque da Gol. Eu olhei para aquilo e pensei: Mil e tanto para uma merda de bilhete desses? Coisas da Gol. Eu corri todo torto, igual ao homem-barata de MIB para o salão de embarque e em pouco tempo depois, eu estava dentro do avião comendo amendoim voltando para Brasília.
Cheguei em Brasília de manhã cedo. Com o meu bilhete Manaus-Brasília-Rio da TAM eu consegui pegar o pedaço Brasília-Rio e voltei comendo um sanduíche.
Cheguei no Rio e corri para pegar a primeira van que estava passando no aeroporto. A van estava lotada e só tinha mais um lugar.
Quando eu vou sentar, olho e quem está ali do meu lado?
Meu pai.
Na maior coincidência ele estava na mesma van que eu. Eu abracei meu pai e todo mundo ficou meio bolado achando que eu era doido. Voltamos juntos para casa. Era o final de uma aventura e tanto. Uma aventura com quase tudo pago.
FIM
Calma que ainda não acabou. Eu tentei reaver o meu dinheiro gasto na GOL com a Tam, pegando o valor do trecho Manaus – Brasília de volta em dinheiro. A Tam pegou a grana e despositou na conta.
Na conta da universidade. Nunca mais recuperei aquele dinheiro.
Posteriormente concluí que o cara fechou o portão de embarque na minha cara porque alguém (político ou famoso Global que estava num dos eventos da cidade) deve ter apelado para entrar naquele vôo e eles venderam o meu lugar antes do encerramento do período de check in. Brasil é Brasil.
Esta história também está participando da promoção do blog Goitacá ai o link :http://www.goitaca.com/viagem/um-livro-para-os-piores-erros-de-viagem/
Eu fiquei todo satisfeito de por ir pela primeira vez na vida para algum lugar com “tudo pago”. Sempre tive uma ambição secreta por coisas que fossem “tudo pago” como acontecia volta e meia em comerciais de Tv e promoções onde a gente não tem a mínima chance de vencer.
O vôo seria pela TAM. Eu deveria ir pra Manaus numa sexta-feira, passar uma noite lá num hotel e voltar no dia seguinte.
E lá fui eu. Arrumei a mala, despedi da primeira dama e mandei ver na direção do aeroporto internacional.
O vôo transcorreu perfeitamente. Cheguei em Manaus às duas da tarde e fui recebido com plaquinha no aeroporto e carro com motorista.
Dali a moça da universidade que tava bancando tudo me levou para conhecer o campus e o local da palestra. Ambos muito bonitos. Mas surpresa mesmo aconteceu no hotel. Eu cheguei lá e logo de cara o gerente veio falar comigo. Ele tinha más notícias. Estava havendo um evento político e um festival de cinema na cidade, o que fez com que alguém importante ocupasse o meu quarto. Eu levei um susto, afinal, era “tudo pago”, como eu iria fazer?
Mas o gerente, super solícito falou que não era pra eu me preocupar, que eles me “realocariam” sem nenhum custo e pediu desculpas pelo transtorno. Sempre que alguém vai te realocar, e que ainda pede desculpas antecipadamente, pode crer que você vai se foder. Isso era um fato inexorável para mim até aquele dia.
Fiz uma cara de bunda, mas sem outra opção, aceitei e segui o rapaz até o outro quarto.
Eu estava esperando um hotel mediano, talvez até ruim, mas quando dei de cara com o palácio nababesco que era o quarto quase tive uma síncope. Na falta de uma suíte tradicional, eles me colocaram no único quarto não ocupado do hotel, que (por motivos óbvios) deveria ser absurdamente caro.
Era um quarto presidencial do tamanho do meu apartamento. Uma Tv de plasma que era a maior que eu vi na minha vida na parede da sala de estar e outra igualzinha no quarto.
Uma banheira com hidromassagem gigante. Ê vidão!
Passei a tarde na banheira, a la Vinícus de Moraes, tomando uma coca-cola e vendo a Tv da sala, que erra tão grande que eu via perfeitamente de dentro da banheira.
Quando chegou a noite, a moça da universidade ligou pro quarto e falou que o motorista ia passar pra me levar pro evento em duas horas. Me arrumei e fui. O evento transcorreu sem problemas. Foi muito engraçado, com varias histórias doidas na palestra. O pessoal riu bastante e depois voltei para o hotel.
O pessoal do evento combinou comigo que eu seria levado para um passeio, onde veria o encontro das águas no dia seguinte. No dia seguinte, meu último dia em Manaus, acordei cedo e tomei aquele sensacional café da manhã de hotel 5 estrelas.
