Quando eu trabalhava na Ignis, eu recebi um convite para ir a Manaus com tudo pago participar de um evento universitário e dar uma palestra sobre o meu processo de trabalho como diretor de arte do jogo Erinia, o primeiro Massive multiplayer RPG 100% nacional.
Eu fiquei todo satisfeito de por ir pela primeira vez na vida para algum lugar com “tudo pago”. Sempre tive uma ambição secreta por coisas que fossem “tudo pago” como acontecia volta e meia em comerciais de Tv e promoções onde a gente não tem a mínima chance de vencer.
O vôo seria pela TAM. Eu deveria ir pra Manaus numa sexta-feira, passar uma noite lá num hotel e voltar no dia seguinte.
E lá fui eu. Arrumei a mala, despedi da primeira dama e mandei ver na direção do aeroporto internacional.
O vôo transcorreu perfeitamente. Cheguei em Manaus às duas da tarde e fui recebido com plaquinha no aeroporto e carro com motorista.
Dali a moça da universidade que tava bancando tudo me levou para conhecer o campus e o local da palestra. Ambos muito bonitos. Mas surpresa mesmo aconteceu no hotel. Eu cheguei lá e logo de cara o gerente veio falar comigo. Ele tinha más notícias. Estava havendo um evento político e um festival de cinema na cidade, o que fez com que alguém importante ocupasse o meu quarto. Eu levei um susto, afinal, era “tudo pago”, como eu iria fazer?
Mas o gerente, super solícito falou que não era pra eu me preocupar, que eles me “realocariam” sem nenhum custo e pediu desculpas pelo transtorno. Sempre que alguém vai te realocar, e que ainda pede desculpas antecipadamente, pode crer que você vai se foder. Isso era um fato inexorável para mim até aquele dia.
Fiz uma cara de bunda, mas sem outra opção, aceitei e segui o rapaz até o outro quarto.
Eu estava esperando um hotel mediano, talvez até ruim, mas quando dei de cara com o palácio nababesco que era o quarto quase tive uma síncope. Na falta de uma suíte tradicional, eles me colocaram no único quarto não ocupado do hotel, que (por motivos óbvios) deveria ser absurdamente caro.
Era um quarto presidencial do tamanho do meu apartamento. Uma Tv de plasma que era a maior que eu vi na minha vida na parede da sala de estar e outra igualzinha no quarto.
Uma banheira com hidromassagem gigante. Ê vidão!
Passei a tarde na banheira, a la Vinícus de Moraes, tomando uma coca-cola e vendo a Tv da sala, que erra tão grande que eu via perfeitamente de dentro da banheira.
Quando chegou a noite, a moça da universidade ligou pro quarto e falou que o motorista ia passar pra me levar pro evento em duas horas. Me arrumei e fui. O evento transcorreu sem problemas. Foi muito engraçado, com varias histórias doidas na palestra. O pessoal riu bastante e depois voltei para o hotel.
O pessoal do evento combinou comigo que eu seria levado para um passeio, onde veria o encontro das águas no dia seguinte. No dia seguinte, meu último dia em Manaus, acordei cedo e tomei aquele sensacional café da manhã de hotel 5 estrelas.
Depois fiquei esperando o pessoal que ia me levar para ver o tal encontro das águas.
Você foi?
Nem eles. Eu tomei um chá de cadeira das oito às onze, quando finalmente consegui telefonar para o pessoal do evento que disseram ter esquecido do passeio. Aí já era tarde. Eu tinha que fazer o check out no hotel e pegar um taxi usando um vaucher que eles me deram para o aeroporto. Meu vôo era 13:00.
Então eu olhei no relógio e vi que ainda estava muito cedo. Coloquei a televisão gigante no Discovery e comecei a ver Mith Busters. Mas como o sofá do hotel era absurdamente confortável, cochilei.
Quando eu acordei assutado, olhei a hora e era vinte pra meio dia. Saí igual doido. Peguei a mala e fiz check out.
-Tudo pago, senhor. Obrigado. – Ah, como é bom ouvir esta frase!
Chamei o taxi e tampamos em direção ao aeroporto. O problema é que o aeroporto de Manaus era tão longe do hotel que eu estava que parecia até que eu ia voltar pra Niterói de táxi. Pro cara correr eu falei pra ele que meu vôo era 12:00. Rapaz, nunca vi um taxista fazer tanta maluquice e dirigir tão rápido. Ele parecia o cara daquele filme “O entregador”.
Cheguei no aeroporto. Eram 12:20. O aeroporto estava uma zona do caramba. Lotado. Pessoas gritando nos guichês. A Vasp havia parado de voar e largou na mão centenas de passageiros ilhados em Manaus.
Aí me toquei que ainda tinha que comprar um presente para a primeira dama. Entrei numa daquelas milhares de lojas que vendem tudo do boi bumbá e arcos e chocalhos indígenas.
Fiquei um tempão até achar uma camiseta legal. Olhei a hora. Era 12:30.
Eu tinha que fazer o check in até 12:35.
Paguei a camisa e corri pro guichê. A moça do guichê falou que o check in não era no balcão mas sim no interior da sala de embarque, coisa que eu nunca vi na vida.
Corri para sala de embarque e quando eu estava quase chegando nela, um sujeito de bigodinho que parecia mais o Mazzaropi fechou a porta de vidro na minha cara.
Eu olhei pra ele e achei que era algum tipo de piada. Ele ficou me olhando com um sorrisinho filho da puta atrás daquele vidro. Eu comecei a argumentar do outro lado do vidro.
- Ei, deixa eu entrar!
- Já encerrou.
- Hã?
- Encerrou, senhor.
- Encerrou o quê?
- O período para o check in. – Disse ele me mostrando um relógio barato de camelô estilo G-Shock dos anos 80.
- Mas olha aqui. São 12:30! O Check In está escrito aqui, ó! É até 12:30.
- Então, senhor. ATÉ 12:30. São 12:30, olha só. – Novamente com o sorriso cretino me mostrando o relógio. Atrás dele, eu vejo a fila enorme de pessoas do meu vôo.
- Moço. Por favor, olha aqui a passagem. Que que te custa abrir esta merda dessa porta de vidro. A um metro atrás do senhor está uma fila enorme de pessoas do meu vôo.
- Lamento senhor. Não posso fazer isso. Vá até o guichê e peça uma autorização por escrito da coordenadora da Infraero que eu abro.
Eu xinguei todos os palavrões possíveis e imagináveis.
Corri no balcão. Ali estava uma mocinha daquelas mal comidas,. que trabalham num ritmo que parecem ser sonâmbulas dormindo. Eu quis pedir logo pra ela resolver meu problema, mas ela nem me deu ouvidos. Estava resolvendo o problema de troca de passagem de um casal que viajaria dali a quinze dias em lua de mel. Eu tentei argumentar que pro meu caso, cada segundo contava, mas ela se limitou a dizer:
- O sistema é de fila única, senhor.
Quando finalmente chegou a minha vez, eu estava grudado no relógio. A cada segundo, minha chance de voltar para casa se esvaía.
A moça ligou para o dept. responsável, mas primeiro a ligação não atendia.
Eu olhei no relógio. Faltavam agora dois minutos.
Quando o telefone finalmente atendeu, eu contei minha história para a moça do outro lado. Devia ser uma matrona gorda, tipo governanta suíça, que simplesmente falou pra mim com a educação mais perfeita que eu já vi:
-Problema seu. Chegasse antes. – E bateu o telefone na minha cara.
Eu estava owned. Mais uma porra de ownada na minha vida.
Corri para a porta de blindex que me separava do meu vôo. Através dela, atrás do filho da puta de bigodinho e sorriso cretino, eu vi as últimas pessoas embarcando. Dali a um tempo vi o avião decolar.
Eu estava sozinho, com medo e com frio em Manaus. E o que é pior, sem UM PUTO. Afinal era “tudo pago”.
Arrastei minha carcaça de looser até o guichê e perguntei quando sairia o próximo vôo.
para meu absoluto desespero, estavam todos os vôos lotados e o único vôo que tinha lugar seria numa quarta-feira. ( detalhe: era sábado ainda)
Eu tinha uma remota chance de alguém não ir ou chegar a tempo ao próximo vôo, que seria as três da tarde.
Liguei pra primeira dama para dar as más notícias. Ela se desesperou.
Eu resolvi ficar esperando o próximo vôo da TAM.
Nesse interim, corri até os outros guichês e constatei que devido ao crash financeiro da Vasp, todos os vôos das demais companhias lotaram. Uma vez que de Manaus pro sul não tem muito jeito (estrada é loucura, barco também) o aeroporto era o único meio viável de transporte. E com vários eventos na cidade, como o de cinema, o político e os universitários, não tinha lugar mesmo. E graças a incompetência das companhias, não havia absolutamente nenhum vôo extra.
Quando deu três horas eu fiquei apreensivo. As pessoas começaram a entrar no vôo. Um a um foram entrando. E fechou. O rapaz do guichê falou que o vôo lotou. O próximo seria as dez da noite.
Eu olhei para os lados. O aeroporto, minhas malas e nada mais. Me senti o Tom Hanks em “O Terminal”.
Comecei a passear pelo aeroporto. Quando passou umas duas horas de espera ali, eu já conhecia tudo. Já havia visto tudo das lojas e havia folheado tantas revistas na banca de jornal que o velhinho tava querendo me dar uma porrada.
Eu dei uma olhada em quanto eu tinha no sacrossanto compartimento da carteira onde fica o dindim para emergência. Dez reais.
Com dez reais o taxi não sairia nem pelo portão do aeroporto. Quanto mais viajar até o centro.
Liguei pra Nivea, a primeira dama.
Ela estava falando com a minha comadre, a Elaine. E o marido dela, o meu compadre Americo foi muito solícito em tentar me tirar daquela roubada. Ele tem amigos na polícia em todos os estados e conseguiu contactar uma pessoa em Manaus que mandou a filha e esposa dele irem de carro me buscar.
Elas chegaram e foram super legais. Me pegaram lá no aeroporto e me levaram naquele calor de 40 graus para um banco HSBC, onde eu consegui pegar mais um dinheirinho.
Começamos a procurar um hotel que desse pra eu tomar um banho e esperar até de noite. Não havia nada. Todos os hotéis estavam cheios. Até que chegamos em um com decoração bem estranha… Digamos, regional.
O quarto era cem pratas. Despedi-me com tristeza das duas notinhas amarelinhas e combinei com a moça que eu iria sair de noite pra tentar embarcar. Se eu não conseguisse, iria voltar pro hotel ainda naquela diária. A moça topou. Fiquei no quarto do hotelzinho no centro e resolvi dar um passeio. Zanzei pelo centro de Manaus e vi como tem camelô vendendo controle remoto naquele lugar. É o paraíso dos controles remotos.
Passeando, eu constatei uma coisa curiosa lá em Manaus que é o fato de ser uma cidade oito ou oitenta. Ou tem mulher linda, quase modelo, ou “chuta que é macumba”, como explicou mais tarde o motorista do taxi.
Fui até uma pracinha onde comi um podrão. ( cachorro quente com “tudo que você tem direito”)
Era meu jantar.
Este foi um dos piores erros da viagem.
Enquanto eu passeava comecei a sentir uns calafrios. Eu estava suando… Uma certa pressão surgiu em meu abdômen. Corri para o hotel antes de acontecer o pior dentro da minha cueca.
Aquele podrão me deu uma diarréia tão filha da puta que pensei que evacuaria meus próprios intestinos.
O banheirinho do quarto era uma merda minúscula, praticamente em cima da cama, com um vaso sanitário que estava em falso, “balangando” de um lado para o outro. E eu ali, cagando aquela água. Nem uma dose cavalar de purgante faria efeito tão rápido como o “podrão com tudo que tem direito” em Manaus.
Meu cú fazia ânsia de vômito, querendo cagar mais e nem tinha mais nada pra sair. O cheiro nauseabundo invadiu o quarto e por mais descarga que eu dava, ( o reservatório embutido não dava pressão na água suficiente) a merda só rodopiava e não descia.
Eu recomecei a suar frio. Blasfemei contra tudo e contra todos de pagar cem merréis para passar a noite sentado num sanitário desnivelado com assento bege de plástico da marca Tigre.
Quando deu a hora, eu sai e peguei um outro taxi. Tratei a corrida. O cara queria 120 pratas pra me levar no aeroporto. Mas eu negociei pesado com ele e ele acabou se solidarizando quando eu contei minha aventura até ali (omitindo o pequeno detalhe da diarréia) e ele fez a corrida por 70 pratas.
No meio do caminho, veio a gastura e a pressão na barriga. Comecei a suar frio novamente. Pedi ao motorista pra parar num bar. Era um pé sujo de quinta categoria. Mas fui lá, dei uma bela olhada na privada. Era um sanitário sem assento, todo mijado.
Sabe como é. Fechei os olhos, me equilibrei parcialmente como deu em cima do vaso e mandei o jato.
Me limpei com um jornal estratégicamente carregado para estes momentos de sofrimento.
Corri para o taxi. Abri bem os vidros para disfarçar meu “odor peculiar”, afinal, jornal borroca tudo.
Mas acho que o taxista percebeu, porque ele passou a correr muito mais.
Cheguei no aeroporto antes das dez da noite. O vôo saiu lotado novamente.
Eu estava ficando cada vez mais puto. Mas até que o fato do vôo ter lotado me permitiu ir até o banheiro e discretamente, com a ajuda de um copinho plástico roubado da lanchonete, dar uma lavada estratégica nas partes baixas… Troquei de roupa no banheiro e me senti bem melhor limpo.
O próximo vôo seria duas e porrada da madrugada. Resolvi não pagar uma nota pra voltar ao hotelzinho. Não iria valer a pena. Além do que eu percebi que se fizesse pressão psicológica suficiente, eu teria mais chances.
Comprei uma revistinha de palavras cruzadas e esperei. Eu percebi como o tempo tem uma capacidade única de passar mais rápido quando estamos nos divertindo.
E eu não estava, por isso, o tempo se arrastou indefinidamente. O saguão vazio e eu lá, escrevendo palavras cruzadas.
Quando deu a hora do vôo, o movimento recomeçou.
O rapaz da madrugada já estava solidário a mim. Eu contei toda minha aventura pra ele. Ele começou a torcer por mim.
Um a um, os passageiros se apresentaram. E então só havia um lugar vazio. Foi dando a hora, nada…
O passageiro não chegava. Eu comecei a recuperar as esperanças. Fiquei super feliz quando o carinha do guichê falou:
- È meu amigo. Agora você vai! Vou vender.
- Ele pegou o computador e começou a digitar. Aí eu só ouvi alguém gritar:
-Esperaaaaaa. Olhei para trás, o que eu vi aconteceu em câmera lenta. Era um gordão enorme com uma camisa amarela de doer o olho. Walkman no ouvido, mochila minúscula nas costas correndo feito um sapão com o bilhete na mão. Parecia o Hurley.
O cara do guichê olhou pra mim e disse:
-O último passageiro entrou. Sinto muito senhor. O vôo lotou.
Ah, aquilo me deu ódio. Muito ódio. Eu queria matar um filho da puta qualquer.
Voltei para a poltrona. O próximo vôo da TAM (lotado) seria só no domingo.
Eu fiquei parado na poltroninha do saguão pensando com como sair daquela situação escrota. O tempo estava contra mim. O podrão havia me dado uma trégua de algumas horas e até meu organismo produzir mais um quilo de cocô, eu tinha que arrumar um jeito de sair daquele lugar no meio da selva.
Fiquei olhando para o guichê da Gol.
Muitas pessoas se acotovelavam em busca de um lugar no vôo das quatro e paulada da manhã.
Eu comecei a observar atentamente e percebi pela maneira de andar e se mexer, que uma mocinha novinha era funcionária recente na Gol. Meio inexperiente. Toda enrolada pra vender as passagens.
Foi aí que comecei a bolar o plano que me tiraria daquele lugar quente.
Corri no banheiro e joguei uma água no rosto, mas não enxuguei. Era para dar o toque de suor. PAssei o dedo besuntado daquela merda de passar na mão que tem nas pias de aeroporto sob os olhos. Eles ficaram vermelhos no ato. Parecia que eu ia chorar. Saí do banheiro já cambaleando.
Eu troquei de lugar. Peguei uma cadeira bem de frente para o guichê da Gol.
Abri a camisa um pouco, baguncei o cabelo e comecei a fazer a cara de quem vai morrer. Esta cara até que era fácil de fazer, considerando que eu havia passado a tarde inteira evacuando tudo que havia dentro de mim. Eu estava digamos, meio cadavérico mesmo.
Os olhos fundos. A face sem cor.
Vi que a mocinha me olhou por alguns segundos. Comecei a tossir uma tosse tubercoleprosa. Mais uma vez, apelei para minha interpretação cinematográfica de doente.
E lá estava eu, esquecido num aeroporto distante, fingindo de doente para ludibriar uma moça do guichê da Gol. Era literalmente “O terminal”.
Ela começou a me olhar com uma expessão de preocupação. Quando deu um momento mais vazio, percebi que ela estava sozinha no balcão. Então me levantei com a dificuldade da velha da “Praça é nossa” e movimentei minha carcaça na direção dela. Eu fiz aquele andar de zumbi de filme do George Romero misturado com o andar após o coma da moça de Kill Bill.
Cheguei semi-desfalecido no guichê. A mocinha mal podia conter seu receio.
Eu falei pra ela ( o contável a uma moça) o primeiro trecho da minha história.
- Está se sentindo bem, senhor? – Perguntou a coitada, toda preocupada.
- Moça eu sofro de síndrome de wisterchausen. Já ouviu falar?
- Não… É grave?
- Muito. Se eu não tomar 752 Triodoxina nas próximas seis horas, eu posso morrer.
- Meu Deus!
- E o pior é que o medicanente não tem em Manaus. Fui no hospital e eles me mandaram ir pra Brasília. Só lá que tem. Só que os vôos estão todos lotados, não estão?
-Estão todos lotados senhor. – Ela confirmou.
- E você não tem jeito de me encaixar?
- Ih, senhor. É que com a falta dos vôos da Vasp… – Começou a arrumar desculpa. Aí eu tive que apelar.
- Pois é. Então eu vou morrer. Porque se eu não tomar, essa doença auto-imune que eu tenho vai gerar uma crise pós-hiperbólica nos dendritos cerebrais. A pleura parietal vai vazar e eu vou ter uma ataque aqui. Bem na sua frente. Eu posso morrer e vai ser culpa SUA. – Eu falei apontando o dedo na cara dela.
Ela tomou o maior susto, coitada. Ficou desesperada. Eu cheguei a ficar até com pena quando vi o pânico tomar conta da menina. Afinal, uma história com tantos termos médicos e de nome supostamente alemão, só podia ser séria mesmo.
Ela falou:
- Acalme-se senhor. Eu vou tentar ajudar o senhor. Vou trocar a passagem de um passageiro e te encaixo no próximo vôo daqui a dez minutos.
- Ah, graças a Deus, moça. Você salvou a minha vida! – Eu falei. Os olhos cinematográficamente revirando para trás. A cabeça pendendo para o lado. Paguei mil e tantos reais de passagem no cartão de crédito.
Ela tirou o boletinho em forma de cupom fiscal de padaria, que é o bilhete de embarque da Gol. Eu olhei para aquilo e pensei: Mil e tanto para uma merda de bilhete desses? Coisas da Gol. Eu corri todo torto, igual ao homem-barata de MIB para o salão de embarque e em pouco tempo depois, eu estava dentro do avião comendo amendoim voltando para Brasília.
Cheguei em Brasília de manhã cedo. Com o meu bilhete Manaus-Brasília-Rio da TAM eu consegui pegar o pedaço Brasília-Rio e voltei comendo um sanduíche.
Cheguei no Rio e corri para pegar a primeira van que estava passando no aeroporto. A van estava lotada e só tinha mais um lugar.
Quando eu vou sentar, olho e quem está ali do meu lado?
Meu pai.
Na maior coincidência ele estava na mesma van que eu. Eu abracei meu pai e todo mundo ficou meio bolado achando que eu era doido. Voltamos juntos para casa. Era o final de uma aventura e tanto. Uma aventura com quase tudo pago.
FIM
Calma que ainda não acabou. Eu tentei reaver o meu dinheiro gasto na GOL com a Tam, pegando o valor do trecho Manaus – Brasília de volta em dinheiro. A Tam pegou a grana e despositou na conta.
Na conta da universidade. Nunca mais recuperei aquele dinheiro.
Posteriormente concluí que o cara fechou o portão de embarque na minha cara porque alguém (político ou famoso Global que estava num dos eventos da cidade) deve ter apelado para entrar naquele vôo e eles venderam o meu lugar antes do encerramento do período de check in. Brasil é Brasil.
Esta história também está participando da promoção do blog Goitacá ai o link :http://www.goitaca.com/viagem/um-livro-para-os-piores-erros-de-viagem/
sexta-feira, 22 de julho de 2011
LOST – Minha lua de mel
Eu casei no dia do meu aniversário de 23 anos. No dia 23 de janeiro.
É raro um sujeito casar com 23 anos sem a mocinha estar grávida e ele sendo ameaçado pela família dela.
Mas aconteceu comigo e com a primeira dama. Nós casamos por amor. E deu certo. Estamos juntos há 8 anos.
Meu casamento foi de dia. Ao meio dia, para ser exato. Lá em Três Rios, que só não é mais quente que Itaperuna. E foi em pleno verão. Um calor do caramba.
Depois da festa de casamento, voltamos para o Rio e fomos direto para o aeroporto. Meus pais iam viajar pra Recife e me pediram pra levar o carro pra casa. Engraçado isso. Eu que caso e meus pais é que viajam.
Dia do casamento é muito cansativo, né? Quando eu pergunto para as pessoas se elas adivinham o que eu fiz logo depois que acabou a festa de casamento, elas sempre me olham com um sorriso sacana.
Eu fiz mudança.
Sim, isso mesmo. Eu e a primeira dama viemos para Niterói para pegar – de carro – um monte de tralha que ainda estava no apartamento dos meus pais e no da mãe dela para levarmos lá pra nossa casa. Eram dezenas de caixas com livros, espadas, caveiras e monstros. Uma bagulhada do caramba.
Era tanto bagulho que na hora de descarregar o carro eu acabei esquecendo uma caixa de coisas na garagem.
No dia seguinte, ao sair na portaria o porteiro, seu Sebastião, me chamou num canto. Todo ressabiado.
- Oi, o senhor é que é o novo morador lá de cima, né?
- É. Sou sim…
-O senhor fez mudança ontem, não foi?
- Eu trouxe umas coisas…
- Sabe o que é? Ontem quem estava na portaria era o seu Messias. Ele é crente duma igreja dessas aí do “tá amarrado”, sabe como é?
-Sei sim. – Eu já fazendo cara e “e daí?”
- Então, ele veio me dizer que mudou um pai de santo aqui pro prédio. Ele pensou até em pedir demissão.
- Pai de santo? Eu??
- É… Acontece que ele foi fazer a ronda da meia noite na garagem e achou esta caixa aqui, ó. – Disse apontando a caixa que eu descobri naquela hora que não estava no meu escritório. E continuou:
- Aí ele abriu pra ver o que tinha dentro, pra ver se descobria de quem era e quase morreu do coração. Dentro da caixa tinha uma caveira rindo pra ele com aquela boca cheia de dentes e umas espadas. Ele chegou à conclusão que o senhor é pai de santo e que baixa o Exu Caveira!
-…
- E ele tá se benzendo todo desde então. Tá com um medo que se pela todo de encontrar o senhor.
Eu tive que explicar tintim por tintim ao seu Sebastião e depois repetir tudo novamente ao seu Messias que eu trabalhava com efeitos especiais. Que a caveira era de espuma e as espadas eram cenográficas. Custou para o seu messias a falar comigo normalmente. Ele ficava sempre com um certo medo…
Mas o lance é que no dia do casamento mesmo, na hora do “enfim sós”, estávamos tão cansados que não rolou absolutamente nada. Morgamos feito jumento na sobra da igreja.
No dia seguinte, fomos definir para onde iríamos com a pouca graninha que deu pra juntar pra lua de mel.
A primeira dúvida era entre montanha ou praia.
Resolvemos que iríamos para um lugar de praia. Escolhemos viajar para Itacuruçá, no litoral do Rio de Janeiro, perto de Angra dos Reis.
Eu nessa época nem dirigia direito para pegar estrada assim, e a tia da Nivea deu carona pra nós até a cidade.
Ficamos num belo hotel, comemos em bons restaurantes e no dia seguinte iríamos fazer o clássico “passeio de escuna” nas ilhas da costa verde.
Eu desci logo de manhã para “tratar o passeio”. Entenda “tratar” como morrer na maior grana. Quando eu vi o preço que era o passeio, quase morri. Era caríssimo.
Verão é alta temporada e tava tudo lotado de gringo, pagando os tubos para passear numa escuna. Eu tinha pouco dinheiro e triste, percebi que não daria pra pagar simutâneamente o hotel e o passeio de escuna para os turistas.
Fiquei deprê. Não sabia como ia contar pra primeira dama este fato.
Voltei cabisbaixo para o hotel. No caminho, passando pelo cais, eu vi que tinha uma traineira pequena, dessas de pescador, onde sentado na murada, havia um gordão que tomava uma garrafa de pinga no gargalo.
Perguntar não ofende, e então eu cheguei pra ele e perguntei se ele não poderia me levar para dar um passeio nas ilhas em troca de um dindim.
Ele prontamente topou. Combinamos o preço. Tratamos em vinte reais. (Se não me falha a memória)
Voltei todo feliz para o hotel e busquei a primeira dama. Expliquei pra ela que esse lance de escuna com turistas não tem graça nenhuma. É uma cabeçada enorme. Que como estávamos em lua de mel, o melhor era uma coisa mais intimista, só nós dois e tal. E que pra isso eu havia acertado tudo com um pescador que nos levaria para um inesquecível passeio pelas ilhas.
A Nivea caiu nesse meu conto do vigário. Pegou umas garrafinhas de água, viseira, óculos escuros, canga e um pacote de biscoito. Essas merdas quase ritualísticas que toda mulher tem que pegar para ir a qualquer praia.
Quando nós chegamos no barco, o sujeito estava emborcado. Dormindo no chão da traineira. Eu acordei ele e a Nivea fez uma cara de: “Xíííí…”
O cara levantou e ligou o motor. Saímos em meio ao mar. Era o início de nossa aventura de lua de mel.
O cara me perguntou se era lua de mel. Acenei com a cabeça que sim. Ele fez aquele sorriso de “hoje vai ter sacanagem!”
Andamos de barco por um tempão que parecia não acabar nunca. Avistamos a ilha no horizonte. Era uma ilhazinha pequena.
O cara falou que poderia nos deixar naquela ilha, que era normal os barcos deixarem os turistas lá. E que poderia marcar uma hora para nos buscar. Eu olhei pra Nivea. Ela estava meio bolada, mas vendo que a ilha estava com várias pessoas, vários barcos e lanchas parados em volta, topamos.
Eu marquei com o cara que nos buscasse às cinco horas da tarde. Ele chegou o mais perto que deu da costa e nós pulamos na água e nadamos até a praia.
Ficamos na ilha por um tempo e vimos que lentamente, as pessoas iam para os barcos e partiam. Foram saindo em grupos e quando nos demos conta, não tinha mais ninguém na praia com a gente.
Ótimo, afinal era o que eu queria. Quem nunca teve aquela clássica fantasia sexual estilo “Lagoa azul”?
Ficamos numa boa ali na praia por um bom tempo, até que a fome começou a apertar.
- Amor, vamos pro restaurante?
- Vamos.
Começamos a andar pela ilha em busca do “restaurante”. Afinal, era uma ilha de turistas. E toda ilha de turistas que se preze tem que ter um bom restaurante, né?
Não tinha.
Demos a volta na ilha procurando a porra do restaurante e nada.
LOST.
Não havia nada mesmo! Nem uma porra duma alma viva naquela ilha além de nós dois. Nem restaurante nem casa. Nem nada. Nem ninguém.
O sol de verão começou a apertar, junto com a fome. E eu comecei a ter um certo sexto sentido de que havia inequivocamente, me ferrado mais uma vez.
Olhei a hora. Uma e meia da tarde.
O sol a pino. Começou a queimar tanto que procuramos algum lugar para nos abrigar do sol escaldante. Acredite, não tinha nem uma porra duma sombrazinha. A única sombra que achamos era a de um coqueiro. Mas sempre que ficávamos ali saíam do meio do mato uns formigões pretos e começavam a nos morder.
O perrengue começou a aumentar quando o pacote de biscoito, nossa única comida, acabou.
A fome era negra (sabe como é… lua de mel) e devido ao exercício de nadar bastante, eu estava faminto. A água acabou rapidinho também.
Pensamos em entrar no mato para nos abrigar do sol.
Para nossa infelicidade não estávamos num seriado milionário gravado no Havaí. Era no Brasil e a ilha tropical era um Matão impenetrável.
Eu acho graça quando vejo em “Lost” neguinho correndo despinguelado na selva. Umas arvores aqui, um matinho acolá… Grama…
No mundo real, meu, é um matão intransponível. Sem ter uma pexeira para abrir picada, você simplesmente não entra.