Depois fiquei esperando o pessoal que ia me levar para ver o tal encontro das águas.
Você foi?
Nem eles. Eu tomei um chá de cadeira das oito às onze, quando finalmente consegui telefonar para o pessoal do evento que disseram ter esquecido do passeio. Aí já era tarde. Eu tinha que fazer o check out no hotel e pegar um taxi usando um vaucher que eles me deram para o aeroporto. Meu vôo era 13:00.
Então eu olhei no relógio e vi que ainda estava muito cedo. Coloquei a televisão gigante no Discovery e comecei a ver Mith Busters. Mas como o sofá do hotel era absurdamente confortável, cochilei.
Quando eu acordei assutado, olhei a hora e era vinte pra meio dia. Saí igual doido. Peguei a mala e fiz check out.
-Tudo pago, senhor. Obrigado. – Ah, como é bom ouvir esta frase!
Chamei o taxi e tampamos em direção ao aeroporto. O problema é que o aeroporto de Manaus era tão longe do hotel que eu estava que parecia até que eu ia voltar pra Niterói de táxi. Pro cara correr eu falei pra ele que meu vôo era 12:00. Rapaz, nunca vi um taxista fazer tanta maluquice e dirigir tão rápido. Ele parecia o cara daquele filme “O entregador”.
Cheguei no aeroporto. Eram 12:20. O aeroporto estava uma zona do caramba. Lotado. Pessoas gritando nos guichês. A Vasp havia parado de voar e largou na mão centenas de passageiros ilhados em Manaus.
Aí me toquei que ainda tinha que comprar um presente para a primeira dama. Entrei numa daquelas milhares de lojas que vendem tudo do boi bumbá e arcos e chocalhos indígenas.
Fiquei um tempão até achar uma camiseta legal. Olhei a hora. Era 12:30.
Eu tinha que fazer o check in até 12:35.
Paguei a camisa e corri pro guichê. A moça do guichê falou que o check in não era no balcão mas sim no interior da sala de embarque, coisa que eu nunca vi na vida.
Corri para sala de embarque e quando eu estava quase chegando nela, um sujeito de bigodinho que parecia mais o Mazzaropi fechou a porta de vidro na minha cara.
Eu olhei pra ele e achei que era algum tipo de piada. Ele ficou me olhando com um sorrisinho filho da puta atrás daquele vidro. Eu comecei a argumentar do outro lado do vidro.
- Ei, deixa eu entrar!
- Já encerrou.
- Hã?
- Encerrou, senhor.
- Encerrou o quê?
- O período para o check in. – Disse ele me mostrando um relógio barato de camelô estilo G-Shock dos anos 80.
- Mas olha aqui. São 12:30! O Check In está escrito aqui, ó! É até 12:30.
- Então, senhor. ATÉ 12:30. São 12:30, olha só. – Novamente com o sorriso cretino me mostrando o relógio. Atrás dele, eu vejo a fila enorme de pessoas do meu vôo.
- Moço. Por favor, olha aqui a passagem. Que que te custa abrir esta merda dessa porta de vidro. A um metro atrás do senhor está uma fila enorme de pessoas do meu vôo.
- Lamento senhor. Não posso fazer isso. Vá até o guichê e peça uma autorização por escrito da coordenadora da Infraero que eu abro.
Eu xinguei todos os palavrões possíveis e imagináveis.
Corri no balcão. Ali estava uma mocinha daquelas mal comidas,. que trabalham num ritmo que parecem ser sonâmbulas dormindo. Eu quis pedir logo pra ela resolver meu problema, mas ela nem me deu ouvidos. Estava resolvendo o problema de troca de passagem de um casal que viajaria dali a quinze dias em lua de mel. Eu tentei argumentar que pro meu caso, cada segundo contava, mas ela se limitou a dizer:
- O sistema é de fila única, senhor.
Quando finalmente chegou a minha vez, eu estava grudado no relógio. A cada segundo, minha chance de voltar para casa se esvaía.
A moça ligou para o dept. responsável, mas primeiro a ligação não atendia.
Eu olhei no relógio. Faltavam agora dois minutos.
Quando o telefone finalmente atendeu, eu contei minha história para a moça do outro lado. Devia ser uma matrona gorda, tipo governanta suíça, que simplesmente falou pra mim com a educação mais perfeita que eu já vi:
-Problema seu. Chegasse antes. – E bateu o telefone na minha cara.
Eu estava owned. Mais uma porra de ownada na minha vida.
Corri para a porta de blindex que me separava do meu vôo. Através dela, atrás do filho da puta de bigodinho e sorriso cretino, eu vi as últimas pessoas embarcando. Dali a um tempo vi o avião decolar.