A hora ia passando e eu comecei a me lembrar de detalhes peculiares, como o cara mamando uma 51 no gargalo. Ele dormindo no chão do barco…
Eu não quis falar nada pra Nivea sobre a garrafa de 51, porque ela ia entrar em pânico mais do que já estava. Cheguei a conclusão óbvia que eu não deveria ter pagado o pescador adiantado. Naquela altura ele devia ter tomado mais umas duas garrafas de pinga e morreu.
Eu estava totalmente desesperado de fome, e resolvi procurar alguma coisa pra comer.
Entrei no meio das pedras e vi que haviam várias ostras grudadas nelas. Com uma pedra, quebrei as conchas e comecei a comer aquelas ostras. Parece um catarrinho. Mas nem é muito ruim. O problema é que tava quente e assim é bem pior que com gelinho e limão. A Nivea morreu de nojo.
Só parei de comer ostra quando me toquei que aquilo iria me dar uma diarréia tão absurda que poderia me virar do avesso.
Foi passando a hora, passando a hora. O sol começou a diminuir a sua força.
Deu cinco horas e nada. O sujeito não aparecia. Eu comecei a pensar que ele estava emborcado com três garrafas de 51 e quem sabe com uma puta gorda e feia.
Caí na real que vendo ser uma “lua de mel” o sujeito resolveu por sua própria conta nos colocar numa ilha deserta.
A costa verde tem 365 ilhas. Dá uma ilha para cada dia do ano. Isso significa que se ele resolveu nos levar para uma ilha deserta, as chances de sermos resgatados é mínima. Sobretudo por se tratar de um bebum, que vai beber e esquecer a gente na ilha. Some-se a isso o fato de que eu paguei adiantado. Me senti muito burro. Eu só pensava no meu canivetinho suísso do “Mc Guyver” que eu larguei em casa…
Eu comecei a pensar como que iríamos fazer para passar a noite numa ilha deserta. Sem fogo, lanterna, nem faca nem água, e o que é pior, roupas direito. Eu tava de sunga.
A maré poderia subir. As plantas eram cheias de espinhos e galhos pontiagudos. A mata era impenetrável. As rochas afiadas como facas. E a ilha devia ter animais…
Me lembrei daquele documentário do Discovery Channel : “ As temíveis víboras das ilhas”
Engraçado como no momento de desespero você lembra de coisas assim…
Eu tentava disfarçar, parecer o galã num filme de Sessão da Tarde, mas o fato é que eu era uma coisinha magra, um pela-saco de sunga esquecido numa ilha deserta. O Robson Crusoé de Niterói e sua esposa.
Quando avistei o barquinho daquele bebum filho da puta no horizonte, ele estava atrasado duas horas. Nossa, me senti tão aliviado que quase chorei. Foi um dos momentos mais felizes da minha lua de mel.
É raro um sujeito casar com 23 anos sem a mocinha estar grávida e ele sendo ameaçado pela família dela.
Mas aconteceu comigo e com a primeira dama. Nós casamos por amor. E deu certo. Estamos juntos há 8 anos.
Meu casamento foi de dia. Ao meio dia, para ser exato. Lá em Três Rios, que só não é mais quente que Itaperuna. E foi em pleno verão. Um calor do caramba.
Depois da festa de casamento, voltamos para o Rio e fomos direto para o aeroporto. Meus pais iam viajar pra Recife e me pediram pra levar o carro pra casa. Engraçado isso. Eu que caso e meus pais é que viajam.
Dia do casamento é muito cansativo, né? Quando eu pergunto para as pessoas se elas adivinham o que eu fiz logo depois que acabou a festa de casamento, elas sempre me olham com um sorriso sacana.
Eu fiz mudança.
Sim, isso mesmo. Eu e a primeira dama viemos para Niterói para pegar – de carro – um monte de tralha que ainda estava no apartamento dos meus pais e no da mãe dela para levarmos lá pra nossa casa. Eram dezenas de caixas com livros, espadas, caveiras e monstros. Uma bagulhada do caramba.
Era tanto bagulho que na hora de descarregar o carro eu acabei esquecendo uma caixa de coisas na garagem.
No dia seguinte, ao sair na portaria o porteiro, seu Sebastião, me chamou num canto. Todo ressabiado.
- Oi, o senhor é que é o novo morador lá de cima, né?
- É. Sou sim…
-O senhor fez mudança ontem, não foi?
- Eu trouxe umas coisas…
- Sabe o que é? Ontem quem estava na portaria era o seu Messias. Ele é crente duma igreja dessas aí do “tá amarrado”, sabe como é?
-Sei sim. – Eu já fazendo cara e “e daí?”
- Então, ele veio me dizer que mudou um pai de santo aqui pro prédio. Ele pensou até em pedir demissão.
- Pai de santo? Eu??
- É… Acontece que ele foi fazer a ronda da meia noite na garagem e achou esta caixa aqui, ó. – Disse apontando a caixa que eu descobri naquela hora que não estava no meu escritório. E continuou:
- Aí ele abriu pra ver o que tinha dentro, pra ver se descobria de quem era e quase morreu do coração. Dentro da caixa tinha uma caveira rindo pra ele com aquela boca cheia de dentes e umas espadas. Ele chegou à conclusão que o senhor é pai de santo e que baixa o Exu Caveira!
-…
- E ele tá se benzendo todo desde então. Tá com um medo que se pela todo de encontrar o senhor.
Eu tive que explicar tintim por tintim ao seu Sebastião e depois repetir tudo novamente ao seu Messias que eu trabalhava com efeitos especiais. Que a caveira era de espuma e as espadas eram cenográficas. Custou para o seu messias a falar comigo normalmente. Ele ficava sempre com um certo medo…
Mas o lance é que no dia do casamento mesmo, na hora do “enfim sós”, estávamos tão cansados que não rolou absolutamente nada. Morgamos feito jumento na sobra da igreja.
No dia seguinte, fomos definir para onde iríamos com a pouca graninha que deu pra juntar pra lua de mel.
A primeira dúvida era entre montanha ou praia.
Resolvemos que iríamos para um lugar de praia. Escolhemos viajar para Itacuruçá, no litoral do Rio de Janeiro, perto de Angra dos Reis.
Eu nessa época nem dirigia direito para pegar estrada assim, e a tia da Nivea deu carona pra nós até a cidade.
Ficamos num belo hotel, comemos em bons restaurantes e no dia seguinte iríamos fazer o clássico “passeio de escuna” nas ilhas da costa verde.
Eu desci logo de manhã para “tratar o passeio”. Entenda “tratar” como morrer na maior grana. Quando eu vi o preço que era o passeio, quase morri. Era caríssimo.
Verão é alta temporada e tava tudo lotado de gringo, pagando os tubos para passear numa escuna. Eu tinha pouco dinheiro e triste, percebi que não daria pra pagar simutâneamente o hotel e o passeio de escuna para os turistas.
Fiquei deprê. Não sabia como ia contar pra primeira dama este fato.
Voltei cabisbaixo para o hotel. No caminho, passando pelo cais, eu vi que tinha uma traineira pequena, dessas de pescador, onde sentado na murada, havia um gordão que tomava uma garrafa de pinga no gargalo.
Perguntar não ofende, e então eu cheguei pra ele e perguntei se ele não poderia me levar para dar um passeio nas ilhas em troca de um dindim.
Ele prontamente topou. Combinamos o preço. Tratamos em vinte reais. (Se não me falha a memória)
Voltei todo feliz para o hotel e busquei a primeira dama. Expliquei pra ela que esse lance de escuna com turistas não tem graça nenhuma. É uma cabeçada enorme. Que como estávamos em lua de mel, o melhor era uma coisa mais intimista, só nós dois e tal. E que pra isso eu havia acertado tudo com um pescador que nos levaria para um inesquecível passeio pelas ilhas.
A Nivea caiu nesse meu conto do vigário. Pegou umas garrafinhas de água, viseira, óculos escuros, canga e um pacote de biscoito. Essas merdas quase ritualísticas que toda mulher tem que pegar para ir a qualquer praia.
Quando nós chegamos no barco, o sujeito estava emborcado. Dormindo no chão da traineira. Eu acordei ele e a Nivea fez uma cara de: “Xíííí…”
O cara levantou e ligou o motor. Saímos em meio ao mar. Era o início de nossa aventura de lua de mel.
O cara me perguntou se era lua de mel. Acenei com a cabeça que sim. Ele fez aquele sorriso de “hoje vai ter sacanagem!”
Andamos de barco por um tempão que parecia não acabar nunca. Avistamos a ilha no horizonte. Era uma ilhazinha pequena.
O cara falou que poderia nos deixar naquela ilha, que era normal os barcos deixarem os turistas lá. E que poderia marcar uma hora para nos buscar. Eu olhei pra Nivea. Ela estava meio bolada, mas vendo que a ilha estava com várias pessoas, vários barcos e lanchas parados em volta, topamos.
Eu marquei com o cara que nos buscasse às cinco horas da tarde. Ele chegou o mais perto que deu da costa e nós pulamos na água e nadamos até a praia.
Ficamos na ilha por um tempo e vimos que lentamente, as pessoas iam para os barcos e partiam. Foram saindo em grupos e quando nos demos conta, não tinha mais ninguém na praia com a gente.
Ótimo, afinal era o que eu queria. Quem nunca teve aquela clássica fantasia sexual estilo “Lagoa azul”?
Ficamos numa boa ali na praia por um bom tempo, até que a fome começou a apertar.
- Amor, vamos pro restaurante?
- Vamos.
Começamos a andar pela ilha em busca do “restaurante”. Afinal, era uma ilha de turistas. E toda ilha de turistas que se preze tem que ter um bom restaurante, né?
Não tinha.
Demos a volta na ilha procurando a porra do restaurante e nada.
LOST.
Não havia nada mesmo! Nem uma porra duma alma viva naquela ilha além de nós dois. Nem restaurante nem casa. Nem nada. Nem ninguém.
O sol de verão começou a apertar, junto com a fome. E eu comecei a ter um certo sexto sentido de que havia inequivocamente, me ferrado mais uma vez.
Olhei a hora. Uma e meia da tarde.
O sol a pino. Começou a queimar tanto que procuramos algum lugar para nos abrigar do sol escaldante. Acredite, não tinha nem uma porra duma sombrazinha. A única sombra que achamos era a de um coqueiro. Mas sempre que ficávamos ali saíam do meio do mato uns formigões pretos e começavam a nos morder.
O perrengue começou a aumentar quando o pacote de biscoito, nossa única comida, acabou.
A fome era negra (sabe como é… lua de mel) e devido ao exercício de nadar bastante, eu estava faminto. A água acabou rapidinho também.
Pensamos em entrar no mato para nos abrigar do sol.
Para nossa infelicidade não estávamos num seriado milionário gravado no Havaí. Era no Brasil e a ilha tropical era um Matão impenetrável.
Eu acho graça quando vejo em “Lost” neguinho correndo despinguelado na selva. Umas arvores aqui, um matinho acolá… Grama…
No mundo real, meu, é um matão intransponível. Sem ter uma pexeira para abrir picada, você simplesmente não entra.
A hora ia passando e eu comecei a me lembrar de detalhes peculiares, como o cara mamando uma 51 no gargalo. Ele dormindo no chão do barco…
Eu não quis falar nada pra Nivea sobre a garrafa de 51, porque ela ia entrar em pânico mais do que já estava. Cheguei a conclusão óbvia que eu não deveria ter pagado o pescador adiantado. Naquela altura ele devia ter tomado mais umas duas garrafas de pinga e morreu.
Eu estava totalmente desesperado de fome, e resolvi procurar alguma coisa pra comer.
Entrei no meio das pedras e vi que haviam várias ostras grudadas nelas. Com uma pedra, quebrei as conchas e comecei a comer aquelas ostras. Parece um catarrinho. Mas nem é muito ruim. O problema é que tava quente e assim é bem pior que com gelinho e limão. A Nivea morreu de nojo.
Só parei de comer ostra quando me toquei que aquilo iria me dar uma diarréia tão absurda que poderia me virar do avesso.
Foi passando a hora, passando a hora. O sol começou a diminuir a sua força.
Deu cinco horas e nada. O sujeito não aparecia. Eu comecei a pensar que ele estava emborcado com três garrafas de 51 e quem sabe com uma puta gorda e feia.
Caí na real que vendo ser uma “lua de mel” o sujeito resolveu por sua própria conta nos colocar numa ilha deserta.
A costa verde tem 365 ilhas. Dá uma ilha para cada dia do ano. Isso significa que se ele resolveu nos levar para uma ilha deserta, as chances de sermos resgatados é mínima. Sobretudo por se tratar de um bebum, que vai beber e esquecer a gente na ilha. Some-se a isso o fato de que eu paguei adiantado. Me senti muito burro. Eu só pensava no meu canivetinho suísso do “Mc Guyver” que eu larguei em casa…
Eu comecei a pensar como que iríamos fazer para passar a noite numa ilha deserta. Sem fogo, lanterna, nem faca nem água, e o que é pior, roupas direito. Eu tava de sunga.
A maré poderia subir. As plantas eram cheias de espinhos e galhos pontiagudos. A mata era impenetrável. As rochas afiadas como facas. E a ilha devia ter animais…
Me lembrei daquele documentário do Discovery Channel : “ As temíveis víboras das ilhas”
Engraçado como no momento de desespero você lembra de coisas assim…
Eu tentava disfarçar, parecer o galã num filme de Sessão da Tarde, mas o fato é que eu era uma coisinha magra, um pela-saco de sunga esquecido numa ilha deserta. O Robson Crusoé de Niterói e sua esposa.
Quando avistei o barquinho daquele bebum filho da puta no horizonte, ele estava atrasado duas horas. Nossa, me senti tão aliviado que quase chorei. Foi um dos momentos mais felizes da minha lua de mel.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Minha aventura no assalto (combo)
Eu voltava da escola e estava num ônibus.
Engraçado como num lotação, os lugares com janela são os primeiros a acabar. Eu entrei e ali estava um belo lugar na janela. Quando vi, sentou um sujeito mal-encarado do meu lado.
Imediatamente o meu “sentido aranha” começou a apitar alerta vermelho.
Eu estava acuado no canto da parede. O cara já sentado ao meu lado limitava meu acesso ao corredor.
Eu comecei a me sentir como um antílope africano meio bolado, vendo algo amarelo rastejando atrás de uma moita próxima. O problema dos antílopes é que els só correm quando tem certeza absoluta de que estão fodidos. É estranho dizer isso, mas nós, os humanos, os metidos da cadeia alimentar, aqueles que julgam terem sido feitos “a imagem e semelhança de Deus” tem EXATAMENTE o comportamento do mais besta e retardado antílope do Serengetti.
O sujeito não tirava aquele olhão comprido de cima do meu relógio e eu comecei a ficar bolado.
Algo dentro do meu ser me dizia:
- Você vai ser assaltado, seu burro. Fuja!
Eu relutei. Pensei: Será que não estou sendo preconceituoso? Será que o cara não é apenas um cidadão de bem que não teve condições de se vestir direito, fazer a barba direito? E essa cicatriz medonha no meio da cara dele? Será que não foi um acidente de trabalho? Um acidente quando ele era criança?
Será que estou com preconceito pelo fato do cara ter uma cara de ladrão?
O próprio sujeito estranho interrompeu meus pensamentos com a frase que parecia dizer tudo:
- Que horas são, playboy?
- Senti um calafrio. A voz dentro da minha cabeça berrava sem parar que eu iria ser assaltado. Antes de respondê-lo, numa fração de segundos meu cérebro começou a maquinar a razão daquela pergunta. Comecei a pensar… A aquela devia ser uma pergunta retórica do bandido.
Veja a que ponto chegamos. Bandidos requintados ao ponto de gerar perguntas retóricas para que suas vítimas dessem uma última olhada no bem antes de vê-lo trocar, assim deliberadamente, de mãos.
O hiato que se seguiu à pergunta do “Escadinha” já estava ficando incômodo. Eu tinha que dizer alguma coisa.
- São cinco e dez. – Eu disse apressado. E levantei de imediato, me antecipando ao provável bote. Fingi ver um parente na rua e gritei pela janela do ônibus:
- Marquinho! Me espera!
Eu sei lá quem diabos é o tal do “Marquinho”! Deve ser amigo do Harakiri.
Mas sei que eu levantei e saí atropelando o sujeito que não fez nenhum esforço em me deixar passar. Eu meio que pulei as pernas dele e ganhei o corredor.
Levantei e corri lá pra frente. Desci do ônibus com a sensação de alívio e prazer que só um antílope que escapa das garras dos guepardos se dá ao direito de sentir.
Continuei andando para casa. A descida prematura do busum me fez andar uma caminhada gigante a pé.
Eu fui tranqüilamente, me sentindo o ás da malandragem carioca.
E então comecei a pensar se o cara não era mesmo um trabalhador que só queria saber as horas. Que garantias eu tinha de que aquilo era um assalto?
Teria eu sido uma vítima de meu próprio preconceito racial-socio-cultural? O cara naturalmente sentiu que eu amarelei. Que eu fugi. E se ele não fosse um assaltante? Como deve ser uma merda sentir-se uma ameaça social. Comecei a sofrer por ter feito o pobre trabalhador sentir-se um bandido. Fiquei ali, andando e pensando, sobre os negros e a situação escrota do preconceito racial e social do Brasil.
Senti uma coisa espetando minhas costas. E pra meu espanto, a frase que ouvi no pé do ouvido me fez tremer de cagaço:
- Passa o relógio. – Disse a voz. Por um segundo eu vi um filme na minha cabeça. O cara ia mesmo me assaltar. Ele viu que eu tentei fugir e abortou o assalto. Resolveu recuperar o elemento surpresa e desceu um ponto depois. Distraído eu nem vi que ele resolveu me pegar pelas costas.
Quando olhei para trás, de rabo de olho, vi que não era o tal cara. Era um outro. Bem mais novo. Mais novo do que eu. Mas também com a maior pinta de marginal que você pode imaginar. E o pior, estava armado.
As pessoas na rua passavam e fingiam não ver o que acontecia ali, em plena luz do dia.
O cara estava com um canivete.
Eu não tinha outra saída senão apelar mais uma vez para o “Efeito Gump”.
Efeito Gump é o que acontece comigo numa situação de forte estress emocional. Nestas situações bizarras, eu fico calmo e não raro, personifico os mais estranhos personagens. E neste dia, o cara deu o azar da vida dele. *Eu personifiquei o evangélico mais evangelista que você já viu. Nem o Edir Macêdo, Bispo Soares, Silas Malafaia se comparavam ao CAÔ que eu mandei no cara.
Foi uma coisa mais ou menos assim:
-Cê quer o relógio?
-Passa. Passa o relógio ou eu te furo.
-Calma. Não precisa roubar o relógio, meu irmão. eu te DOU o relógio de presente. Você quer?
- Quero. Dá aí. Dá aí.
- Então, Irmão… Sabe porque eu tenho este relógio?
- Dá logo porra.
- (fingindo não me intimidar com o canivete todo enferrujado) Eu era um ladrão.
- Tu era ladrão?
- Era. Eu era ladrão e um dia precisei sacar o “berro” e atirei num cara. Mas ele não morreu. Ele apontou a arma pra mim e…
- E o que?
- Atirou, porra. – disse eu dando aquele tapinha de amigo no braço do meliante. Ele abaixou o canivete.
- Porra ele atirou? E acertou?
- Acertou, irmão. Bem aqui ó. – Disse eu levantando a blusa e apontando um lugar qualquer onde não se via porra nenhuma, afinal, nunca levei tiro na vida. E continuei: – Tá vendo a cicatriz?
-Tô, tô… – Então a bala entrou aqui e saiu nas costas.
- Caralho.
- Pois é, irmão. E o pior não é isso.
- Tu foi pro hospital?
- Fui, mas o pior aconteceu depois.
- Aconteceu o quê?
- Meu irmão, eu vi uma luz. Era uma luz branca. Que surgiu assim, ó. Pá! Na minha frente. E então eu vi uma coisa. Não vou dizer que era santo, nem que era espírito. Mas apareceu uma forma ali na luz e eu senti que estava liberto. Que não era a hora de morrer.
Quando eu abri o olho, eu já tava num hospital. Pensei que tivesse morrido.
A enfermeira falou que tinha morrido mas voltei.
- Puta merda!
- Quando eu voltei, estava livre meu irmão. Eu olhei meu rosto no espelho e vi que Deus em pessoa tinha me libertado. Ele mandou eu voltar. E só depois que eu descobri o porque.
- Por que? – Todo curioso o moleque.
- Porque eu tinha que libertar as pessoas.
- Libertar?
- É, irmão. Quanta gente você conhece que tá na merda? Roubando, cheirando, fumando, matando? Uma porrada, né? Então. Esses.
- Tu é crente?
- Não.
- Ué. Não?
- Não. Deus não precisa dessas coisas de igreja, de culto, de bandinha, nem terno e nem Bíblia. Deus precisa sabe do quê?
- Hã?
- Do seu compromisso. Da sua alma. Não é santo, não é banda, não é construção que vai te dar isso. Conseguir isso é a coisa mais difícil. Mas não é impossível.
Veja você por exemplo. Tu já ia me assaltar. Ia pegar o relógio, né? Eu sei cara. Eu entendo. Você acha que resolveu roubar meu relógio atôa? Logo eu? No meio de tanta gente? Olha o tamanho da cidade. Olha em volta.
Você acha que isso acontece assim, do nada?
Irmão, você foi mandando pra falar comigo. O relógio, quem me mandou usar foi Deus. O relógio é só uma isca. Você veio. Se veio, é porque Deus quer ver você liberto.
Cê quer se libertar?
-… Quero. Acho que sim.
- Irmão, presta atenção. Isso que eu vou te falar é importante. Deus te dá a chance. Ele não muda você. Ele pode fazer isso. Ele fez isso comigo. Mas ele não quer impor sua mudança. Ele quer que VOCÊ (apontando no peito dele, bem no coração) mude. Ele quer que VOCÊ saia da vida que você entrou, mas saia com as suas pernas. Esta é a chance. Pode ser que não haja outra.
-… – O moleque bolado.
- Joga fora essa merda. – Eu disse. Agora num tom mais autoritário, como que revestido do poder de Deus.
E para meu espanto, o moleque jogou a porra do canivete no canteiro.
- Agora fecha os olhos. Fecha os olhos e concentra. Você vai fazer uma conexão. Uma ligação com Deus.
Sei lá o que me deu para falar aquilo, mas eu peguei no braço do cara. Ele ali, de olho fechado eu orei com ele. E quando eu vi eu já tava falando no ouvido dele.
- Aceita Jesus.
- Eu aceito.
-Aceita Jesus, porra!
- Eu aceito.
- Agora! ( eu dei um grito) Aceitaaaaa! – O moleque caiu de joelhos. Ele chorava.
Para meu mais absoluto espanto, eu havia convertido o meu primeiro fiel.
Conversamos um pouco sobre música, sobre esportes e ele foi embora, todo agradecido. Ele morava no bairro do Coelho em São Gonçalo.
Antes dele ir, eu falei que ele deveria entrar para uma igreja. Eu não ia dizer qual. Todas as igrejas são de Deus. Mas que Deus apontaria a igreja certa pra ele.
E fui embora.
Com o meu relógio.
Menos um bandido no mundo. *
Ok, ok. Eu admito. Tudo que está entre os * eu inventei. Não consegui me conter e a aventura real virou um conto.
O fato real é que o cara era mesmo mais novo que eu e realmente estava com um canivete enferrujado apontado pra mim.
Eu comecei a falar com ele que aquilo ia “dar merda” pro lado dele e tal. Falei que ele não sabia de quem eu era filho. Que ele ia se dar mal. Meio que num tom de ameaça no estilo “quem avisa amigo é”.
E ele amarelou. Foi só isso. Ele deve ter pensado que eu era filho de polícia ou pior, de bandido e desistiu do assalto. Eu acabei conversando com ele e ele me contou que era de São Gonçalo, do bairro Coelho (um bairro barra-pesada, ao que parece). Paguei uma coca-cola pro cara e batemos papo por algum tempo. Aquele era o segundo assalto dele.
Ele não me roubou e eu fui pra casa.
Mas a parte inventada é bem mais legal, né?
Gostei deste post combo aventura-conto. Parece até piada do Costinha, que no meio da piada ele contava outra.
Engraçado como num lotação, os lugares com janela são os primeiros a acabar. Eu entrei e ali estava um belo lugar na janela. Quando vi, sentou um sujeito mal-encarado do meu lado.
Imediatamente o meu “sentido aranha” começou a apitar alerta vermelho.
Eu estava acuado no canto da parede. O cara já sentado ao meu lado limitava meu acesso ao corredor.
Eu comecei a me sentir como um antílope africano meio bolado, vendo algo amarelo rastejando atrás de uma moita próxima. O problema dos antílopes é que els só correm quando tem certeza absoluta de que estão fodidos. É estranho dizer isso, mas nós, os humanos, os metidos da cadeia alimentar, aqueles que julgam terem sido feitos “a imagem e semelhança de Deus” tem EXATAMENTE o comportamento do mais besta e retardado antílope do Serengetti.
O sujeito não tirava aquele olhão comprido de cima do meu relógio e eu comecei a ficar bolado.
Algo dentro do meu ser me dizia:
- Você vai ser assaltado, seu burro. Fuja!
Eu relutei. Pensei: Será que não estou sendo preconceituoso? Será que o cara não é apenas um cidadão de bem que não teve condições de se vestir direito, fazer a barba direito? E essa cicatriz medonha no meio da cara dele? Será que não foi um acidente de trabalho? Um acidente quando ele era criança?
Será que estou com preconceito pelo fato do cara ter uma cara de ladrão?
O próprio sujeito estranho interrompeu meus pensamentos com a frase que parecia dizer tudo:
- Que horas são, playboy?
- Senti um calafrio. A voz dentro da minha cabeça berrava sem parar que eu iria ser assaltado. Antes de respondê-lo, numa fração de segundos meu cérebro começou a maquinar a razão daquela pergunta. Comecei a pensar… A aquela devia ser uma pergunta retórica do bandido.
Veja a que ponto chegamos. Bandidos requintados ao ponto de gerar perguntas retóricas para que suas vítimas dessem uma última olhada no bem antes de vê-lo trocar, assim deliberadamente, de mãos.
O hiato que se seguiu à pergunta do “Escadinha” já estava ficando incômodo. Eu tinha que dizer alguma coisa.
- São cinco e dez. – Eu disse apressado. E levantei de imediato, me antecipando ao provável bote. Fingi ver um parente na rua e gritei pela janela do ônibus:
- Marquinho! Me espera!
Eu sei lá quem diabos é o tal do “Marquinho”! Deve ser amigo do Harakiri.
Mas sei que eu levantei e saí atropelando o sujeito que não fez nenhum esforço em me deixar passar. Eu meio que pulei as pernas dele e ganhei o corredor.
Levantei e corri lá pra frente. Desci do ônibus com a sensação de alívio e prazer que só um antílope que escapa das garras dos guepardos se dá ao direito de sentir.
Continuei andando para casa. A descida prematura do busum me fez andar uma caminhada gigante a pé.
Eu fui tranqüilamente, me sentindo o ás da malandragem carioca.
E então comecei a pensar se o cara não era mesmo um trabalhador que só queria saber as horas. Que garantias eu tinha de que aquilo era um assalto?
Teria eu sido uma vítima de meu próprio preconceito racial-socio-cultural? O cara naturalmente sentiu que eu amarelei. Que eu fugi. E se ele não fosse um assaltante? Como deve ser uma merda sentir-se uma ameaça social. Comecei a sofrer por ter feito o pobre trabalhador sentir-se um bandido. Fiquei ali, andando e pensando, sobre os negros e a situação escrota do preconceito racial e social do Brasil.
Senti uma coisa espetando minhas costas. E pra meu espanto, a frase que ouvi no pé do ouvido me fez tremer de cagaço:
- Passa o relógio. – Disse a voz. Por um segundo eu vi um filme na minha cabeça. O cara ia mesmo me assaltar. Ele viu que eu tentei fugir e abortou o assalto. Resolveu recuperar o elemento surpresa e desceu um ponto depois. Distraído eu nem vi que ele resolveu me pegar pelas costas.
Quando olhei para trás, de rabo de olho, vi que não era o tal cara. Era um outro. Bem mais novo. Mais novo do que eu. Mas também com a maior pinta de marginal que você pode imaginar. E o pior, estava armado.
As pessoas na rua passavam e fingiam não ver o que acontecia ali, em plena luz do dia.
O cara estava com um canivete.
Eu não tinha outra saída senão apelar mais uma vez para o “Efeito Gump”.
Efeito Gump é o que acontece comigo numa situação de forte estress emocional. Nestas situações bizarras, eu fico calmo e não raro, personifico os mais estranhos personagens. E neste dia, o cara deu o azar da vida dele. *Eu personifiquei o evangélico mais evangelista que você já viu. Nem o Edir Macêdo, Bispo Soares, Silas Malafaia se comparavam ao CAÔ que eu mandei no cara.
Foi uma coisa mais ou menos assim:
-Cê quer o relógio?