Eu estava sozinho, com medo e com frio em Manaus. E o que é pior, sem UM PUTO. Afinal era “tudo pago”.
Arrastei minha carcaça de looser até o guichê e perguntei quando sairia o próximo vôo.
para meu absoluto desespero, estavam todos os vôos lotados e o único vôo que tinha lugar seria numa quarta-feira. ( detalhe: era sábado ainda)
Eu tinha uma remota chance de alguém não ir ou chegar a tempo ao próximo vôo, que seria as três da tarde.
Liguei pra primeira dama para dar as más notícias. Ela se desesperou.
Eu resolvi ficar esperando o próximo vôo da TAM.
Nesse interim, corri até os outros guichês e constatei que devido ao crash financeiro da Vasp, todos os vôos das demais companhias lotaram. Uma vez que de Manaus pro sul não tem muito jeito (estrada é loucura, barco também) o aeroporto era o único meio viável de transporte. E com vários eventos na cidade, como o de cinema, o político e os universitários, não tinha lugar mesmo. E graças a incompetência das companhias, não havia absolutamente nenhum vôo extra.
Quando deu três horas eu fiquei apreensivo. As pessoas começaram a entrar no vôo. Um a um foram entrando. E fechou. O rapaz do guichê falou que o vôo lotou. O próximo seria as dez da noite.
Eu olhei para os lados. O aeroporto, minhas malas e nada mais. Me senti o Tom Hanks em “O Terminal”.
Comecei a passear pelo aeroporto. Quando passou umas duas horas de espera ali, eu já conhecia tudo. Já havia visto tudo das lojas e havia folheado tantas revistas na banca de jornal que o velhinho tava querendo me dar uma porrada.
Eu dei uma olhada em quanto eu tinha no sacrossanto compartimento da carteira onde fica o dindim para emergência. Dez reais.
Com dez reais o taxi não sairia nem pelo portão do aeroporto. Quanto mais viajar até o centro.
Liguei pra Nivea, a primeira dama.
Ela estava falando com a minha comadre, a Elaine. E o marido dela, o meu compadre Americo foi muito solícito em tentar me tirar daquela roubada. Ele tem amigos na polícia em todos os estados e conseguiu contactar uma pessoa em Manaus que mandou a filha e esposa dele irem de carro me buscar.
Elas chegaram e foram super legais. Me pegaram lá no aeroporto e me levaram naquele calor de 40 graus para um banco HSBC, onde eu consegui pegar mais um dinheirinho.
Começamos a procurar um hotel que desse pra eu tomar um banho e esperar até de noite. Não havia nada. Todos os hotéis estavam cheios. Até que chegamos em um com decoração bem estranha… Digamos, regional.
O quarto era cem pratas. Despedi-me com tristeza das duas notinhas amarelinhas e combinei com a moça que eu iria sair de noite pra tentar embarcar. Se eu não conseguisse, iria voltar pro hotel ainda naquela diária. A moça topou. Fiquei no quarto do hotelzinho no centro e resolvi dar um passeio. Zanzei pelo centro de Manaus e vi como tem camelô vendendo controle remoto naquele lugar. É o paraíso dos controles remotos.
Passeando, eu constatei uma coisa curiosa lá em Manaus que é o fato de ser uma cidade oito ou oitenta. Ou tem mulher linda, quase modelo, ou “chuta que é macumba”, como explicou mais tarde o motorista do taxi.
Fui até uma pracinha onde comi um podrão. ( cachorro quente com “tudo que você tem direito”)
Era meu jantar.
Este foi um dos piores erros da viagem.
Enquanto eu passeava comecei a sentir uns calafrios. Eu estava suando… Uma certa pressão surgiu em meu abdômen. Corri para o hotel antes de acontecer o pior dentro da minha cueca.
Aquele podrão me deu uma diarréia tão filha da puta que pensei que evacuaria meus próprios intestinos.
O banheirinho do quarto era uma merda minúscula, praticamente em cima da cama, com um vaso sanitário que estava em falso, “balangando” de um lado para o outro. E eu ali, cagando aquela água. Nem uma dose cavalar de purgante faria efeito tão rápido como o “podrão com tudo que tem direito” em Manaus.
Meu cú fazia ânsia de vômito, querendo cagar mais e nem tinha mais nada pra sair. O cheiro nauseabundo invadiu o quarto e por mais descarga que eu dava, ( o reservatório embutido não dava pressão na água suficiente) a merda só rodopiava e não descia.