-Passa. Passa o relógio ou eu te furo.
-Calma. Não precisa roubar o relógio, meu irmão. eu te DOU o relógio de presente. Você quer?
- Quero. Dá aí. Dá aí.
- Então, Irmão… Sabe porque eu tenho este relógio?
- Dá logo porra.
- (fingindo não me intimidar com o canivete todo enferrujado) Eu era um ladrão.
- Tu era ladrão?
- Era. Eu era ladrão e um dia precisei sacar o “berro” e atirei num cara. Mas ele não morreu. Ele apontou a arma pra mim e…
- E o que?
- Atirou, porra. – disse eu dando aquele tapinha de amigo no braço do meliante. Ele abaixou o canivete.
- Porra ele atirou? E acertou?
- Acertou, irmão. Bem aqui ó. – Disse eu levantando a blusa e apontando um lugar qualquer onde não se via porra nenhuma, afinal, nunca levei tiro na vida. E continuei: – Tá vendo a cicatriz?
-Tô, tô… – Então a bala entrou aqui e saiu nas costas.
- Caralho.
- Pois é, irmão. E o pior não é isso.
- Tu foi pro hospital?
- Fui, mas o pior aconteceu depois.
- Aconteceu o quê?
- Meu irmão, eu vi uma luz. Era uma luz branca. Que surgiu assim, ó. Pá! Na minha frente. E então eu vi uma coisa. Não vou dizer que era santo, nem que era espírito. Mas apareceu uma forma ali na luz e eu senti que estava liberto. Que não era a hora de morrer.
Quando eu abri o olho, eu já tava num hospital. Pensei que tivesse morrido.
A enfermeira falou que tinha morrido mas voltei.
- Puta merda!
- Quando eu voltei, estava livre meu irmão. Eu olhei meu rosto no espelho e vi que Deus em pessoa tinha me libertado. Ele mandou eu voltar. E só depois que eu descobri o porque.
- Por que? – Todo curioso o moleque.
- Porque eu tinha que libertar as pessoas.
- Libertar?
- É, irmão. Quanta gente você conhece que tá na merda? Roubando, cheirando, fumando, matando? Uma porrada, né? Então. Esses.
- Tu é crente?
- Não.
- Ué. Não?
- Não. Deus não precisa dessas coisas de igreja, de culto, de bandinha, nem terno e nem Bíblia. Deus precisa sabe do quê?
- Hã?
- Do seu compromisso. Da sua alma. Não é santo, não é banda, não é construção que vai te dar isso. Conseguir isso é a coisa mais difícil. Mas não é impossível.
Veja você por exemplo. Tu já ia me assaltar. Ia pegar o relógio, né? Eu sei cara. Eu entendo. Você acha que resolveu roubar meu relógio atôa? Logo eu? No meio de tanta gente? Olha o tamanho da cidade. Olha em volta.
Você acha que isso acontece assim, do nada?
Irmão, você foi mandando pra falar comigo. O relógio, quem me mandou usar foi Deus. O relógio é só uma isca. Você veio. Se veio, é porque Deus quer ver você liberto.
Cê quer se libertar?
-… Quero. Acho que sim.
- Irmão, presta atenção. Isso que eu vou te falar é importante. Deus te dá a chance. Ele não muda você. Ele pode fazer isso. Ele fez isso comigo. Mas ele não quer impor sua mudança. Ele quer que VOCÊ (apontando no peito dele, bem no coração) mude. Ele quer que VOCÊ saia da vida que você entrou, mas saia com as suas pernas. Esta é a chance. Pode ser que não haja outra.
-… – O moleque bolado.
- Joga fora essa merda. – Eu disse. Agora num tom mais autoritário, como que revestido do poder de Deus.
E para meu espanto, o moleque jogou a porra do canivete no canteiro.
- Agora fecha os olhos. Fecha os olhos e concentra. Você vai fazer uma conexão. Uma ligação com Deus.
Sei lá o que me deu para falar aquilo, mas eu peguei no braço do cara. Ele ali, de olho fechado eu orei com ele. E quando eu vi eu já tava falando no ouvido dele.
- Aceita Jesus.
- Eu aceito.
-Aceita Jesus, porra!
- Eu aceito.
- Agora! ( eu dei um grito) Aceitaaaaa! – O moleque caiu de joelhos. Ele chorava.
Para meu mais absoluto espanto, eu havia convertido o meu primeiro fiel.
Conversamos um pouco sobre música, sobre esportes e ele foi embora, todo agradecido. Ele morava no bairro do Coelho em São Gonçalo.
Antes dele ir, eu falei que ele deveria entrar para uma igreja. Eu não ia dizer qual. Todas as igrejas são de Deus. Mas que Deus apontaria a igreja certa pra ele.
E fui embora.
Com o meu relógio.
Menos um bandido no mundo. *
Ok, ok. Eu admito. Tudo que está entre os * eu inventei. Não consegui me conter e a aventura real virou um conto.
O fato real é que o cara era mesmo mais novo que eu e realmente estava com um canivete enferrujado apontado pra mim.
Eu comecei a falar com ele que aquilo ia “dar merda” pro lado dele e tal. Falei que ele não sabia de quem eu era filho. Que ele ia se dar mal. Meio que num tom de ameaça no estilo “quem avisa amigo é”.
E ele amarelou. Foi só isso. Ele deve ter pensado que eu era filho de polícia ou pior, de bandido e desistiu do assalto. Eu acabei conversando com ele e ele me contou que era de São Gonçalo, do bairro Coelho (um bairro barra-pesada, ao que parece). Paguei uma coca-cola pro cara e batemos papo por algum tempo. Aquele era o segundo assalto dele.
Ele não me roubou e eu fui pra casa.
Mas a parte inventada é bem mais legal, né?
Gostei deste post combo aventura-conto. Parece até piada do Costinha, que no meio da piada ele contava outra.
domingo, 17 de julho de 2011
A história do apontador – Tragédia escolar parte I
O apontador. Aquele nosso amigo que testemunhou os melhores e os piores momentos da escola.
Lembro-me com clareza quando eu tinha que pedir a Tia Marcia para levantar da minha carteira de madeira escura (igual a aquelas do clipe The Wall) e andar por todo aquele tenebroso corredor cheio de inimigos me olhando com expressões ferozes e chegar até a lata de lixo, perto da porta, onde eu faria ponta no meu lápis rezando para que ela não se quebrasse.
Quando isso acontecia, e acontecia em mais de 80% dos casos, a Tia Marcia me dava bronca e dizia que eu estava enrolando para olhar pela porta da sala ou para não fazer o dever.
Muitas vezes eu tive que me contentar em guardar de volta o lápis com as pontas quebradas no estojo depois de ficar vários minutos rodando aquela merda no apontador.
Meus apontadores eram tão cegos quanto o Mr. Magoo. E com o nervoso de estar ali na frente daquele palco de satã, tendo ao meu lado a megera digna de um campo de concentração, a mão imediatamente começava a suar.
O lápis número dois azul metálico da Faber Castell começava a deslizar e eventualmente travava, não indo nem para frente e nem para trás.
Eu dei graças a Deus quando finalmente larguei o lápis e pude escrever à caneta. Isso durou até a primeira bic estourar.
Bem, na verdade durou até um pouco antes. A minha primeira bic foi um desastre.
Eu fiz uma aposta com os meninos que eu conseguia chupar a tinta daquele tubinho de carga. Eles duvidaram da minha habilidade de sucção e não me restou outra alternativa senão arrancar o tubinho do seu invólucro de plástico transparente dar a melhor chupada que eu podia dar.
Só me toquei do quanto eu tinha sido burro quando o gosto da tinta azul se espalhou pela minha boca.
Eu havia praticamente esvaziado a caneta na boca. E comecei a chorar. Quando arreganhei aquele bocão azul todo mundo riu pra caralho e a tia Marcia deu um pulo da cadeira e me pegou pelo braço com grande violência. Assim como se pega um macaco de circo. Saiu pela porta afora me levando correndo para o banheiro lavar a boca.
O estrago já havia sido feito e a boca azul durou um tempão. Foi duro aturar a zoação que se seguiu quando eu voltei do banheiro. Acabei descobrindo que se eu sorrisse para o pessoal eles morriam de rir devido aos meus dentes estarem azulados.
É a minha primeira lembrança boa do colégio. Foi quando as primeiras meninas riram pra mim. (era de mim, mas na minha mente fértil, elas riam pra mim)
Aqui está o link da evolução do apontador : http://www.weirdomatic.com/pencil-sharpeners.html
Lembro-me com clareza quando eu tinha que pedir a Tia Marcia para levantar da minha carteira de madeira escura (igual a aquelas do clipe The Wall) e andar por todo aquele tenebroso corredor cheio de inimigos me olhando com expressões ferozes e chegar até a lata de lixo, perto da porta, onde eu faria ponta no meu lápis rezando para que ela não se quebrasse.
Quando isso acontecia, e acontecia em mais de 80% dos casos, a Tia Marcia me dava bronca e dizia que eu estava enrolando para olhar pela porta da sala ou para não fazer o dever.
Muitas vezes eu tive que me contentar em guardar de volta o lápis com as pontas quebradas no estojo depois de ficar vários minutos rodando aquela merda no apontador.
Meus apontadores eram tão cegos quanto o Mr. Magoo. E com o nervoso de estar ali na frente daquele palco de satã, tendo ao meu lado a megera digna de um campo de concentração, a mão imediatamente começava a suar.
O lápis número dois azul metálico da Faber Castell começava a deslizar e eventualmente travava, não indo nem para frente e nem para trás.
Eu dei graças a Deus quando finalmente larguei o lápis e pude escrever à caneta. Isso durou até a primeira bic estourar.
Bem, na verdade durou até um pouco antes. A minha primeira bic foi um desastre.
Eu fiz uma aposta com os meninos que eu conseguia chupar a tinta daquele tubinho de carga. Eles duvidaram da minha habilidade de sucção e não me restou outra alternativa senão arrancar o tubinho do seu invólucro de plástico transparente dar a melhor chupada que eu podia dar.
Só me toquei do quanto eu tinha sido burro quando o gosto da tinta azul se espalhou pela minha boca.
Eu havia praticamente esvaziado a caneta na boca. E comecei a chorar. Quando arreganhei aquele bocão azul todo mundo riu pra caralho e a tia Marcia deu um pulo da cadeira e me pegou pelo braço com grande violência. Assim como se pega um macaco de circo. Saiu pela porta afora me levando correndo para o banheiro lavar a boca.
O estrago já havia sido feito e a boca azul durou um tempão. Foi duro aturar a zoação que se seguiu quando eu voltei do banheiro. Acabei descobrindo que se eu sorrisse para o pessoal eles morriam de rir devido aos meus dentes estarem azulados.
É a minha primeira lembrança boa do colégio. Foi quando as primeiras meninas riram pra mim. (era de mim, mas na minha mente fértil, elas riam pra mim)
Aqui está o link da evolução do apontador : http://www.weirdomatic.com/pencil-sharpeners.html
Projeto Boneco do John Locke – LOST – parte 7
Finalmente chegamos na base do boneco!
De acordo com as idéias que tivemos no post número dois do projeto John Locke, a base escolhida é uma base ambientada como parte do terreno da ilha, que pode ser colada numa base de madeira hexagonal ou cilíndrica.
Vamos ao passo-a-passo.
Primeiro, o boneco estava colado firmemente à base de MDF. Eu precisava tirar ele dali por dois motivos. Um é que o boneco vai ser duplicado e não dá pra duplicar ele com aquele discão ali. (dar até dá, só que vai gastar material inutilmente. )
E o outro motivo é que eu precisava tirar as medidas daquela base com certa precisão para criar a base ambientada.
Assim, eu fui até a caixa de ferramentas e peguei uma marreta. A primeira dama me olhou com os olhos esbugalhados achando que era mais uma das crises de ódio e que eu iria marretar o boneco todo…
Miniflashback, por favor!
Lá estou eu. Primeiro ano de casado. Tínhamos alugado um apartamento de cobertura. – Não não sou rico. na verdade era o contrário. na falta de grana que eu estava quando casei, acabamos conseguindo arrumar um apartamento de uma velha italiana maluca, que quando foi feito o prédio, deveria ser a casa do zelador. Mas o prédio não tinha esses luxos de zelador. Então eu morava lá no “cafofo do Ozama”, um lugar quente pra caramba, que pegava sol direto na laje (que era o teto do meu apê). Este apartamento tinha vários inconvenientes além das baratas.
Um deles é que as paredes eram duras pra caralho. Duras não… Algo tipo Adamantium!
Eu estava ali, todo maridão, todo tchã tentando colocar um prego, veja você… Uma porra desprezível de um prego para segurar o passa-fio da máquina de lavar.
A Nivea estava na cozinha. Eu tentava em vão colocar o prego de tudo que era jeito, mas cada movimento que eu fazia, soltava todos os demais pregos. Eu comecei a ficar puto. Senti que estava ficando meio verde, mas tentei me controlar.
Preguei um aqui e outro ali. Só que aí saíam todos e a parada toda despencava.
Eu comecei a ficar realmente puto…
Foi quando eu comecei a martelar com mais e mais força, pra ver se a porra da parede de aço resolvia furar.
Pá!
Acertei a porra do dedão. Bem no meio. No meio da unha.
Aí ferrou. O Hulk saiu, mané.
Eu virei uma criatura gigante na cozinha. Peguei aquela porra de máquina de lavar e taquei pela janela. Caiu num carro e explodiu. A vizinha aos berros gritava o marido. Surgiu um coroa com uma carabina velha e eu apenas rugi aquele berro de tiranossauro rex e o velho correu.
Lá em baixo, chegou um tanque de guerra. Apontou o canhão pra mim. E então, sem saída… Eu dei o incrível pulo do Hulk, sumindo na imensidão azul do céu.
Ok, ok. Viajei aqui. Na verdade eu peguei a porra do martelo e comecei a dar porrada em tudo que eu vi pela frente.
A Nivea ouviu o barulho ensurdecedor do meu: POOOORRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAA! – que predeceu a minha transformação no Thor!
Sim, no Thor! O Deus do trovão. Eu metia aquela merrda do jeito que eu queria na parede, no tanque… Era eu e o martelo e mais nada na minha frente. Meti aquela porra no tanque tantas vezes que praticamente DESTRUÍ o tanque, que era de alvenaria, do apartamento da velha.
A Nivea veio toda preocupada querendo me segurar e eu só falei: – SAI DE PERTO DE MIM QUE EU METO ESSE MARTELO EM VOCÊ!!!!!
-Ela como não era boba, (já primeiro ano de casamento) entendeu que isso era algo literal e não figurativo. Vazou, deu linha, escafedeu-se.
E eu continuei a porrar as paredes e o tanque. Até a raiva passar e eu voltar a ser o calmo e pacato David Banner.
Fim do mini-flashback.
… Então a Nivea fica digamos, meio apreensiva ao me ver decidido andando com uma marreta pela casa.
Mas eu estava calmo e apenas bastaram umas três batidinhas na base pro boneco soltar-se direitinho. Não quebrou nada.
Por baixo dos pés do Locke dava pra ver os pinos de fixação na base.
Com um alicate eu cortei esses pinos.
Depois fiz um teste e descobri que o Locke estava bem equilibrado a ponto de ficar em pé sozinho.
Aí começou o trabalho na base.
Peguei a base original do Locke e decalquei ela sobre uma folha de papel. Na folha, tracei a lápis os contornos da mochila, do porcão e dei um “ar” para colocar ambientação.
depois, tasquei massa ali em cima e comecei a modelar.
A primeira camada foi só de enchimento, para fazer a cena mais acima do nivel da mesa.
Depois comecei a colocar mais e mais detalhes.
A terra foi feita de um modo bem curioso.
Peguei uma espátula e raspei a massa epoxi. O epoxi quando é raspado forma microfraturas que parecem muito com torrões de pedra.
Depois com a ajuda de uma escova de aço com cerdas finíssimas, comecei a fazer milhares de pequenas perfurações no terreno. Isso deu um aspecto muito legal de terra.
Com um dos meus instrumentais que tem uma forma de meia-lua eu fiz as pegadas do porco.
Fiz até uma área recortada em baixo relevo para assinar a peça.
Aqui dá pra ver bem os detalhes da textura da “areia”
Com o Locke eu marquei a posição dele, deixando as pegadas como indicação para montagem dele na base.
Modelei também um monte de pequenas folhinhas e varias raízes, para dar um toque de chão da floresta.
Fiz uns pequenos arbustos de musgo. Uma parte interessante do trabalho de modelar a base ambientada é que eu tenho que fazê-la já pensando nela pintada. E isso envolve esculpir certos detalhes para técnicas de pintura específicas, como aguadas e pincel seco.
Outra coisa que eu vou fazer, é plantar umas graminhas ali. Mas isso é efeito especial de acabamento. Só que eu tenho que prever isso já e então, vemos alguns furos na base na parte superior direita desta imagem. É ali que eu vou plantar o matinho. Folha a folha.
Aqui tem mais alguns detalhes de raízes, pedrinhas, troncos e até uns cogumelos.
E uma visão zenital da base já ambientada.
É isso aí. A parte de esculpir finalmente ACABOU. Agora vamos para a parte de duplicar nosso amiguinho John Locke.
Espero que vocês estejam se divertindo.
De acordo com as idéias que tivemos no post número dois do projeto John Locke, a base escolhida é uma base ambientada como parte do terreno da ilha, que pode ser colada numa base de madeira hexagonal ou cilíndrica.
Vamos ao passo-a-passo.
Primeiro, o boneco estava colado firmemente à base de MDF. Eu precisava tirar ele dali por dois motivos. Um é que o boneco vai ser duplicado e não dá pra duplicar ele com aquele discão ali. (dar até dá, só que vai gastar material inutilmente. )
E o outro motivo é que eu precisava tirar as medidas daquela base com certa precisão para criar a base ambientada.
Assim, eu fui até a caixa de ferramentas e peguei uma marreta. A primeira dama me olhou com os olhos esbugalhados achando que era mais uma das crises de ódio e que eu iria marretar o boneco todo…
Miniflashback, por favor!
Lá estou eu. Primeiro ano de casado. Tínhamos alugado um apartamento de cobertura. – Não não sou rico. na verdade era o contrário. na falta de grana que eu estava quando casei, acabamos conseguindo arrumar um apartamento de uma velha italiana maluca, que quando foi feito o prédio, deveria ser a casa do zelador. Mas o prédio não tinha esses luxos de zelador. Então eu morava lá no “cafofo do Ozama”, um lugar quente pra caramba, que pegava sol direto na laje (que era o teto do meu apê). Este apartamento tinha vários inconvenientes além das baratas.
Um deles é que as paredes eram duras pra caralho. Duras não… Algo tipo Adamantium!
Eu estava ali, todo maridão, todo tchã tentando colocar um prego, veja você… Uma porra desprezível de um prego para segurar o passa-fio da máquina de lavar.
A Nivea estava na cozinha. Eu tentava em vão colocar o prego de tudo que era jeito, mas cada movimento que eu fazia, soltava todos os demais pregos. Eu comecei a ficar puto. Senti que estava ficando meio verde, mas tentei me controlar.
Preguei um aqui e outro ali. Só que aí saíam todos e a parada toda despencava.
Eu comecei a ficar realmente puto…
Foi quando eu comecei a martelar com mais e mais força, pra ver se a porra da parede de aço resolvia furar.
Pá!
Acertei a porra do dedão. Bem no meio. No meio da unha.
Aí ferrou. O Hulk saiu, mané.
Eu virei uma criatura gigante na cozinha. Peguei aquela porra de máquina de lavar e taquei pela janela. Caiu num carro e explodiu. A vizinha aos berros gritava o marido. Surgiu um coroa com uma carabina velha e eu apenas rugi aquele berro de tiranossauro rex e o velho correu.
Lá em baixo, chegou um tanque de guerra. Apontou o canhão pra mim. E então, sem saída… Eu dei o incrível pulo do Hulk, sumindo na imensidão azul do céu.
Ok, ok. Viajei aqui. Na verdade eu peguei a porra do martelo e comecei a dar porrada em tudo que eu vi pela frente.
A Nivea ouviu o barulho ensurdecedor do meu: POOOORRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAA! – que predeceu a minha transformação no Thor!
Sim, no Thor! O Deus do trovão. Eu metia aquela merrda do jeito que eu queria na parede, no tanque… Era eu e o martelo e mais nada na minha frente. Meti aquela porra no tanque tantas vezes que praticamente DESTRUÍ o tanque, que era de alvenaria, do apartamento da velha.
A Nivea veio toda preocupada querendo me segurar e eu só falei: – SAI DE PERTO DE MIM QUE EU METO ESSE MARTELO EM VOCÊ!!!!!
-Ela como não era boba, (já primeiro ano de casamento) entendeu que isso era algo literal e não figurativo. Vazou, deu linha, escafedeu-se.
E eu continuei a porrar as paredes e o tanque. Até a raiva passar e eu voltar a ser o calmo e pacato David Banner.
Fim do mini-flashback.
… Então a Nivea fica digamos, meio apreensiva ao me ver decidido andando com uma marreta pela casa.
Mas eu estava calmo e apenas bastaram umas três batidinhas na base pro boneco soltar-se direitinho. Não quebrou nada.
Por baixo dos pés do Locke dava pra ver os pinos de fixação na base.
Com um alicate eu cortei esses pinos.
Depois fiz um teste e descobri que o Locke estava bem equilibrado a ponto de ficar em pé sozinho.
Aí começou o trabalho na base.
Peguei a base original do Locke e decalquei ela sobre uma folha de papel. Na folha, tracei a lápis os contornos da mochila, do porcão e dei um “ar” para colocar ambientação.
depois, tasquei massa ali em cima e comecei a modelar.
A primeira camada foi só de enchimento, para fazer a cena mais acima do nivel da mesa.
Depois comecei a colocar mais e mais detalhes.
A terra foi feita de um modo bem curioso.
Peguei uma espátula e raspei a massa epoxi. O epoxi quando é raspado forma microfraturas que parecem muito com torrões de pedra.
Depois com a ajuda de uma escova de aço com cerdas finíssimas, comecei a fazer milhares de pequenas perfurações no terreno. Isso deu um aspecto muito legal de terra.
Com um dos meus instrumentais que tem uma forma de meia-lua eu fiz as pegadas do porco.
Fiz até uma área recortada em baixo relevo para assinar a peça.
Aqui dá pra ver bem os detalhes da textura da “areia”
Com o Locke eu marquei a posição dele, deixando as pegadas como indicação para montagem dele na base.
Modelei também um monte de pequenas folhinhas e varias raízes, para dar um toque de chão da floresta.
Fiz uns pequenos arbustos de musgo. Uma parte interessante do trabalho de modelar a base ambientada é que eu tenho que fazê-la já pensando nela pintada. E isso envolve esculpir certos detalhes para técnicas de pintura específicas, como aguadas e pincel seco.
Outra coisa que eu vou fazer, é plantar umas graminhas ali. Mas isso é efeito especial de acabamento. Só que eu tenho que prever isso já e então, vemos alguns furos na base na parte superior direita desta imagem. É ali que eu vou plantar o matinho. Folha a folha.
Aqui tem mais alguns detalhes de raízes, pedrinhas, troncos e até uns cogumelos.
E uma visão zenital da base já ambientada.
É isso aí. A parte de esculpir finalmente ACABOU. Agora vamos para a parte de duplicar nosso amiguinho John Locke.
Espero que vocês estejam se divertindo.
Águia de aço – aventura no cinema
Eu tinha ido ver o filme água de Aço com meu primo Guilherme (aquele do episódio pitoresco do cemitério) toda vez que a gente se juntava dava alguma merda. Foram dezenas de merdas de todos os tipos ao longo da juventude.
Naquela tarde de sábado fomos ao cinema ver um filme chamado “Águia de Aço”. Era aquele tipo de filme de caras durões pilotando jatos com bombas explodindo jipes. Uma coisa que precedeu Top Gun. Nós chegamos cedo. Era época de férias e a fila para ver o Águia de Aço era enorme. Uma molecada doida. Eu estava totalmente interessado em ver os combates. Naquele tempo eu montava aviõezinhos de plástico da Revell e sonhava em ser piloto de caça. Escolhemos meticulosamente o lugar para assistir o filme. Bem no meio da tela. Quando nós sentamos, estávamos eu de um lado, o Guilherme do outro e o Tio Arlindo, que levou a gente no cinema no meio.
Entrou um casal e sentou bem na frente do Guilherme e do Tio Arlindo. Eu sorri por dentro, porque eu sabia que geralmente o lugar ao lado de casais costuma acabar vazio. Estava tudo perfeito. Na minha frente, apenas a tela.
Quando começou o trailer, eu já não podia conter a emoção. Faltavam poucos segundos para a emocionante perseguição de jatos começar.
Bem… Já ouviu falar de “lei de Murphy”?
Pois é. Entrou um cara com um cabelo que era igual ao do SideShowBob dos Simpsons. lentamente ele entrou pelo canto da minha visão periférica e ocupou todo o espectro visível com sua cabeleira de dar inveja ao mais imundo dos esfregões de chão do Mc Donalds.
Bem assim ó:
Onde que o puto sentou? Isso mesmo, na MINHA FRENTE. O pior é que quando o cara sentou o cinema tava lotado. Já não rolava mudar de lugar.
Resultado, tive que ver o filme que eu tava LOUCO pra assistir atrás daquele TUFO de cabelos que era igual a um coqueiro.
Eu não lembro de praticamente nada daquele filme. Só de uma coisa. Do puto do cabelo duro e do episódio do milho.
No meio do filme, havia uma cena em que rolava um bombardeio. Um jipe saiu capotando. Eu sentia que ia cair sangue em mim. Lembro que só voltei a me sentir assim na cena a pancadaria generalizada do filme Coração Valente, anos depois.
Um jipe explodiu, virando cambalhotas em chamas na tela e subitamente, uma coisa molhada caiu no meu colo.
Eu quase morri do coração. Achei que era o braço do motorista do jipe. Mas não. Era pior.
Era um milho.
Bem, um sabugo de milho, totalmente comido. Algum filho da puta tacou o milho pro ar e caiu bem no meu colo. Agora veja você. Com aquela porrada de cabeça no cinema e o milho infectamente babujado cai no colo de quem? No meu.
Como se não bastasse isso, tinha aquele corno alto na minha frente.
Eu comecei a sentir uma raiva… Uma raiva filha da puta, que foi crescendo, crescendo… me absorvendo, até que enfim eu peguei aquela porra de milho e desferi uma PORRADA COM TODA FORÇA na cabeça do SideshowBob bem na minha frente. Foi um porradão violento. Sem piedade. E em seguida abaixei e fiquei com cara de quem tava vendo o filme. eu não olhei nos olhos dele para não me incriminar. Olhava ao longe como se visse compenetradamente o filme.
O Side Show Bob levantou da cadeira. Ele devia ter uns dois metros, fora o tufo. Ele olhou pra trás. Lá pra trás. Bem pra trás. Tentou gritar:
- Quem foi o filho da puta que jogou esse milho???
Eu, incólume continuei quietinho. O povo do cinema começou a vaiar o cara que levantou gritando para sentar e tal. E ele sentou. Aliás, ele praticamente deitou na cadeira e enfim eu pude ver a cena final e um pedaço dos créditos.
Naquela tarde de sábado fomos ao cinema ver um filme chamado “Águia de Aço”. Era aquele tipo de filme de caras durões pilotando jatos com bombas explodindo jipes. Uma coisa que precedeu Top Gun. Nós chegamos cedo. Era época de férias e a fila para ver o Águia de Aço era enorme. Uma molecada doida. Eu estava totalmente interessado em ver os combates. Naquele tempo eu montava aviõezinhos de plástico da Revell e sonhava em ser piloto de caça. Escolhemos meticulosamente o lugar para assistir o filme. Bem no meio da tela. Quando nós sentamos, estávamos eu de um lado, o Guilherme do outro e o Tio Arlindo, que levou a gente no cinema no meio.
Entrou um casal e sentou bem na frente do Guilherme e do Tio Arlindo. Eu sorri por dentro, porque eu sabia que geralmente o lugar ao lado de casais costuma acabar vazio. Estava tudo perfeito. Na minha frente, apenas a tela.
Quando começou o trailer, eu já não podia conter a emoção. Faltavam poucos segundos para a emocionante perseguição de jatos começar.
Bem… Já ouviu falar de “lei de Murphy”?
Pois é. Entrou um cara com um cabelo que era igual ao do SideShowBob dos Simpsons. lentamente ele entrou pelo canto da minha visão periférica e ocupou todo o espectro visível com sua cabeleira de dar inveja ao mais imundo dos esfregões de chão do Mc Donalds.
Bem assim ó:
Onde que o puto sentou? Isso mesmo, na MINHA FRENTE. O pior é que quando o cara sentou o cinema tava lotado. Já não rolava mudar de lugar.
Resultado, tive que ver o filme que eu tava LOUCO pra assistir atrás daquele TUFO de cabelos que era igual a um coqueiro.
Eu não lembro de praticamente nada daquele filme. Só de uma coisa. Do puto do cabelo duro e do episódio do milho.