Eu recomecei a suar frio. Blasfemei contra tudo e contra todos de pagar cem merréis para passar a noite sentado num sanitário desnivelado com assento bege de plástico da marca Tigre.
Quando deu a hora, eu sai e peguei um outro taxi. Tratei a corrida. O cara queria 120 pratas pra me levar no aeroporto. Mas eu negociei pesado com ele e ele acabou se solidarizando quando eu contei minha aventura até ali (omitindo o pequeno detalhe da diarréia) e ele fez a corrida por 70 pratas.
No meio do caminho, veio a gastura e a pressão na barriga. Comecei a suar frio novamente. Pedi ao motorista pra parar num bar. Era um pé sujo de quinta categoria. Mas fui lá, dei uma bela olhada na privada. Era um sanitário sem assento, todo mijado.
Sabe como é. Fechei os olhos, me equilibrei parcialmente como deu em cima do vaso e mandei o jato.
Me limpei com um jornal estratégicamente carregado para estes momentos de sofrimento.
Corri para o taxi. Abri bem os vidros para disfarçar meu “odor peculiar”, afinal, jornal borroca tudo.
Mas acho que o taxista percebeu, porque ele passou a correr muito mais.
Cheguei no aeroporto antes das dez da noite. O vôo saiu lotado novamente.
Eu estava ficando cada vez mais puto. Mas até que o fato do vôo ter lotado me permitiu ir até o banheiro e discretamente, com a ajuda de um copinho plástico roubado da lanchonete, dar uma lavada estratégica nas partes baixas… Troquei de roupa no banheiro e me senti bem melhor limpo.
O próximo vôo seria duas e porrada da madrugada. Resolvi não pagar uma nota pra voltar ao hotelzinho. Não iria valer a pena. Além do que eu percebi que se fizesse pressão psicológica suficiente, eu teria mais chances.
Comprei uma revistinha de palavras cruzadas e esperei. Eu percebi como o tempo tem uma capacidade única de passar mais rápido quando estamos nos divertindo.
E eu não estava, por isso, o tempo se arrastou indefinidamente. O saguão vazio e eu lá, escrevendo palavras cruzadas.
Quando deu a hora do vôo, o movimento recomeçou.
O rapaz da madrugada já estava solidário a mim. Eu contei toda minha aventura pra ele. Ele começou a torcer por mim.
Um a um, os passageiros se apresentaram. E então só havia um lugar vazio. Foi dando a hora, nada…
O passageiro não chegava. Eu comecei a recuperar as esperanças. Fiquei super feliz quando o carinha do guichê falou:
- È meu amigo. Agora você vai! Vou vender.
- Ele pegou o computador e começou a digitar. Aí eu só ouvi alguém gritar:
-Esperaaaaaa. Olhei para trás, o que eu vi aconteceu em câmera lenta. Era um gordão enorme com uma camisa amarela de doer o olho. Walkman no ouvido, mochila minúscula nas costas correndo feito um sapão com o bilhete na mão. Parecia o Hurley.
O cara do guichê olhou pra mim e disse:
-O último passageiro entrou. Sinto muito senhor. O vôo lotou.
Ah, aquilo me deu ódio. Muito ódio. Eu queria matar um filho da puta qualquer.
Voltei para a poltrona. O próximo vôo da TAM (lotado) seria só no domingo.
Eu fiquei parado na poltroninha do saguão pensando com como sair daquela situação escrota. O tempo estava contra mim. O podrão havia me dado uma trégua de algumas horas e até meu organismo produzir mais um quilo de cocô, eu tinha que arrumar um jeito de sair daquele lugar no meio da selva.
Fiquei olhando para o guichê da Gol.
Muitas pessoas se acotovelavam em busca de um lugar no vôo das quatro e paulada da manhã.
Eu comecei a observar atentamente e percebi pela maneira de andar e se mexer, que uma mocinha novinha era funcionária recente na Gol. Meio inexperiente. Toda enrolada pra vender as passagens.
Foi aí que comecei a bolar o plano que me tiraria daquele lugar quente.
Corri no banheiro e joguei uma água no rosto, mas não enxuguei. Era para dar o toque de suor. PAssei o dedo besuntado daquela merda de passar na mão que tem nas pias de aeroporto sob os olhos. Eles ficaram vermelhos no ato. Parecia que eu ia chorar. Saí do banheiro já cambaleando.
Eu troquei de lugar. Peguei uma cadeira bem de frente para o guichê da Gol.
Abri a camisa um pouco, baguncei o cabelo e comecei a fazer a cara de quem vai morrer. Esta cara até que era fácil de fazer, considerando que eu havia passado a tarde inteira evacuando tudo que havia dentro de mim. Eu estava digamos, meio cadavérico mesmo.
Os olhos fundos. A face sem cor.
Vi que a mocinha me olhou por alguns segundos. Comecei a tossir uma tosse tubercoleprosa. Mais uma vez, apelei para minha interpretação cinematográfica de doente.
E lá estava eu, esquecido num aeroporto distante, fingindo de doente para ludibriar uma moça do guichê da Gol. Era literalmente “O terminal”.
Ela começou a me olhar com uma expessão de preocupação. Quando deu um momento mais vazio, percebi que ela estava sozinha no balcão. Então me levantei com a dificuldade da velha da “Praça é nossa” e movimentei minha carcaça na direção dela. Eu fiz aquele andar de zumbi de filme do George Romero misturado com o andar após o coma da moça de Kill Bill.
Cheguei semi-desfalecido no guichê. A mocinha mal podia conter seu receio.
Eu falei pra ela ( o contável a uma moça) o primeiro trecho da minha história.
- Está se sentindo bem, senhor? – Perguntou a coitada, toda preocupada.
- Moça eu sofro de síndrome de wisterchausen. Já ouviu falar?
- Não… É grave?
- Muito. Se eu não tomar 752 Triodoxina nas próximas seis horas, eu posso morrer.
- Meu Deus!
- E o pior é que o medicanente não tem em Manaus. Fui no hospital e eles me mandaram ir pra Brasília. Só lá que tem. Só que os vôos estão todos lotados, não estão?
-Estão todos lotados senhor. – Ela confirmou.
- E você não tem jeito de me encaixar?
- Ih, senhor. É que com a falta dos vôos da Vasp… – Começou a arrumar desculpa. Aí eu tive que apelar.
- Pois é. Então eu vou morrer. Porque se eu não tomar, essa doença auto-imune que eu tenho vai gerar uma crise pós-hiperbólica nos dendritos cerebrais. A pleura parietal vai vazar e eu vou ter uma ataque aqui. Bem na sua frente. Eu posso morrer e vai ser culpa SUA. – Eu falei apontando o dedo na cara dela.
Ela tomou o maior susto, coitada. Ficou desesperada. Eu cheguei a ficar até com pena quando vi o pânico tomar conta da menina. Afinal, uma história com tantos termos médicos e de nome supostamente alemão, só podia ser séria mesmo.
Ela falou:
- Acalme-se senhor. Eu vou tentar ajudar o senhor. Vou trocar a passagem de um passageiro e te encaixo no próximo vôo daqui a dez minutos.
- Ah, graças a Deus, moça. Você salvou a minha vida! – Eu falei. Os olhos cinematográficamente revirando para trás. A cabeça pendendo para o lado. Paguei mil e tantos reais de passagem no cartão de crédito.
Ela tirou o boletinho em forma de cupom fiscal de padaria, que é o bilhete de embarque da Gol. Eu olhei para aquilo e pensei: Mil e tanto para uma merda de bilhete desses? Coisas da Gol. Eu corri todo torto, igual ao homem-barata de MIB para o salão de embarque e em pouco tempo depois, eu estava dentro do avião comendo amendoim voltando para Brasília.
Cheguei em Brasília de manhã cedo. Com o meu bilhete Manaus-Brasília-Rio da TAM eu consegui pegar o pedaço Brasília-Rio e voltei comendo um sanduíche.
Cheguei no Rio e corri para pegar a primeira van que estava passando no aeroporto. A van estava lotada e só tinha mais um lugar.
Quando eu vou sentar, olho e quem está ali do meu lado?
Meu pai.
Na maior coincidência ele estava na mesma van que eu. Eu abracei meu pai e todo mundo ficou meio bolado achando que eu era doido. Voltamos juntos para casa. Era o final de uma aventura e tanto. Uma aventura com quase tudo pago.
FIM
Calma que ainda não acabou. Eu tentei reaver o meu dinheiro gasto na GOL com a Tam, pegando o valor do trecho Manaus – Brasília de volta em dinheiro. A Tam pegou a grana e despositou na conta.
Na conta da universidade. Nunca mais recuperei aquele dinheiro.
Posteriormente concluí que o cara fechou o portão de embarque na minha cara porque alguém (político ou famoso Global que estava num dos eventos da cidade) deve ter apelado para entrar naquele vôo e eles venderam o meu lugar antes do encerramento do período de check in. Brasil é Brasil.
Esta história também está participando da promoção do blog Goitacá ai o link :http://www.goitaca.com/viagem/um-livro-para-os-piores-erros-de-viagem/
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