No meio do filme, havia uma cena em que rolava um bombardeio. Um jipe saiu capotando. Eu sentia que ia cair sangue em mim. Lembro que só voltei a me sentir assim na cena a pancadaria generalizada do filme Coração Valente, anos depois.
Um jipe explodiu, virando cambalhotas em chamas na tela e subitamente, uma coisa molhada caiu no meu colo.
Eu quase morri do coração. Achei que era o braço do motorista do jipe. Mas não. Era pior.
Era um milho.
Bem, um sabugo de milho, totalmente comido. Algum filho da puta tacou o milho pro ar e caiu bem no meu colo. Agora veja você. Com aquela porrada de cabeça no cinema e o milho infectamente babujado cai no colo de quem? No meu.
Como se não bastasse isso, tinha aquele corno alto na minha frente.
Eu comecei a sentir uma raiva… Uma raiva filha da puta, que foi crescendo, crescendo… me absorvendo, até que enfim eu peguei aquela porra de milho e desferi uma PORRADA COM TODA FORÇA na cabeça do SideshowBob bem na minha frente. Foi um porradão violento. Sem piedade. E em seguida abaixei e fiquei com cara de quem tava vendo o filme. eu não olhei nos olhos dele para não me incriminar. Olhava ao longe como se visse compenetradamente o filme.
O Side Show Bob levantou da cadeira. Ele devia ter uns dois metros, fora o tufo. Ele olhou pra trás. Lá pra trás. Bem pra trás. Tentou gritar:
- Quem foi o filho da puta que jogou esse milho???
Eu, incólume continuei quietinho. O povo do cinema começou a vaiar o cara que levantou gritando para sentar e tal. E ele sentou. Aliás, ele praticamente deitou na cadeira e enfim eu pude ver a cena final e um pedaço dos créditos.
As vezes em que eu quase fiquei cego
Certas pessoas parecem predestinadas ao sucesso. É relativamente comum vermos pessoas que desde a mais tenra idade manifestam pendores artísticos, políticos, etc. Nelson Rodrigues já dizia que até o ato de ser puta é algo de origem vocacional na mulher. Eu penso sobre as coisas que me acontecem e quase sempre fico com uma certa sensação de que eu tenho uma capacidade única de me ferrar. Talvez seja esta minha habilidade vocacional máxima. A de me ferrar. Vejamos:
Plástico derretido no olho
Eu estava tomando banho. Eu gostava de tomar banhos longos, quentes e musicais. Para tal eu levava meu rádio para o banheiro e colocava ele em cima do cesto de roupa suja. Metia o rock no útimo volume e brincava de guitarrinha imaginária em baixo d água. Era comum eu só terminar o banho quando sentia um forte cheiro de queimado vindo do chuveiro. A temperatura no fio ficava muito quente e ele começava a derreter, soltando um fedor horrível, que me obrigava a terminar o banho. Num daqueles dias, eu estava tomando um banho super quente enquanto ouvia Eagles tocando Hotel California.
Foi quando uma explosão aconteceu. Foi um estouro alto no chuveiro, e eu instintivamente olhei pra cima.
Foi olhar e sentir uma coisa quente, como se fosse uma agulha em brasa entrar no meu olho. Eu dei um pulo. Aquela merda queimando, queimando…
Me desesperei. Para piorar, estava tudo escuro.
Estava escuro porque eu sempre gostei de tomar banho em completa escuridão. Mas mesmo que tivesse luz, não iria fazer diferença nenhuma, já que eu estava com o olho fechado, apertando com a mão. Gritando um monte de palavrões.
Eu corri molhado pelo banheiro. Quase caí. Peguei a toalha tateando. È uma merda sentir dor. A gente não faz nada direito. Peguei a toalha e me enrolei como pude.
Tateei pela parede até achar a porta e consegui sair do mundo escuro, fumacento e com cheiro de queimado. A primeira pessoa que me viu gritando todo molhado e com a toalha a me cobrir mal e porcamente as partes baixas foi a Edna.
A Edna era aquela empregada meio maluquinha que tinha disritimia e dormia na cama da minha mãe sempre que a gente saía de casa. A Edna ficou desesperada e não sabia o que fazer. Era hora do almoço e ela estava fazendo a comida. Quando me ouviu gritar largou tudo no fogo e foi ver.
E aí ao invés de ajudar, ela só correu de um lado para o outro perguntando o que havia acontecido com meu olho. E eu só gritava em desespero. Ficava aquela merda queimando e eu tinha certeza que estava cego.
Por sorte a minha mãe chegou em casa bem naquela hora. Ela se assustou com a cena de me ver pelado, molhado, com shampoo na cabeça segurando o olho e gritando enrolado numa toalha que ameaçava cair e a Edna feito uma barata tonta em volta.
Minha mãe, acostumada a me ver em situações escabrosas, não pensou duas vezes. Me levou para o quarto, vestiu uma roupa em mim, ( a primeira que ela viu) e me carregou para o oftalmologista que ficava relativamente perto do meu prédio. O olho ainda queimava, mas já estava doendo menos.
Chegamos lá. Minha mãe disse que era emergência, mas nem precisava, afinal ali estava um sujeito vestindo a roupa mais descombinada da face da terra com a mãe segurando tão forte no braço que poderia deslocá-lo com um puxão, e ainda por cima com o cabelo molhado despenteado segurando uma gaze no olho e com a orelha cheia de espuma de sampoo.
A emergência era um tanto quanto óbvia, embora eu reconheça que o quadro estava mais para emergência psiquiátrica.
A doutora já estava -coitada – na porta para ir almoçar. Ela ficou puta. Voltou lá pra dentro comigo.
Mandou que eu sentasse na cadeira com aquela sutileza e delicadeza de um torturador do DOPS, pegou umas coisas que eu não vi o que era e começou a examinar meu olho. A minha mãe do lado, segurando a minha mão, certa de que eu iria desmaiar. ( acontece que desde o dia em que eu resolvi personificar o “Homem Pássaro” e cortei a testa, indo parar na emergência e fui violentamente contido por seis médicos, nunca mais consegui me sentir bem em hospitais.)
Ela mandou que eu abrisse o olho. Mas o problema é que em função do estresse da situação e o fator “K” (K-GAÇO) eu não abria aquele olho nem a pau! A médica, que já estava meio frustrada de não poder ir almoçar, começou a ficar mais… digamos, estressada? Não, não. Ela ficou foi puta pra caralho mesmo.
Eu só lembro ela virar pra mim:
- Ah, não vai abrir o olho não é?
E então eu realizei que estava prestes a adentrar pujantemente no fator “F”.
Ela abriu meu olho com uma coisa igual a um alicate. Algo parecido com um fórceps de metal e sem anestesia, sem avisar, sem pedir e nem ao menos cantar uma musiquinha, ela pegou uma puta duma pinça enorme e enfiou no meu olho!
Putaquipariu! Senti a dor toda novamente.
Ela começou a futicar no meu olho. A cena era bem horrível. Posso calcular pelo grau de aperto que a minha mãe dá na minha mão. Ao longo de mil e uma merdas, eu aprendi a calcular o grau do nivel “F” que estou passando pelo tanto que a minha mãe aperta a minha mão.
Num determinado momento em diante eu não estava mais no consultório escuro da olftalmologista do Dops. Eu estava num lugar bonito, como aquele morrinho verdejante do papel de parede do Windows Xp. Os pássaros cantavam e as nuvens passavam no céu. E eu estava feliz.
Eu acho que a merda era tamanha que eu saí do corpo. Não sei se estar em coma é ir para este lugar ou não. Não sei se imaginei este lugar para compensar a situação ESCROTA que estava passando ali. Mas o fato é que o mecanismo de fuga funciona como o último fusível cerebral para momentos de aperto.
Convenhamos que era parecido com ir ao dentista. Só que ela estava obturando o meu olho!
Quando dei por mim, ela estava fazendo um curativo no olho e me receitou uns colírios cicatrizantes. Aquela merda doeu por uma semana e por quase um mês foi como ter um cisco permanente na vista.
Depois que o olho começou a melhorar é que nós conseguimos efetuar uma perícia no chuveiro. O calor dos banhos ultra-quentes provocou o derretimento dos fios. O derretimento foi lentamente subindo pelos fios até chegar num ponto em que os fios se encostavam. O plástico dos fios derreteu e eles se encontraram bem naquele lugar onde tem uma pecinha que parece um pedaço de lego. Esta coisa preta derreteu como chocolate. E na hora que estourou, um pequeno pedaço incandescente desse cremoso plástico, atingiu meu olho.
Formol no Olho
Nós tínhamos uma casa em Cabo Frio. E quando você tem casa de praia, acaba sacrificando todo e qualquer final de semana de sol, onde você poderia viajar para mil lugares para ir para o mesmo lugar de sempre fazer as mesmas chatas tarefas de sempre, cortar a grama, arrumar o portão, limpar a churrasqueira, etc.
Eu gostava de ir para Cabo Frio porque lá eu podia mergulhar.
Num desses dias, eu estava mergulhando e vi no fundo um filhote de tubarão enrolado num bolo de linha. Eu desci até lá e peguei o coitadinho. Mas ele já estava morto. Então eu pacientemente desenrolei ele daquele bolo de linha e voltei com ele para a praia.
Eu segurava aquele filhote de tubarão como um belo troféu que mostrava como eu era um mergulhador valente.
Resolvi que ia levar o tubarão para casa e empalhá-lo. Eu sempre quis ter um grande tubarão branco empalhado para mostrar para meus netos e contar aquela fantástica história sobre como eu consegui matar o monstro com apenas uma faca.
Mas o fato é que aquele era um filhotinho minúsculo, do tamanho do meu antebraço.
Levei ele pra casa num plástico com gelo.
Voltamos de Cabo Frio para Niterói e eu fui na farmácia comprar os materiais necessários.
Eu sabia que para empalhar um animal (taxidermia) eu precisaria de algodão, formol e seringa.
E assim eu fiz.
Comprei formol e seringa na farmácia.
Neste momento minha mãe falava com a minha avó no telefone da sala equanto eu empalhava o bicho na varanda. Eu pegava a seringa e aplicava o formol ao longo do corpo do tubarãozinho. Tudo ia bem até que eu resolvi aplicar formol na ponta do nariz dele.
E a agulha empacou. O formol não saía de jeito nenhum. ( óbviamente, o retardado mental tentava aplicar formol no meio de uma cartilagem)
E eu comecei a ficar puto. Aí eu decidi que seria o tubarão eu eu. Eu não podia ser vencido por um filhote escroto de tubrão. Eu ia vencer custasse o que custasse. Me inclinei sobre o animal, usando as duas mãos eu fiz toda a força que eu podia empurrando o êmbulo da seringa numa pressão alucinante. Eu já estava forçando a pressão na seringa por alguns segundos. Lembro que fiz ainda mais força. Apliquei toda força que eu tinha em cima daquela seringa que era MADE IN ARGENTINA.
Eu já estava tremendo de tanta força quando aquela porra estourou.
Assim, deliberadamente, a seringa separou a agulha do corpo da injeção e o formol maldito foi borrifado nos meus dois olhos.
Eu caí para trás na hora com as mãos no rosto. Eu parecia aquele goleiro malandrão do episódio da Rosemere fogueteira nos anos 90.
Eu rolava gritando: – Fiquei cego! Fiquei Cego!!!!
Minha mãe novamente se viu na situação de encerrar a conversa com a minha vó e ir socorrer o filho que mais uma vez, vocacionalmente, se ferrou.
O formol quando cai no olho arde BEM MAIS que plástico derretido. É uma sensação parecida com fazer um colírio usando seis hall´s preto mais um vidrinho de Vicky Vaporoub, duas colheres de álcool absoluto e duas gotinhas de ácido sulfúrico.
Naquela hora eu estava certo que estava finalmente cego.
Por sorte, a gente tinha água boricada em casa e a minha mãe lavou meus olhos com isso. A água boricada diminuiu bastante a queimação alucinante que o formol dava.
Depois de suas horas de sufoco o olho parou de arder. Eu fui no espelho e vi que o branco do meu olho não era mais branco. Era um rosa puxado para vermelho.
Eu vi um bilhão de capilares dilatados. Eu devia ter tirado uma foto do estado do meu olho naquele dia. Parecia coisa de filme. No dia seguinte, eu acordei com a situação oposta. O branco do olho estava no nível mais branco que eu jamais havia visto em toda minha vida. Não havia nenhuma veiazinha aparente. Parecia que eu tinha lavado o olho com OMO – “o branco que sua família merece”.
Super Bonder no olho
O episódio da super bonder no olho foi o mais retardado e o mais tranqüilo de todos, porque eu consegui fechar o olho a tempo.
Quando a gente usa muito a Super Bonder, essa da bisnaguinha, é normal descobrirmos que mais da metade do volume da bisnaguinha é ar que aquela empresa safada coloca. Só isso já era motivo mais que suficiente para processarmos a Loctite, mas o pior não é isso.
O pior é aquele biquinho sacana que a Super Bonder tem. Sempre que terminamos de usar uma gotinha sobe por aquele biquinho e se solidifica numa bela tampa de cristal na ponta do bico.
Aí o primeiro reflexo (um reflexo bem mongol, diga-se de passagem) é pegar a bisnaguinha e apertar ela pra ver se sai a cola. Apertar pra ver se desentope.
Não. Não desentope. O que acontece apenas é que mudamos a pressão interna dentro do caralho da bisnaguinha.
E aí é que temos a brilhante idéia de pegar uma agulha e – Virando o buraco do bico da cola bem na mira do nosso olho – perfurar a cola solidificada no bico.
O que acontece então é uma bela mijada de Super Bonder no nosso olho.
Nesse dia eu consegui fechar o olho bem a tempo e só colei a minha pálpebra. Mas isso foi suficiente para aquela merda queimar lá dentro feito fogo. Corri no banheiro peguei um chumaço de papel higiênico e tasquei em cima.
Maior cagada porque agora eu estava com o olho ainda queimando e um curativo bem bonito de papel higiênico e os dedos colados na cara. Sem falar de uma bela cascata de cola escorrida que descia pelo meu rosto indo até o pescoço e colando a camisa nele.
Era uma cena digna do Mister Bin. E o pior é que foi tudo em menos de dez segundos em absoluto silêncio, porque não ia adiantar nada gritar, já que aquele era um fim de semana e eu estava sozinho em casa.
Com aquele treco colado na mão, no papel, no olho e na camisa eu peguei coma outra mão e abri a torneira. Enfiei a cara debaixo da torneira e tentei jogar água para tentar acalmar o calor.
O processo de endurecimento do cianocrilato ( o componente da super cola) é baseado na geração espontânea de calor, que provoca a evaporação imediata e cristalização de um meio específico. Na verdade, a super cola provoca até combustão espontânea tamanha sua capacidade de gerar calor.
Não crê? faça a experiência: Compre umas quatro bisnagas de super bonder. Pegue um pires velho e coloque uma bola de algodão ali. Então usando óculos de proteção, derrame o mais rápido que puder todo o super bonder sobre o algodão. Afaste-se e espere. Ele vai pegar fogo! Mas se não quiser fazer, veja este video:
Spontaneous Combustion ! – How To…. – The best home videos are here
Bem, depois que a queimação aliviou, eu comecei a molhar e passando sabonete em cima, mexer com a mão, lentamente a cola foi se soltando e eu consegui abrir meu olho. Estava vermelho mas estava inteiro e funcionando.
Tiro de metal na reta do olho
Fora esta experiência do Super Bonder, eu quase fiquei cego tentando cortar um pedaço de metal. Eu usei um alicate de corte e fiz tanta força que aquele treco deu um tiro. Disparou e me acertou os óculos.
Quando eu tirei os óculos para ver, o pedaço de metal havia feito um pequeno buraco na lente. Fraturando-a bem na reta do meu olho.
Essa foi por pouco.
Plástico derretido no olho
Eu estava tomando banho. Eu gostava de tomar banhos longos, quentes e musicais. Para tal eu levava meu rádio para o banheiro e colocava ele em cima do cesto de roupa suja. Metia o rock no útimo volume e brincava de guitarrinha imaginária em baixo d água. Era comum eu só terminar o banho quando sentia um forte cheiro de queimado vindo do chuveiro. A temperatura no fio ficava muito quente e ele começava a derreter, soltando um fedor horrível, que me obrigava a terminar o banho. Num daqueles dias, eu estava tomando um banho super quente enquanto ouvia Eagles tocando Hotel California.
Foi quando uma explosão aconteceu. Foi um estouro alto no chuveiro, e eu instintivamente olhei pra cima.
Foi olhar e sentir uma coisa quente, como se fosse uma agulha em brasa entrar no meu olho. Eu dei um pulo. Aquela merda queimando, queimando…
Me desesperei. Para piorar, estava tudo escuro.
Estava escuro porque eu sempre gostei de tomar banho em completa escuridão. Mas mesmo que tivesse luz, não iria fazer diferença nenhuma, já que eu estava com o olho fechado, apertando com a mão. Gritando um monte de palavrões.
Eu corri molhado pelo banheiro. Quase caí. Peguei a toalha tateando. È uma merda sentir dor. A gente não faz nada direito. Peguei a toalha e me enrolei como pude.
Tateei pela parede até achar a porta e consegui sair do mundo escuro, fumacento e com cheiro de queimado. A primeira pessoa que me viu gritando todo molhado e com a toalha a me cobrir mal e porcamente as partes baixas foi a Edna.
A Edna era aquela empregada meio maluquinha que tinha disritimia e dormia na cama da minha mãe sempre que a gente saía de casa. A Edna ficou desesperada e não sabia o que fazer. Era hora do almoço e ela estava fazendo a comida. Quando me ouviu gritar largou tudo no fogo e foi ver.
E aí ao invés de ajudar, ela só correu de um lado para o outro perguntando o que havia acontecido com meu olho. E eu só gritava em desespero. Ficava aquela merda queimando e eu tinha certeza que estava cego.
Por sorte a minha mãe chegou em casa bem naquela hora. Ela se assustou com a cena de me ver pelado, molhado, com shampoo na cabeça segurando o olho e gritando enrolado numa toalha que ameaçava cair e a Edna feito uma barata tonta em volta.
Minha mãe, acostumada a me ver em situações escabrosas, não pensou duas vezes. Me levou para o quarto, vestiu uma roupa em mim, ( a primeira que ela viu) e me carregou para o oftalmologista que ficava relativamente perto do meu prédio. O olho ainda queimava, mas já estava doendo menos.
Chegamos lá. Minha mãe disse que era emergência, mas nem precisava, afinal ali estava um sujeito vestindo a roupa mais descombinada da face da terra com a mãe segurando tão forte no braço que poderia deslocá-lo com um puxão, e ainda por cima com o cabelo molhado despenteado segurando uma gaze no olho e com a orelha cheia de espuma de sampoo.
A emergência era um tanto quanto óbvia, embora eu reconheça que o quadro estava mais para emergência psiquiátrica.
A doutora já estava -coitada – na porta para ir almoçar. Ela ficou puta. Voltou lá pra dentro comigo.
Mandou que eu sentasse na cadeira com aquela sutileza e delicadeza de um torturador do DOPS, pegou umas coisas que eu não vi o que era e começou a examinar meu olho. A minha mãe do lado, segurando a minha mão, certa de que eu iria desmaiar. ( acontece que desde o dia em que eu resolvi personificar o “Homem Pássaro” e cortei a testa, indo parar na emergência e fui violentamente contido por seis médicos, nunca mais consegui me sentir bem em hospitais.)
Ela mandou que eu abrisse o olho. Mas o problema é que em função do estresse da situação e o fator “K” (K-GAÇO) eu não abria aquele olho nem a pau! A médica, que já estava meio frustrada de não poder ir almoçar, começou a ficar mais… digamos, estressada? Não, não. Ela ficou foi puta pra caralho mesmo.
Eu só lembro ela virar pra mim:
- Ah, não vai abrir o olho não é?
E então eu realizei que estava prestes a adentrar pujantemente no fator “F”.
Ela abriu meu olho com uma coisa igual a um alicate. Algo parecido com um fórceps de metal e sem anestesia, sem avisar, sem pedir e nem ao menos cantar uma musiquinha, ela pegou uma puta duma pinça enorme e enfiou no meu olho!
Putaquipariu! Senti a dor toda novamente.
Ela começou a futicar no meu olho. A cena era bem horrível. Posso calcular pelo grau de aperto que a minha mãe dá na minha mão. Ao longo de mil e uma merdas, eu aprendi a calcular o grau do nivel “F” que estou passando pelo tanto que a minha mãe aperta a minha mão.
Num determinado momento em diante eu não estava mais no consultório escuro da olftalmologista do Dops. Eu estava num lugar bonito, como aquele morrinho verdejante do papel de parede do Windows Xp. Os pássaros cantavam e as nuvens passavam no céu. E eu estava feliz.
Eu acho que a merda era tamanha que eu saí do corpo. Não sei se estar em coma é ir para este lugar ou não. Não sei se imaginei este lugar para compensar a situação ESCROTA que estava passando ali. Mas o fato é que o mecanismo de fuga funciona como o último fusível cerebral para momentos de aperto.
Convenhamos que era parecido com ir ao dentista. Só que ela estava obturando o meu olho!
Quando dei por mim, ela estava fazendo um curativo no olho e me receitou uns colírios cicatrizantes. Aquela merda doeu por uma semana e por quase um mês foi como ter um cisco permanente na vista.
Depois que o olho começou a melhorar é que nós conseguimos efetuar uma perícia no chuveiro. O calor dos banhos ultra-quentes provocou o derretimento dos fios. O derretimento foi lentamente subindo pelos fios até chegar num ponto em que os fios se encostavam. O plástico dos fios derreteu e eles se encontraram bem naquele lugar onde tem uma pecinha que parece um pedaço de lego. Esta coisa preta derreteu como chocolate. E na hora que estourou, um pequeno pedaço incandescente desse cremoso plástico, atingiu meu olho.
Formol no Olho
Nós tínhamos uma casa em Cabo Frio. E quando você tem casa de praia, acaba sacrificando todo e qualquer final de semana de sol, onde você poderia viajar para mil lugares para ir para o mesmo lugar de sempre fazer as mesmas chatas tarefas de sempre, cortar a grama, arrumar o portão, limpar a churrasqueira, etc.
Eu gostava de ir para Cabo Frio porque lá eu podia mergulhar.
Num desses dias, eu estava mergulhando e vi no fundo um filhote de tubarão enrolado num bolo de linha. Eu desci até lá e peguei o coitadinho. Mas ele já estava morto. Então eu pacientemente desenrolei ele daquele bolo de linha e voltei com ele para a praia.
Eu segurava aquele filhote de tubarão como um belo troféu que mostrava como eu era um mergulhador valente.
Resolvi que ia levar o tubarão para casa e empalhá-lo. Eu sempre quis ter um grande tubarão branco empalhado para mostrar para meus netos e contar aquela fantástica história sobre como eu consegui matar o monstro com apenas uma faca.
Mas o fato é que aquele era um filhotinho minúsculo, do tamanho do meu antebraço.
Levei ele pra casa num plástico com gelo.
Voltamos de Cabo Frio para Niterói e eu fui na farmácia comprar os materiais necessários.
Eu sabia que para empalhar um animal (taxidermia) eu precisaria de algodão, formol e seringa.
E assim eu fiz.
Comprei formol e seringa na farmácia.
Neste momento minha mãe falava com a minha avó no telefone da sala equanto eu empalhava o bicho na varanda. Eu pegava a seringa e aplicava o formol ao longo do corpo do tubarãozinho. Tudo ia bem até que eu resolvi aplicar formol na ponta do nariz dele.
E a agulha empacou. O formol não saía de jeito nenhum. ( óbviamente, o retardado mental tentava aplicar formol no meio de uma cartilagem)
E eu comecei a ficar puto. Aí eu decidi que seria o tubarão eu eu. Eu não podia ser vencido por um filhote escroto de tubrão. Eu ia vencer custasse o que custasse. Me inclinei sobre o animal, usando as duas mãos eu fiz toda a força que eu podia empurrando o êmbulo da seringa numa pressão alucinante. Eu já estava forçando a pressão na seringa por alguns segundos. Lembro que fiz ainda mais força. Apliquei toda força que eu tinha em cima daquela seringa que era MADE IN ARGENTINA.
Eu já estava tremendo de tanta força quando aquela porra estourou.
Assim, deliberadamente, a seringa separou a agulha do corpo da injeção e o formol maldito foi borrifado nos meus dois olhos.
Eu caí para trás na hora com as mãos no rosto. Eu parecia aquele goleiro malandrão do episódio da Rosemere fogueteira nos anos 90.
Eu rolava gritando: – Fiquei cego! Fiquei Cego!!!!
Minha mãe novamente se viu na situação de encerrar a conversa com a minha vó e ir socorrer o filho que mais uma vez, vocacionalmente, se ferrou.
O formol quando cai no olho arde BEM MAIS que plástico derretido. É uma sensação parecida com fazer um colírio usando seis hall´s preto mais um vidrinho de Vicky Vaporoub, duas colheres de álcool absoluto e duas gotinhas de ácido sulfúrico.
Naquela hora eu estava certo que estava finalmente cego.
Por sorte, a gente tinha água boricada em casa e a minha mãe lavou meus olhos com isso. A água boricada diminuiu bastante a queimação alucinante que o formol dava.
Depois de suas horas de sufoco o olho parou de arder. Eu fui no espelho e vi que o branco do meu olho não era mais branco. Era um rosa puxado para vermelho.
Eu vi um bilhão de capilares dilatados. Eu devia ter tirado uma foto do estado do meu olho naquele dia. Parecia coisa de filme. No dia seguinte, eu acordei com a situação oposta. O branco do olho estava no nível mais branco que eu jamais havia visto em toda minha vida. Não havia nenhuma veiazinha aparente. Parecia que eu tinha lavado o olho com OMO – “o branco que sua família merece”.
Super Bonder no olho
O episódio da super bonder no olho foi o mais retardado e o mais tranqüilo de todos, porque eu consegui fechar o olho a tempo.
Quando a gente usa muito a Super Bonder, essa da bisnaguinha, é normal descobrirmos que mais da metade do volume da bisnaguinha é ar que aquela empresa safada coloca. Só isso já era motivo mais que suficiente para processarmos a Loctite, mas o pior não é isso.
O pior é aquele biquinho sacana que a Super Bonder tem. Sempre que terminamos de usar uma gotinha sobe por aquele biquinho e se solidifica numa bela tampa de cristal na ponta do bico.
Aí o primeiro reflexo (um reflexo bem mongol, diga-se de passagem) é pegar a bisnaguinha e apertar ela pra ver se sai a cola. Apertar pra ver se desentope.
Não. Não desentope. O que acontece apenas é que mudamos a pressão interna dentro do caralho da bisnaguinha.
E aí é que temos a brilhante idéia de pegar uma agulha e – Virando o buraco do bico da cola bem na mira do nosso olho – perfurar a cola solidificada no bico.
O que acontece então é uma bela mijada de Super Bonder no nosso olho.
Nesse dia eu consegui fechar o olho bem a tempo e só colei a minha pálpebra. Mas isso foi suficiente para aquela merda queimar lá dentro feito fogo. Corri no banheiro peguei um chumaço de papel higiênico e tasquei em cima.
Maior cagada porque agora eu estava com o olho ainda queimando e um curativo bem bonito de papel higiênico e os dedos colados na cara. Sem falar de uma bela cascata de cola escorrida que descia pelo meu rosto indo até o pescoço e colando a camisa nele.
Era uma cena digna do Mister Bin. E o pior é que foi tudo em menos de dez segundos em absoluto silêncio, porque não ia adiantar nada gritar, já que aquele era um fim de semana e eu estava sozinho em casa.
Com aquele treco colado na mão, no papel, no olho e na camisa eu peguei coma outra mão e abri a torneira. Enfiei a cara debaixo da torneira e tentei jogar água para tentar acalmar o calor.
O processo de endurecimento do cianocrilato ( o componente da super cola) é baseado na geração espontânea de calor, que provoca a evaporação imediata e cristalização de um meio específico. Na verdade, a super cola provoca até combustão espontânea tamanha sua capacidade de gerar calor.
Não crê? faça a experiência: Compre umas quatro bisnagas de super bonder. Pegue um pires velho e coloque uma bola de algodão ali. Então usando óculos de proteção, derrame o mais rápido que puder todo o super bonder sobre o algodão. Afaste-se e espere. Ele vai pegar fogo! Mas se não quiser fazer, veja este video:
Spontaneous Combustion ! – How To…. – The best home videos are here
Bem, depois que a queimação aliviou, eu comecei a molhar e passando sabonete em cima, mexer com a mão, lentamente a cola foi se soltando e eu consegui abrir meu olho. Estava vermelho mas estava inteiro e funcionando.
Tiro de metal na reta do olho
Fora esta experiência do Super Bonder, eu quase fiquei cego tentando cortar um pedaço de metal. Eu usei um alicate de corte e fiz tanta força que aquele treco deu um tiro. Disparou e me acertou os óculos.
Quando eu tirei os óculos para ver, o pedaço de metal havia feito um pequeno buraco na lente. Fraturando-a bem na reta do meu olho.
Essa foi por pouco.
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